Resumo da História de Roma: Império

Estátua de Augusto, o primeiro imperador.

Antes de começar este texto, gostaria de fazer duas observações. Primeiro, não deixem de ler os resumos já publicados sobre a Monarquia e a República Romana. Eles ajudam a complementar este texto, e podem ser acessados nos banners abaixo:



Segundo, vamos delimitar o ano de 476, quando ocorre a queda do Império Romano do Ocidente, como nossa linha de chegada neste texto, mesmo que seja uma linha simbólica. O Império Romano do Oriente manteve-se firme até 1453, e trataremos dele em outra oportunidade.

Conforme citamos no texto sobre a República, cada vez mais os patrícios eram empossados como Ditadores, visando livrar Roma de uma revolta ou aumentar os territórios conquistados. A figura do Ditador servia para ajeitar as pendências, principalmente quando o Senado — e suas várias opiniões divergentes — se mostrava pouco dinâmico em decisões fundamentais para Roma.

Mas para evitar este acúmulo de poder em apenas uma pessoa, criou-se a figura do Triunvirato, onde três patrícios influentes dividiriam as responsabilidades. Só que durante o Primeiro Triunvirato (em 60 a.C.), Julio César voltou da Gália e atacou Pompeu, gerando uma Guerra Civil. Após a vitória ele atropelou vários senadores “conservadores” — que queriam a volta do Poder sem contestação para o Senado —, recusou ser aclamado como imperador e aceitou, de bom grado, o título de “Ditador Vitalício”, quebrando o rodízio entre os patrícios no poder.

Dependendo do historiador, Julio César pode ser retratado como um homem sedento pelo poder, ou uma personagem de extrema habilidade política e preocupado em consertar os problemas de Roma. O fato é que Julio César era um pouco disso tudo e sua personalidade também foi, em parte, a responsável pela sua ruína, pois ele tentou, meio que à força, alterar a máquina administrativa romana, que estava profundamente viciada em cometer qualquer tipo de corrupção só para manter o status quo.

Julio César morreu esfaqueado em 44 a.C. pelo grupo de senadores que ficou conhecido como Liberatores, que julgavam estar livrando Roma da “tirania de César”. Mas nos cinco anos em que liderou os romanos, César conseguiu ocupar uma posição tão firme, que sua morte criou um vácuo de poder só superado pelo Segundo Triunvirato, formado por Marco Antônio, Lépido — dois dos principais generais de César, verdadeiros homens de confiança — e Otávio, seu afilhado e herdeiro direto, já que César não teve filhos.

Lépido não tinha qualquer traquejo político, e após ajudar por alguns anos Marco Antônio a perseguir e matar todos os Liberatores, foi afastado do poder e exilado, enquanto Marco e Otávio — que, diga-se de passagem, se odiavam — lutaram em uma nova Guerra Civil até a vitória de Otávio em 33 a.C., na Batalha de Áccio.

Sem inimigos políticos vivos — com coragem para questionar suas ordens — e sem adversários militares à altura, Otávio aceitou em 27 a.C. o título de Augusto e deu início ao Império Romano.

O destino de Roma novamente nas mãos de apenas um homem


Se vocês leram os dois textos anteriores, linkados lá no início, vão perceber que, em resposta à centralização do Poder nas mãos de um monarca, surgiu a República, que permitia que as decisões tivessem o aval de um número maior de pessoas.

Com a instalação do Império parece que a política romana deu um passo para trás, mas o fato é que Otávio Augusto, o primeiro imperador da dinastia júlio-claudiana, foi um grande administrador, inaugurando uma época que ficou conhecida como Pax Romana: além de anexar várias províncias, Otávio criou o que chamamos hoje de “estados clientes”, que mantinham seu poder local mas serviam Roma de alguma forma, seja com impostos ou defesa das fronteiras.

Ele também reformou o sistema tributário, aprimorou as estradas e criou um sistema de comunicação eficiente entre as províncias; transformou as legiões em um exército permanente, além de criar em Roma a Guarda Pretoriana e serviços que se assemelham aos atuais da polícia e dos bombeiros, ajudando a manter a ordem na capital.

Otávio morreu aos 75 anos, no ano 14, após governar por 41 anos. Tibério, seu filho adotivo, herdou o posto e manteve o Império em crescimento e paz, até a morte de seu filho, Júlio Druso, no ano 23. Em 26, Tibério buscou o auto-exílio e deixou Roma sob as ordens dos prefeitos pretorianos Lúcio Élio Sejano e Névio Sutório Macro, além de designar seu sobrinho Caio César — que na época ainda era uma criança de colo — para ser seu sucessor. É bom citar que mesmo longe de Roma, Tibério continuou Imperador, até a sua morte no ano 37.

E como estamos em um “resumo”, vamos fazer uma lista dos imperadores romanos até 476, com pequenas observações nas figuras mais importantes. É bom citar que até o governo de Adriano, Roma só cresceu, até chegar ao seu apogeu. Depois de Adriano, a queda gradativa de Roma trouxe também vários imperadores que merecem destaque apenas pela quantidade enorme de trocas no poder.

E para não causar confusão, já que muitos adotavam os nomes de “César” e “Augusto”, vamos nomeá-los apenas na forma como entraram para a História, ok?

Ruínas romanas

Lista dos Imperadores Romanos

- Otávio Augusto (27 a.C. a 14 d.C.)
- Tibério (14 a 37)
- Caio César “Calígula” (37 a 41): Ficou mais famoso pelas suas loucuras do que pela sua administração, apesar de ser considerado, para muitos, um imperador generoso com os populares, apesar da extravagância que sempre ostentava. Foi assassinado por uma conspiração integrada por pretorianos e senadores.
- Cláudio (41 a 54): Primeiro Imperador nascido fora da Península Itálica, sucedeu Calígula e conseguiu marcas importantes: conquistou a Britânia e aumentou algumas fronteiras, além de tocar uma pequena reforma jurídica.
- Nero (64 a 68): Sempre foi retratado como um megalomaníaco, mas sua passagem como Imperador foi marcada também por avanços diplomáticos e culturais. Venceu uma disputa com o Império Parta e sufocou uma grande rebelião na Britânia. Também construiu teatros e promoveu jogos e provas atléticas. Suicidou-se durante um golpe de Estado liderado por vários governadores e generais.
- Galba (junho de 68 a janeiro de 69): Foi o líder do golpe que depôs Nero e acabou com a dinastia júlio-claudiana, mas foi retirado do poder por um de seus principais aliados, Otão, que também teve curto império (janeiro a abril de 69). Em abril, as legiões que apoiavam Otão foram derrotadas pelas forças de Vitélio, que também reinou por pouco tempo, até dezembro de 69.
- Flávio Vespasiano (69 a 79): Após o vácuo de Poder criado com a deposição de Nero, Vespasiano inaugurou a dinastia flaviana, que durou pouco mais de duas décadas. Entrou para a História como o Imperador que mandou construir o Coliseu Romano, além de ser o responsável por uma grande reforma tributária, organizando as finanças de Roma após o período conturbado de 68–69.
- Tito (79 a 81): Apesar do curto período como Imperador, Tito enfrentou dois grandes problemas: a erupção do Vesúvio, em 79, além de um grande incêndio em Roma, em 80. É muito elogiado pelos historiadores, que destacam a generosidade de Tito para com as pessoas que perderam bens e familiares durante os desastres. Também tocou grandes obras públicas em Roma, além de inaugurar o Coliseu.
- Domiciano (81 a 96): Também retratado como um Imperador megalomaníaco, pesquisas atuais indicam que Domiciano era extravagante, tomou algumas decisões cruéis para seus opositores mas também era muito pragmático e eficiente. Com seu assassinato, acabou-se a dinastia flaviana.
- Nerva (96 a 98): Já idoso e profundo conhecedor da administração romana, pois servia ao Império desde Nero, Marco Nerva foi aclamado Imperador pelo Senado após a morte de Domiciano. Foi mais um burocrata do que um general, organizando setores da administração que necessitavam de ajustes. Inaugurou a dinastia antonina.
- Trajano (98 a 117): Praticamente indicado como Imperador — já que ele não era parente de Marco Nerva e foi adotado com esta intenção — Trajano conseguiu expandir ao máximo o Império Romano. Melhorou também a estrutura de Roma e de cidades importantes do Império, além de aumentar a importância do Senado em decisões importantes de Roma. Conseguiu sedimentar anos vindouros de esplendor do Império Romano, que duraram quase um século.
- Adriano (117 a 138): Prosseguiu com as melhorias estruturais de Trajano e ainda por cima ajudou a propagar a cultura helênica, além de patrocinar a construção e/ou reforma de vários templos religiosos e edifícios públicos por todo o Império. Adriano foi o arquiteto responsável pela construção do Panteão Romano, que está de pé até hoje!

Panteão romano.

- Antonino Pio (138 a 161): O fato mais marcante deste imperador é que ele manteve os avanços de Adriano, melhorou ainda mais o diálogo com o Senado e ganhou o apelido “Pio” pela zuêra, pois insistiu muito na deificação de Adriano.
- Lúcio Vero (161 a 169)
- Marco Aurélio (161 a 180)
- Comodo (177 a 192):
Calma pessoal, as datas não estão erradas. Neste período entre 161 e 180 Roma chegou a ter dois imperadores em momentos distintos. Comodo, que encerra o trio, foi o responsável por selar a paz com as tribos germânicas. Nesta época os recursos econômicos romanos já se mostravam insuficientes para manter um grande número de legiões permanentes. Para alguns, foi o início do declínio do Império, e o assassinato de Comodo iniciou o que chamamos de “o ano dos cinco imperadores”, uma situação bem parecida com a época 68–69…
- Públio Pertinax (31 de dezembro de 192 a 28 de março de 193)
- Dídio Juliano (28 de março de 193 a 1 de junho de 193)
- Septimio Severo (193 a 211)
- Pescênio Níger (9 de abril de 193 a maio de 194)
- Clódio Albino (196 a 197):
Vou só fazer um comentário rápido porque a gente está em um resumo, não em um texto específico: esta época é uma zona, um Game of Thrones movido à tarantella. Pesquisem aí na internet, caso haja interesse nesta época específica, ok? O que a gente precisa saber é que Septimio Severo saiu vivo dessa confusão toda, iniciou a dinastia severa, ainda teve tempo de dividir o Império com seu filho Geta (entre 209 e 211), além de indicar seu sucessor.
- Marco Aurélio “Caracala” (211 a 217): Concedeu a cidadania romana a todos os habitantes livres do império, principalmente bárbaros que viviam como colonos agrícolas. Sua medida teve um objetivo fiscal, aumentando a base tributária. Esta situação não concedia direitos políticos aos novos cidadãos, mas permitia aos membros das elites provinciais o acesso a uma carreira na administração imperial e tornava todos iguais perante o sistema jurídico romano.
- Macrino (8 de abril de 217 a junho de 218): Matou Caracala e proclamou-se Imperador, mas foi deposto após um golpe militar.
- Heliogábalo (218 a 222): Após a derrota de Macrino, assumiu o Império o neto de Caracala, com apenas 14 anos. Heliogábalo é considerado tão pervertido quanto Calígula, além de ter tentado inserir uma nova divindade em Roma, em substituição a Júpiter. Óbvio que não deu certo e esta foi sua ruína.
- Alexandre Severo (222 a 235): Último da dinastia severa, é considerado um imperador “do bem” — até com os cristãos! —, mas não governou com muito apoio político e militar.
- Maximino Trácio (235 a 238): Frequentemente é lembrado como o imperador que iniciou a Crise do Terceiro Século, que culminou com a queda do Império. Mas o fim de seu reinado também marca “o ano dos seis imperadores”, outro Game of Thrones regado a porpeta que, você já sabe, não vamos detalhar aqui.

Após o ano de 238 até 284, tivemos uma série de imperadores que duraram pouco tempo no poder, pontuando a deterioração do Império Romano.

Regiões como a Gália, a Britânia ou a Palmíria (esta última abrangia as províncias da Síria, Palestina e Egito) tiveram períodos em que, por exemplo, um general se auto-proclamava Imperador e ninguém de Roma contestava, até algum general chegar na região com algumas legiões para derrubar este “Imperador”.

Ás vezes este mesmo general voltava para Roma reclamando o Império às suas ordens, e acabava morto por uma conspiração meses depois. Esta época é chamada de Anarquia Militar ou Domínio, quando alguns imperadores morreram de formas naturais, outros foram mortos por adversários políticos ou em campanhas militares.

Quem segurou a barra e conseguiu se manter no poder por um bom tempo foi o imperador Diocleciano, que reinou entre 284 e 305. Ele é o responsável por criar a Tetrarquia e dividir administrativamente o Império, criando as regiões do Ocidente e Oriente.

É bom citar que ainda não existia, nesta época, a divisão real do império, tudo ainda era o Império Romano, mas a parte oriental começava a se destacar, livre das picuinhas da Península Itálica que corroíam a administração.

Foi o Imperador Constantino (306 a 337) que transferiu a capital de Roma para Bizâncio em 330, criando as bases para a divisão que ocorreu nos idos de 395, agora sim com a criação do Império Romano do Oriente. Após a morte do Imperador Teodósio (379 a 395), o império foi dividido entre seus filhos: Honório (393 a 423) ficou com a porção ocidental, enquanto Arcádio (395 a 408) ficou com a parte oriental.

Por que o Oriente não sofreu os mesmos problemas do Ocidente?

Antigamente alguns livros de História ainda traziam a informação de que apenas as invasões bárbaras, violentas, haviam derrubado o Império Romano. Pior do que as investidas violentas dos vizinhos foi a invasão silenciosa de povos que viviam à margem do Império. Eles simplesmente passavam a viver dentro do Império como qualquer outro morador, sem qualquer atitude violenta e ainda por cima trabalhando, como um romano comum.

A administração imperial, na ânsia de recolher impostos para manter as legiões e a vida mansa dos romanos abastados, simplesmente aceitava estes imigrantes.

Roma também havia se tornado uma cidade tão inchada de “nobres” que muitos passaram a viver em suas terras longe de Roma. Aquele sistema de cessão de terras que terá seu auge durante o reinado de Carlos Magno, lá no século VIII, começou nesta época, nos séculos II e III, e foi um dos estopins para a queda de Roma.

Outro fator envolvia as legiões, que durante muito tempo foi um dos suportes do Império. Sem muitas condições financeiras de arcar com as expedições militares, o crescimento territorial do Império estagnou, desmobilizando vários postos militares que seriam ocupados por soldados que muitas vezes morriam nas campanhas, tirando de Roma o ônus de manutenção.

Muitos legionários serviam por um tempo — nas funções de defesa do território — e depois voltavam para suas terras. Outros ficavam em Roma e engrossavam a fileira dos famintos. Como sustentar toda esta gente se não havia trabalho para todos, já que o Império contava com muitos escravos?

A própria escravidão, outro pilar do Império, começava a ser questionada por uma religião emergente da época: o catolicismo.

Já a parte oriental florescia cultural e economicamente. Rota de viagem de muitos mercadores que comercializavam produtos da Europa e Ásia, Bizâncio logo se tornou uma próspera cidade, tanto que Constantino mudou a capital para lá, deixando Roma destituída de poder.

Era o mais lógico a se fazer, pois quando Odoacro, líder dos hérulos, comandou a invasão e o saque de Roma em 476, acabou destronando um jovem, fraco e assustado Rômulo Augusto, o último imperador do ocidente.

Espero que os heróis que conseguiram chegar até aqui tenham entendido o resumo. Qualquer dúvida, o espaço dos comentários está aberto. Na medida do possível (e sem pressa, por favor!) responderei as dúvidas, ok?

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