A Cruzada do Excomungado


Frederico II de Hohenstaufen era o imperador do Sacro Império Romano-Germânico e herdeiro do trono de Jerusalém, pois era casado com a primeira filha de João de Brienne, Isabel II.

João de Brienne ocupou o trono de Jerusalém entre 1210 e 1225. Em 1227, Frederico resolveu reclamar o trono e seus direitos sobre a ilha de Chipre e os territórios de Jerusalém e Acre, área do Reino de Jerusalém.

Para isto ele convocou uma Cruzada, a sexta desde que o movimento começou na Europa.

Esta cruzada deveria partir no mesmo ano para a região, retomando áreas ocupadas, quando necessário, ou somente instituindo seu reinado.


Conhecedor da importância religiosa da Cruzada e feliz por manter um representante em uma região sagrada para o catolicismo, o papa Gregório IX, recém-chegado ao pontificado e engajado em organizar a Santa Inquisição, viu-se satisfeito com a determinação de Frederico.

Mas o papa não contava com um probleminha: Frederico era favorável ao diálogo, além de ter um profundo respeito pela religião islâmica. Quando já havia despachado alguns navios para a Síria com soldados para lutar pelos locais sagrados, Frederico ficou sabendo que o sultão do Egito havia mandado uma comitiva diplomática para selar um acordo de paz entre as partes. Frederico então resolveu aguardar esta comitiva antes de partir para a região (e consequentemente, para a guerra).

Então Gregório IX, insatisfeito com a postura moderada do imperador, resolveu excomungá-lo. Para quem não sabe, a excomunhão é uma punição utilizada para se retirar ou suspender uma pessoa, um crente, de sua filiação religiosa. Neste momento o papa Gregório IX acabava de expulsar Frederico II da Igreja Católica.

Rumo ao Oriente: Frederico teve sérios problemas na Sexta Cruzada

Mesmo excomungado, Frederico II resolveu manter seus planos, apesar do atraso de sua partida. As negociações de paz não deram resultado com o sultão do Egito e ele resolveu partir para a Síria no verão de 1228.

Galera, o pau tá quebrando pro meu lado lá em Roma mas vem comigo que não tem erro!

Só que Frederico teve diversos problemas por causa da excomunhão. Vários soldados e cavaleiros que acompanhavam - ou acompanhariam - Frederico até a Terra Santa deixaram de lado as ordens do imperador, afinal de contas, o papa expulsou o imperador da Igreja. Reis que deveriam ajudar Frederico mandando soldados para auxiliar na conquista não quiseram mais ajudá-lo, até mesmo com medo de também receberem a excomunhão.

Mas o imperador manteve a Cruzada com a esperança de que a reconquista do Reino de Jerusalém poderia reverter sua excomunhão, mas estava cada vez mais difícil. Qualquer ordem mal interpretada por um soldado causava a deserção do mesmo, e não era raro quando vários soldados resolviam deixar o grupo de uma só vez, isso quando não brigavam entre si.

Para piorar de vez a situação a sua esposa Isabel morreu em maio de 1228. Saindo da Síria, Frederico partiu em julho para a ilha de Chipre, pensando primeiro em descansar e preparar os poucos soldados, agora já reforçados com a parcial ajuda dos Cavaleiros Teutônicos, para a viagem até Acre e Jerusalém. Só que ao chegar na ilha ele teve que encarar uma luta contra João de Ibelin, que comandava o lugar.

Mesmo vencendo Ibelin do então “Reino de Chipre”, Frederico teve muitas baixas. Sabendo que seria impossível vencer qualquer batalha em Jerusalém, ele passou então para a via diplomática. Percebendo que havia uma contenda entre os sultões de Damasco e do Egito, Frederico negociou com Malik el-Kamil, sultão do Egito, e garantiu sua soberania no Reino de Jerusalém por 10 anos, firmando o Tratado de Jafra.


Um fator que certamente influenciou na boa recepção do sultão foi o profundo respeito, admiração e conhecimento da cultura islâmica por parte de Frederico. Como já descrito, Frederico era um admirador do Islã e suas demonstrações de respeito e conhecimento pela religião de Alah surpreendeu positivamente todo o sultanato egípcio.

Além de garantir a soberania sobre o Reino de Jerusalém, Frederico também garantiu a liberdade de culto para cristãos e muçulmanos na cidade sagrada. Só que esta atitude novamente moderada do imperador fez com que o papa Gregório IX excomungasse novamente Frederico II.

Gregório IX, O Excomungador

TEJE EXCOMUNGADO!!! (de novo!)


Gregório IX organizou as bases e fundou o que viria a ser o sistema repressivo mais cruel da Idade Média, a Santa Inquisição.

O papa teria sido amigo de São Francisco de Assis e incentivou a criação de ordens monásticas como a dos franciscanos e dos dominicanos. É fácil entender porque Gregório IX não aprovou as atitudes "moderadas" de Frederico II.

Na Idade Média a atitude de qualquer católico frente ao islamismo que pendia para o diálogo não era bem vista pela Santa Sé. A Igreja Católica Apostólica Romana não aceitava que muçulmanos e cristãos discutissem seus pontos de vista religiosos, mesmo sabendo que nas áreas-limite, onde a população vivia sob as duas religiões, existiam constantes diálogos, tanto entre religiosos quanto entre fiéis, até mesmo para evitar os conflitos.

É fato também que muitas das vezes os muçulmanos usaram da força para impor a fé islâmica durante a jihad, mas a verdade é que os dois lados tinham desavenças que muitas das vezes eram resolvidas sem qualquer diálogo, apenas com o uso da força. Isto quer dizer que cristãos também eram violentos não só quando precisavam se defender, ou seja, os ataques sem motivo aconteciam dos dois lados.

Neste cenário o imperador Frederico conseguiu uma coisa que outros reis e imperadores levaram milhares de soldados à morte tentando: o domínio da região da Terra Santa sem luta. Existiram conflitos na Sexta Cruzada sim, mas não se comparam aos conflitos ocorridos nas Cruzadas passadas.

Por isto Gregório IX não deve ter ficado muito satisfeito. Era costume dos papas da época mandar soldados, cavaleiros e reis para a luta em nome de Deus, visando a reconquista dos lugares sagrados, na época ocupados por muçulmanos.

As Cruzadas reabriram rotas comerciais entre a Europa, a Ásia e a África, movimentaram pessoas e produtos entre os três continentes e influenciaram (ou não) milhares de pessoas a mudar de religião ao entrar em contato direto com “o outro”. Foi um movimento importantíssimo na Idade Média, mas deixou milhares de mortos pelo caminho.

Frederico II manteve sua influência na região por 15 anos, até os turcos retomarem Jerusalém e conseguiu isso sem muitas perdas humanas. Apesar de ter sido “A Cruzada do Excomungado”, a Sexta Cruzada merece especial atenção pois ajudou a favorecer diálogo entre duas religiões diferentes, mesmo que Cruzadas posteriores tenham voltado a apresentar conflitos bem violentos entre cristãos e muçulmanos.

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