O que foi a Peste Negra?


Em tempo de pandemia de coronavírus (COVID-19), vamos falar sobre uma pandemia que desafiou a Europa no século XIV. A Peste Negra, também conhecida como Peste Bubônica, matou praticamente um terço da população e ajudou a reconfigurar o continente europeu, contribuindo para revoltas camponesas e até mesmo a Guerra dos Cem Anos.

Origens e propagação

Acredita-se que a Peste Negra teve sua origem na Ásia, provavelmente na China e chegou à Europa via caravanas de comércio marítimas, através de rotas do Mar Mediterrâneo que aportavam nas cidades costeiras, como Veneza e Gênova.

Outra versão aponta que a doença, após matar cerca de 24 milhões de pessoas na Ásia Central (em regiões da China, Mongólia, Síria, Mesopotâmia e até mesmo o Egito), entrou em contato com os europeus pela primeira vez em um conflito ocorrido em Caffa, que era uma colônia genovesa na região da Crimeia. A cidade foi sitiada pelos tártaros, que em um certo momento - após sofrerem baixas das tropas por causa da Peste - passaram a catapultar corpos contaminados para dentro das muralhas da cidade.


Independente do "paciente zero", o fato é que as rotas comerciais da época levaram a doença até a Europa.

Uma vez no continente europeu, acreditava-se que a propagação da doença deu-se, inicialmente, por meio de pulgas e ratos infectados com o bacilo (as pulgas vivem nos ratos e os ratos vinham nos barcos), que era transmitido às pessoas quando eram picadas pelas pulgas – desnecessário lembrar que os hábitos de higiene da maioria da população nesta época eram lastimáveis. Com o avanço da doença, passamos a ter transmissão por via aérea, através de espirros e gotículas. Aí a coisa complicou em um nível absurdo.

Mas esta afirmação dos ratos como principais vetores da doença vem perdendo força frente à recentes pesquisas científicas, que colocam o piolho e a pulga humanas como os principais responsáveis pela disseminação da Peste [1].


Imaginem um continente inteiro onde a população tinha deficiências graves de alimentação - muitos camponeses eram famélicos, trabalhavam para ter o que comer - poucos recursos de higiene e práticas questionáveis - como tomar poucos banhos ao longo do ANO - além de desconhecimento da forma de tratar da doença, além da sua alta letalidade. Estima-se que os doentes morriam em menos de 72 horas (3 dias) após contrair a doença.

Junte-se a isso a desinformação e as crendices, que pioravam o cenário. Os judeus foram os primeiros culpados pela doença. Depois culpou-se os gatos, animais considerados "aliados das bruxas".

Apesar da desinformação, com o tempo os médicos aprenderam pelo menos a prevenir a propagação da doença. Aquelas máscaras com bico são desta época, além do uso de luvas e roupas longas de couro, que ajudavam a evitar o contato do corpo do médico com as secreções dos doentes. Os infectados passaram a ficar em isolamento, só tendo contato com os médicos e, nos últimos momentos de vida, com os padres.

Pessoas mais ricas, com propriedades fora dos feudos e cidades, buscaram também o isolamento. Mas o fato é que, dentro de dez anos (entre 1343 e 1353) cerca de um terço da população morreu por causa da Peste. A Europa voltou a passar por outros surtos da doença até 1720, quando foi registrado o último surto em Marselha (França).

Consequências da Peste

Esse número de um terço da população morta pela Peste é questionado por historiadores como Jacques Le Goff (falecido em 2014 mas até hoje um dos maiores medievalistas do planeta). Ele considera que cerca de DOIS TERÇOS da população europeia foram vitimadas pela Peste.

Imagine você, camponês, vivendo em um cenário onde vários de seus "colegas de trabalho" morreram. Não só camponeses que trabalhavam nas plantações, mas também ferreiros, padeiros, costureiras, soldados, trabalhadores da administração pública, padres e vários nobres. Faltou mão de obra no continente inteiro porque a doença não escolhia classe social. Isso gerou uma certa demanda, o que fez com que o valor do trabalho aumentasse de forma significativa para muitos.



Isso não quer dizer que, no curto e médio prazo, a Peste acabou com a miséria da Europa medieval, mas as condições de vida melhoraram um pouco. O fato da população contrair o hábito de limpar com mais frequência os locais onde viviam (o que afastava pulgas, piolhos e, por que não, os ratos) e passar a tomar mais banhos também ajudou um pouco na qualidade de vida.

Mas chega a ser engraçado como muitas das vezes os europeus deram sorte para se livrar da doença ao longo dos anos - e dos surtos.

Na primeira epidemia, ainda no século XIV, a população mais suscetível à doença não tinha alguns genes específicos que foram praticamente dizimados. Os indivíduos com estes genes viveram e se reproduziram, criando uma população mais forte. Já em 1666 um grande incêndio em Londres destruiu muitas casas de madeira e telhado de colmo (uma espécie de palha) que, ao serem substituídos por casa de pedra, tijolos e telhas, ajudaram a afastar ratos, piolhos e pulgas.

Independente do europeu dar sorte ou não, nós não podemos dar mole para o azar (sim, puxei o texto para os dias de hoje). Temos aí uma doença que até o momento (30 de março de 2020) tem uma vacina desconhecida, tem o poder de fácil contágio e pode matar por insuficiência respiratória, além de colapsar os sistemas de saúde ao redor do mundo. Fique em casa, ninguém quer perder a vida pra um vírus.



Fontes

[1] "Os ratos são inocentes: pesquisa aponta que humanos espalharam a peste negra, epidemia mais mortal da história", reportagem da BBC sobre a pesquisa.

- LE GOFF, Jacques. "As raízes medievais da Europa". Ed. Vozes.

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