Os Cretenses


A civilização minoica — nome pelo qual também costumamos chamar o povo cretense nos primeiros séculos de existência — desenvolveu-se de uma forma organizada em cidades por volta de 3000 a.C. na ilha assinalada no mapa abaixo, às portas do Mar Egeu e com posição destacada no Mar Mediterrâneo. Mas arqueólogos já acharam diversos indícios que a ilha era habitada por povos neolíticos desde 6000 a.C.

As primeiras peças de cerâmica encontradas em escavações na ilha datam de 5700 a 5600 a.C., o que comprova a presença humana na região.


Os primeiros habitantes, provavelmente povos oriundos das cercanias dos mares Mediterrâneo e Egeu, tinham na agricultura o principal sustento. Cultivavam principalmente oliveiras, vinhas e cereais como trigo e lentilhas, além de criar bois e cabras, tanto nas planícies da ilha como em volta dos primeiros assentamentos populacionais, que mais tarde tornaram-se as primeiras cidades cretenses.

Eles também desenvolveram um forte artesanato e por volta de 3000 a.C. — portanto, já na Idade do Bronze — aprenderam a manusear metais e passaram a fabricar utensílios que eram vendidos em diversos pontos do Mediterrâneo. Comercializavam muito com os egípcios e com os povos das ilhas do Mar Egeu, além das regiões da Palestina e da Síria.

Aproximadamente no ano de 1750 a.C., Creta passou por um sério problema que desestruturou toda a organização social da ilha. Não se sabe ao certo se foi um grande terremoto que destruiu muito do que existia, ou uma invasão de povos vindos de outros pontos do Mediterrâneo que desfigurou a sociedade cretense. O que se sabe é que realmente houve um grande evento que abalou a sociedade minoica.

Por volta de 1700 a.C., já no reinado do rei Cnossos, Creta voltou a se organizar de forma mais consistente. Os cretenses instalaram vários portos ao longo do Egeu e do Mediterrâneo, o que garantiu o ressurgimento da economia marítima da ilha. Cnossos também ficou conhecido por construir um palácio belíssimo, e grande parte de suas ruínas estão de pé até hoje!


Acima, vista de parte das ruínas do Palácio de Cnossos. Em volta funcionavam mercados, casas de banho, oficinas e armazéns. Cnossos pode ser considerado uma cidade. E muitas obras de arte ainda estão intactas nas paredes das ruínas, além de outras que foram encontradas por arqueólogos e levadas para museus.

No século XV a.C. o povo aqueu, originário do Mar Egeu, invadiu lentamente a ilha de Creta. Apesar da invasão, a fusão das duas culturas criou a sociedade micênica, que no futuro seria a base de formação da cultura grega.

É bom citar que nesta época cidades cretenses influenciavam cidades gregas, que chegavam a pagar tributos à Creta. No século XII a.C., invasões mais rápidas e violentas acabaram com a sociedade micênica. A chegada dos eólios, dos jônios e principalmente os dórios — vindos da região do Peloponeso — promoveram uma invasão realmente violenta. Grande parte da cultura da ilha foi assimilada ou simplesmente sumiu por volta de 1380 a.C.

Alguns historiadores sustentam a tese de que a erupção de um vulcão, por volta de 1470 a.C. na ilha de Santorini, bem próximo a Creta, causou um maremoto (tsunami?) que destruiu muitos dos grandes portos cretenses. Esta destruição abalou os moradores da ilha que, sem muito o que fazer e sem muitas motivações para reconstruir tudo que foi destruído, teriam sucumbido aos dórios sem muita luta.

Eu, Vinicius, enquanto historiador, acredito que os dois fatores — a invasão e o maremoto — foram fundamentais para a derrocada da sociedade micênica, já que os habitantes da ilha, na época, deveriam ser bem mais desenvolvidos que os dórios, até mesmo na parte militar, o que dificultaria muito uma invasão. Com um cenário de terra arrasada por causa de um desastre natural, a invasão fica mais fácil de atingir seus objetivos.

Mas vamos falar mais sobre alguns aspectos da sociedade cretense…

Organização política

Creta foi uma talassocracia formada por cidades que eram parecidas com as cidades-estado gregas, governadas pelas elites locais mas, diferente da Grécia, as cidades estavam ligadas e eram dependentes de uma capital — neste caso, a capital era a cidade de Cnossos. Também diferente da Grécia, as cidades cretenses não lutavam entre si, o que dá uma noção de que havia uma unidade, uma ideia de povo comum entre os habitantes da ilha.

O rei Minos — aquele da lenda do Minotauro — nunca teria existido na verdade. Pelo menos é o que concluem os arqueólogos e historiadores que se debruçam sobre o passado cretense. A conclusão vem do fato de que até hoje não foi encontrado em Creta qualquer vestígio de que realmente tivesse existido qualquer rei com este nome.

O palácio de Minos, onde estaria o famoso labirinto na verdade é o palácio de Cnossos. Os gregos é que acharam o palácio um verdadeiro labirinto e criaram a lenda. Aliás, “lenda” e “Grécia” são duas palavras que geralmente andam juntas na Antiguidade…

Religião e mitologia

Neste ponto os cretenses eram diferentes de todos os povos antigos: eles adoravam exclusivamente as divindades femininas, ou seja, tinham uma religião matriarcal. Os homens participavam dos cultos na posição de sacerdotes, mas as divindades cultuadas eram todas femininas.

Eles não valorizavam só o Sagrado Feminino, mas as mulheres também ocupavam posições de destaque no organização pública. Enfim, a mulher era venerada pela sociedade cretense como deveria ser. Também veneravam o touro, animal encontrado em diversas gravuras juntamente com outros elementos religiosos para os cretenses, como o martelo de dois gumes — também conhecido como labrys.

Quanto à mitologia cretense os gregos — conforme comentado mais acima no texto — é que criaram toda uma mitologia usando a ilha como pano de fundo. Platão, ao falar sobre Atlântida, descreve a grande cidade como uma ilha desenvolvida e próspera que teria sido engolida pelo mar e sua população desapareceu.

Ao ver fotos das ruínas do palácio de Cnossos e saber que Creta alcançou um certo desenvolvimento social e econômico considerável para a época, de quem vocês imaginam que Platão poderia estar falando?

A lenda do Minotauro

Além da associação com Atlântida, Cnossos abrigou a lenda do Minotauro. O rei Minos teria pedido a Poseidon que mandasse um touro branco como reconhecimento de seu reinado. Só que Poseidon queria que o rei Minos sacrificasse o animal, o que não foi atendido — Minos acabou sacrificando outro animal no lugar deste.

Afrodite então fez com que a mulher de Minos, Parsifae, se apaixonasse pelo touro. Parsifae então pediu para que o artesão Dédalo construísse uma vaca de madeira para que ela, uma vez escondida dentro da vaca, pudesse “se entregar” ao animal. O resultado desta união é o Minotauro.

Parsifae cuidou da criança, mas à medida que ela crescia ficava cada vez mais furiosa. A única coisa que aplacava a fome do Minotauro era a carne humana, e Minos mandou construir um grande labirinto para abrigar a criatura.

Nesta época a cidade de Atenas era governada pelo rei Egeu. Uma versão da lenda diz que Androgeu, filho de Minos, teria sido morto por atenienses e que seu pai declarou guerra a Atenas e venceu, obrigando Egeu a enviar anualmente 14 jovens, sendo 7 homens e 7 mulheres, para servir de alimento para o Minotauro.

No terceiro ano que teria que enviar os jovens, o filho de Egeu, Teseu, se ofereceu para matar o Minotauro e seguiu junto com os outros jovens para Creta. Mesmo contrário à ideia, Egeu aceitou que o filho fosse até Creta mas pediu que, caso Teseu voltasse com vida, levantasse velas brancas no barco.

Chegando à ilha, a filha de Minos, Ariadne, apaixonou-se por Teseu e deu a ele um novelo, no qual ele poderia se guiar no caminho de volta — uma versão diz que a própria Adriadne guiou Teseu até onde estava o Minotauro.

Teseu então lutou bravamente contra o monstro até matá-lo. Liderando outros atenienses na fuga, conseguiu ainda destituir Minos do trono só que, ao voltar para casa, esqueceu de hastear velas brancas no barco.

Egeu, seu pai, ao ver velas pretas no horizonte, entrou em desespero. Acreditando que o filho estava morto, o rei se jogou no mar, que acabou ganhando seu nome (Mar Egeu).

Arte cretense

Como a civilização minoica foi uma das “bases” para a cultura grega, existem semelhanças entre a arte dos dois povos, mesmo em épocas de desenvolvimento bem distintas.

Quem já conheceu Creta sabe — e sempre comenta — que a ilha guarda diversas obras de arte de seu passado. Se você pesquisar no Google Imagens sobre a ilha de Creta vai constatar que além das obras de arte a ilha tem suas belezas naturais, além da sua importância histórica. O certo é que Creta é passagem obrigatória para todos que querem conhecer um pouco mais sobre a civilização grega.

Abaixo, separei algumas imagens exemplificando a arte cretense, pela ordem (espero que o Google não reclame de eu usar certas imagens): o Afresco do Toureiro, estátuas de duas deusas cretenses e uma cerâmica com desenho de um polvo, animal encontrado em várias obras de arte da ilha.





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