Os Hindus

Crianças vestidas para o Festival Ram Navami [foto: Dibyangshu Sarkar/AFP — fonte]

A origem de um dos povos mais importantes da Ásia remonta de meados do segundo milênio antes de Cristo, quando os dravidas iniciaram a ocupação da região da Índia conhecida como Pendjab — ou Punjab, a “região dos cinco rios” —, próximo ao rio Indo e, assim como os harappeanos, que viviam no Paquistão, alcançaram um relativo desenvolvimento a partir do domínio das técnicas de construção de canais de irrigação e consequente controle das cheias dos rios da região.

O termo “hindu” é antigo e tem origem persa, que significa “o (povo) que vive do outro lado do rio (Indo)”.

As cidades dravidas tinham ruas largas e casas de pedras que contavam com saneamento, além de grandes espaços voltados para a plantação. Eles também tinham um forte comércio com os povos vizinhos. Mas por volta do século XVIII a.C. os arianos invadiram a região dos cinco rios, escravizaram o povo dravida e a partir desta invasão muitos historiadores consideram como o início da civilização e do povo hindu.

Festival Maha Kumbha Mela, em Allahabad

A implantação do sistemas de castas

Os arianos dominaram o povo dravida e controlaram toda a região, tanto no campo militar quanto no religioso e administrativo.

Restava aos dravidas a submissão aos arianos, o trabalho forçado ou a fuga para o sul, já que o povo não era lá muito guerreiro e não impôs muita resistência à invasão ariana.

Mesmo assim os invasores sentiram a necessidade de legitimar a ocupação, e para isto foi criado o sistema de castas, onde cada pessoa já nascia determinada a viver em uma classe social até sua morte.

O veículo utilizado para difundir o sistema de castas foi justamente a religião — do qual trataremos com mais detalhes daqui a pouco.

Politeístas, os arianos incorporaram alguns costumes dos povos da região e se apoiaram ideia de que todos nasciam do corpo do deus Brahma, e algumas partes do corpo significavam uma casta diferente. Era impossível ascender uma classe, além de ser proibido questionar ou desafiar alguém que nasceu em uma casta superior. Como o casamento entre castas também era proibido, não havia ideologia — ou melhor, teologia — melhor para controlar um povo.

É bom citar que este sistema de castas já existia nos costumes dos povos da região — pois já era previsto nas escrituras sagradas (Vedas) —, mas os arianos tornaram a classificação algo importantíssimo na hierarquia social do povo.

As castas são as seguintes:

1 — Brāhmanas: os sacerdotes e os membros letrados da sociedade, nascidos da cabeça do deus. Eram considerados a casta mais importante;
2 — Kṣatrya ou Xátrias: eram os guerreiros, que muitas das vezes também tomavam posições políticas. Nascidos dos braços do deus, dividiam o controle da sociedade com os brahmanes. Os xátrias cuidavam da parte bélica e administrativa enquanto os brahmanes da parte espiritual;
3 — Vaiśya ou Vaicias: eram os comerciantes, artesãos, camponeses enfim, os profissionais comuns da sociedade. Segundo a lenda, teriam nascido das pernas do deus Brahma;
4 — Sūdras: nascidos dos pés de Brahma, eram os servos, de um modo geral, que prestavam serviços a uma casta superior. Também existiam artesãos e camponeses, além de operários diversos;
5 — Párias: estes nasceram do pó abaixo dos pés de Brahma, eram os marginalizados da sociedade. Hoje em dia são chamados de dalit ou haryens, e sempre foi a casta mais miserável da sociedade hindu. Quando alguém desrespeitava algum membro de uma casta superior, podia ser rebaixado a um pária e deveria viver como tal, à margem da sociedade, até a morte.
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Os arianos não destruíram a estrutura das cidades dravidas, de forma que a região não sofreu modificações estruturais profundas. Por causa justamente da implantação das castas é que nós temos até hoje uma sociedade hindu entrelaçada com sua religião, assim como os árabes, apesar da Constituição indiana, promulgada em 1950, proibir a discriminação e a separação da sociedade em castas.

Além disso, é importante citar que os hindus não estão delimitados pelas fronteiras da Índia, como normalmente costumamos ler por aí. Eles constituem um povo comum e que vive espalhado pelos atuais territórios do Paquistão, Nepal, Singapura, Bangladesh e Sri Lanka, entre outros países asiáticos, além dos milhares de imigrantes que vivem em outros continentes.

Religião


A cidade sagrada de Varanassi é banhada pelo rio Ganges. Apesar da poluição, o Ganges também é considerado sagrado.

Politeístas, os hindus adoram três deuses principais: Brahma, a divindade criadora, responsável pela alma universal, Vishnu, a entidade preservadora da criação, e Shiva, a entidade destruidora.

Eles também seguem os textos sagrados conhecidos como Vedas e Upanixades, além dos Tantras, Puranas, Ágamas e o Bagavadguitá — todos escritos em sânscrito —, que também são textos importantes do hinduísmo. Os Vedas, principais textos hindus e datados de aproximadamente 4000 a.C. — e adotados pelos arianos após a invasão —, contêm as verdades eternas reveladas pelos deuses e a ordem (dharma) que rege os seres e as coisas.

A fé também é voltada para o culto aos avatares (devas), que são manifestações corporais do poder supremo e incorporam as características de um dos três deuses principais. Desta forma, os hindus cultuam cerca de 300 mil divindades diferentes, cada uma adaptada de acordo com a realidade cultural dos praticantes. Dependendo da região, mudam os costumes e a realidade social dos fiéis e mudam os avatares.

Os hindus foram responsáveis pela construção de templos belíssimos e que estão espalhados por todo o sul da Ásia.

Templo de Angkor Wat (Cambodja).

Um dos principais personagens do hinduísmo é o Buda Siddhartha Gautama, um príncipe que viveu por volta do século V a.C. e que renunciou a tudo para dedicar-se à vida espiritual. Segundo seus seguidores, ele chegou a uma evolução espiritual tão grande que atingiu a iluminação, por isto ele é normalmente chamado de “o iluminado” ou “o despertado”.

Fundador do budismo, os ensinamentos espirituais de Gautama são tão respeitados e citados mundo afora que normalmente nós não nos damos conta de que o budismo é uma vertente do hinduísmo.

Depois de atingir a iluminação aos 35 anos, Gautama peregrinou por diversas regiões do sul da Ásia, espalhando seus conhecimentos e arrebatando seguidores por onde passava.

Seus ensinamentos foram passados pelos seus seguidores às novas gerações principalmente de forma oral, e apenas 400 anos depois é que estes ensinamentos foram reunidos e compilados de forma escrita.

Como religião comum a várias culturas diferentes, o hinduísmo pode ser comparado ao cristianismo, que engloba vários povos com suas diversas culturas em torno de uma crença comum, mas que também tem suas particularidades e divisões — católicos, evangélicos, ortodoxos etc… — Mas, pensando bem, o cristianismo veio DEPOIS do hinduísmo, ou seja… é melhor comparar o cristianismo ao hinduísmo, e não o contrário.

Enquanto terceira maior religião em número de seguidores do mundo, o hinduísmo também se confunde com próprio o povo hindu, o grupo étnico proveniente lá daquela “união” entre arianos e drávidas, entre outros povos que viviam na região.

Por séculos eles tiveram relativa paz, ou pelo menos só se preocupavam com conflitos internos ou com povos próximos que ameaçavam, às vezes, suas regiões. Como também tinham a vocação para o comércio, os hindus não foram tão importunados por seus vizinhos — até mesmo porque a cadeia de montanhas do Himalaia dificultava a migração de povos exteriores.

Só no século XV, instigados pelas especiarias produzidas na Ásia, é que os europeus resolveram atravessar os oceanos atrás do comércio por aquelas terras.

Nos séculos seguintes, a industrialização e a busca por mercados consumidores vai aproximar, mesmo que a contragosto, europeus e hindus. A Índia, berço do hinduísmo, foi colônia britânica até meados do século XX, quando um simpático senhor conhecido como Mahatma Gandhi desafiou os ingleses e instigou seus pares a buscar a independência.

Mas isto é assunto para outro texto…

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