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As confederações de aldeias africanas


Para entender parte da organização social e política de muitas tribos africanas, principalmente as sub-saarianas, é necessário conhecer como funcionavam — e ainda funcionam, em muitos casos — as confederações de aldeias africanas. Vamos lá:

A organização das aldeias africanas

Independente de estudarmos um grande e complexo reino africano do passado ou um pequeno reino, na maioria das tribos os africanos se organizavam em torno da fidelidade ao líder e das relações de parentesco existentes.

Este líder normalmente era o membro mais velho — ou então era um membro jovem, porém com competência suficiente para comandar a tribo — e era responsável também por outros pontos importantes, como manter a justiça entre os membros, conduzi-los em caso de guerra contra outra tribo, decidir sobre a divisão do trabalho e dos alimentos de forma justa, punir as pessoas que não cumprissem suas obrigações ou causavam algum mal a outra pessoa da mesma tribo; enfim, o líder era o responsável pelo o cumprimento das normas administrativas, sociais e jurídicas pré-estabelecidas entre os membros da tribo.

E nestas tarefas o líder geralmente era auxiliado por um conselho, dependendo do tamanho da tribo, mas já dá para ter uma noção de que tribos maiores dão mais trabalho para liderar, portanto é necessário mais apoio administrativo… portanto, mais conselheiros auxiliavam o trabalho do líder.

Em algumas tribos esta figura também era a principal liderança religiosa daquele povo. Em outras tribos, o líder religioso era considerado o conselheiro mais importante, abaixo apenas do grande líder na hierarquia tribal.

Isso variava de uma tribo para outra, de forma que nós não podemos aqui considerar um aspecto específico como um padrão de todas as tribos. Na verdade, é mais fácil entender que as formas de liderança das tribos variavam de acordo com o povo observado. Aí entram aspectos ancestrais, necessidades migratórias, alimentares, até mesmo influência de outras tribos, que forjaram cada situação.

O padrão da organização podia se repetir em tribos distintas e até mesmo sem qualquer contato? Claro, mas não devemos tomar o arranjo sócio-administrativo de uma tribo como padrão, que fique bem claro.

E as Confederações de Aldeias? O que eram?

Estas Confederações nada mais eram que a união de uma ou mais aldeias em torno de interesses comuns, sejam estes interesses comerciais (estreitamento das relações de troca de produtos entre as aldeias), familiares (causado pelos casamentos entre membros de aldeias diferentes) ou até mesmo militares (quando duas ou mais aldeias juntavam-se para atacar outras aldeias).

Podemos considerá-las uma espécia de parceria entre as aldeias, que poderia ou não resultar na fundação de um grande reino. Estas confederações eram comandadas por um conselho de líderes, que definiam quais os melhores rumos tomar em determinada questão. É importante salientar que as tribos não perdiam sua autonomia administrativa, mas algumas decisões internas podiam ser levadas a este conselho de líderes.


Ainda sobre os conselhos das confederações, alguns não tinham uma figura principal, e a opinião de todos os líderes tinha o mesmo peso. Quando sobressaía uma figura principal entre os líderes de várias aldeias, aí sim podemos considerar aquela união como um reino.

No Brasil também existiram organizações sociais semelhantes às confederações africanas, organizadas pelos negros trazidos como escravos para estas terras.


No livro “Reis negros no Brasil escravista”, Marina de Mello e Souza diz:

(…) na África Centro-Ocidental cada aldeia tinha seu chefe, que muitas vezes pertencia a uma organização política e social maior, como parte de uma confederação de aldeias ou de um reino estruturado em torno de uma capital e um rei, a quem todos obedeciam e mandavam tributos. (…)

Com o estilhaçamento das relações familiares provocado pelo tráfico, os africanos escravizados buscaram reconstruir em novas bases os laços fundamentais que uniam as pessoas (…). A reunião em grupos oriundos da mesma etnia ou de regiões próximas, pertencentes a um mesmo complexo sócio-cultural, foi de outra forma encontrada para recriar as afinidades antes fundadas nas relações de parentesco. [1]



Esta organização, mesmo que adaptada para a realidade encontrada aqui no Brasil, foi importantíssima no processo de resistência do negro à escravidão além-mar.

E quando falamos em resistência, nós podemos até considerar o Quilombo de Palmares como a maior “Confederação” já existente no Brasil. Criado por volta de 1590 e liderado principalmente por Zumbi, Palmares sobreviveu por mais de 100 anos defendendo-se das investidas de expedições militares financiadas principalmente pelos senhores de engenho, que viam no quilombo não só uma defesa contra a escravidão como também uma afronta à autoridade colonial.

Na verdade, a grande maioria dos quilombos fundados a partir da fuga dos escravos aqui no Brasil manteve uma estrutura social levando-se em conta as relações entre as aldeias e os reinos africanos — lembrando que como aqui era um ambiente hostil a todos os africanos, nós tivemos poucas rixas entre tribos, aldeias e confederações que eram rivais lá na África.

Fontes

[1] SOUZA, Marina de Melo e - “Reis negros no Brasil escravista: História da festa de coroação de Rei Congo”. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2002. p. 181 e 182.

Na foto dos líderes africanos:
1.Nana Kwasi Asampong II, Regente de Apesorkubi e Okyeame Mfodwo, Região do Volta Gama, 2012;
2. Fo Sikam Happi V, Rei de Bana, Bana, Província Oeste, Camarões, 2012;
3. Kan Iya Rei do Gan, Obiré, Burkina Fso, s/d.
Estas imagens eu peguei em um link do Museu Nacional, que infelizmente não está mais online.

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