O que o documentário “Sicko” pode nos ensinar sobre Saúde Pública (e Democracia)?


Falar sobre um documentário que não tem a ver diretamente com História pode ser meio esquisito aqui no HZ, mas eu pretendo chegar, neste texto, em uma discussão a partir deste documentário. Espero não ser muito longo até o objetivo para não cansá-los. Vamos lá:

Quando eu soube pela primeira vez que o diretor norte-americano Michael Moore havia lançado um documentário sobre a Saúde nos EUA eu pensei que ele criticava o sistema público de Saúde do país, já que sua reputação é a de criticar sistematicamente — e de forma cínica, engraçada e algumas vezes genial — os governantes norte-americanos. Foi assim com “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 9/11”.

Mas quando eu comecei a assistir “Sicko” eu percebi que ele não critica o sistema público de Saúde nos EUA porque o sistema não existe! Não há saúde pública nos EUA, pois todos os hospitais do país estão sujeitos aos planos de saúde. E esta situação vem desde o governo de Richard Nixon, quando a saúde pública foi completamente entregue às empresas de saúde, que cobram caro pelos atendimentos.

Aqui cabe um parênteses: quando eu digo “Saúde pública” nos EUA eu quero, para facilitar o entendimento, comparar sim com o sistema de Saúde pública que existe no Brasil. Aqui este sistema é falho, recebe pouca atenção do(s) governo(s), faltam equipamentos e médicos especializados em muitos hospitais públicos, mas o sistema (ainda) existe!

Você chega em qualquer posto de saúde e marca uma consulta pelo SUS de forma gratuita. Demora, muitas vezes o médico nem examina o paciente direito — e este ponto eu credito ao mal profissional, pois se ele escolheu estar ali é para trabalhar e se não está satisfeito, que procure outro lugar para exercer a profissão — mas a pessoa é atendida! Nos EUA, de acordo com o documentário, isso não existe.

Além de criticar a falta de Saúde Pública, Michael Moore ainda mostra que existem grupos, dentro das empresas de saúde, formados por médicos que atuam de forma a evitar atender seus segurados! Sim, além de pagar o plano, muitos americanos ainda tem que torcer para que não tenham nenhuma condição pré-existente que desobrigue o plano de pagar pelo tratamento, operação ou consulta!

Ao visar exclusivamente o lucro com estas medidas, os planos de saúde estão deixando morrer muitas pessoas por ano, só por não permitir que determinado tratamento seja praticado no doente na tentativa de melhorar sua saúde.

Ora, pagamos um plano para garantir atendimento rápido aos nossos problemas de saúde; e que o plano pague parte das despesas do tratamento / consulta / operação, ou a despesa toda, dependendo do que ficou acertado no contrato! Mas nos EUA estes contratos são feitos para pegar o dinheiro dos pacientes e não tratá-los quando mais precisam. E ainda tem americano que assina um contrato redigido desta forma, é ludibriado e não vai às ruas protestar!

Aqui no Brasil vez ou outra escapa uma notícia assim, mas a quantidade de vezes que isso acontece aqui é bem menor. Aqui pelo menos você consegue entrar na justiça e ela te dá ganho de causa. Tem é que torcer para não morrer antes…

Hoje, cerca de 250 milhões de americanos estão sujeitos aos planos de saúde. E o por quê da maioria da população ter condições de pagar um plano e não protestar pelas falhas existentes no mesmo é o que motivou meu texto.

Comparando Canadá, Inglaterra e França com os EUA: mesma democracia, formas diferentes de tratar o povo

Michael Moore poderia terminar o documentário com as acusações contra os governantes que permitiram a saúde dos EUA chegar a este ponto, mas ele vai além e acaba estimulando um debate interessante ao visitar Canadá, Inglaterra e França, para mostrar como o dinheiro dos impostos pagos pelos contribuintes é revertido em melhorias para TODA a população.

Nestes três países citados o atendimento médico é gratuito e tem qualidade.

Entre papos rápidos com médicos, pacientes e funcionários, além de visitas a hospitais exemplares nestes países, ele passa a citar outros serviços básicos que também são bancados pelos governos como, por exemplo, o ensino superior, e chega à conclusão — óbvia, por sinal — que o governo dos EUA está mais preocupado em gastar dinheiro com guerras do que com seus contribuintes.

Isso posto, é inevitável reproduzir parte da entrevista que Michael Moore fez com este simpático senhor da foto abaixo, ex-membro do Parlamento britânico:

Tony Benn

Moore: Como surgiu esta ideia de que qualquer cidadão britânico deveria ter direito à uma assistência de saúde?
Tony Benn: Se retornarmos, tudo começou com a Democracia. Antes de podermos votar, todo o poder estava nas mãos dos ricos. Se tivesse dinheiro, podia ter assistência à sua saúde, educação, precaver-se para a velhice. E o que a Democracia fez foi dar o voto aos pobres. E passou o poder do mercado para a delegacia de polícia. Passou da carteira para a célula. E o que o povo disse foi muito simples. Ele disse: “Na década de 1930 tivemos desemprego em massa, mas não houve desemprego durante a guerra. Se pode ter emprego pleno para matar alemães, por que não se pode ter para construir hospitais, para construir escolas, contratando enfermeiras, contratando professores? Se você pode conseguir dinheiro para matar pessoas, pode conseguir dinheiro para ajudá-las.”

Eu acho que a fala do senhor Tony Benn explica tudo. Mas para melhorar nosso raciocínio, deixa eu citar também uma fala de uma moça que estava com um grupo de norte-americanos que vivem na França e que se reuniram com Michael Moore em um restaurante. Entre diversos depoimentos que comparavam a saúde e outros serviços públicos nos dois países — com clara vantagem para o sistema francês — a fala desta moça chamou minha atenção. Ela diz o seguinte:

– Algo que mantém as coisas funcionando por aqui é que o governo tem medo das pessoas, tem medo dos protestos, tem medo da reação do povo. Enquanto nos Estados Unidos as pessoas tem medo do governo. Tem medo de agir, tem medo de protestar, tem medo de sair. Na França, é isso que as pessoas fazem.


E os europeus tem histórico de protestos contra o governo. E isto vem desde a Revolução Gloriosa na Inglaterra e após, na Revolução Francesa.

Inicialmente estas duas revoluções tinham claros interesses burgueses, serviram a isso, mas a população aprendeu, com o tempo, a protestar e lutar pelo seu direito enquanto contribuinte.

Afinal de contas, pagamos impostos para que os homens e mulheres eleitos por nós revertam estes impostos em melhorias para todos. É, e eu sei que aqui no Brasil apenas parte deste dinheiro é revertido em pouquíssimas melhorias, mas nós ainda estamos lutando para fazer as pessoas entenderem que os males do país não são culpa exclusiva de apenas um partido.

Mas vejo um pouco do que acontece no Brasil na fala desta moça. Quando nossos parlamentares no Congresso — que receberam nossos votos para trabalharem pelo povo — votam medidas danosas a este povo, porque foram financiados por empresas que estão pouco se lixando para o povo, e nós aceitamos passivamente estas medidas danosas, na verdade nós, o povo, não estamos com medo do governo? Pensem bem.

Antes de terminar o texto eu gostaria de voltar rapidamente ao documentário. Sim… pois quando falamos de saúde pública, médicos, remédios e usamos a palavra gratuito junto, qualquer texto, livro ou documentário fica incompleto se nós omitirmos uma pequena ilha caribenha. Sabem qual é esta ilha? Vou ajudar. É uma ilha pobre, classificada como um país de Terceiro Mundo, de governo socialista, que sofre há décadas por causa de um covarde bloqueio econômico e comercial instituído por seu maior inimigo. Sim, eu estou falando de…

Cuba!

Michael Moore não fica satisfeito em apenas mostrar o trabalho que é feito na saúde cubana, e acaba levando para a terra de Fidel algumas pessoas que trabalharam nos escombros dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. Trabalhadores estes que, por não terem condições de pagar plano de saúde, estão sofrendo com problemas — principalmente respiratórios — contraídos no trabalho de resgate de vítimas e remoção dos escombros.

A viagem foi motivada pelo fato dos presos, muitos deles terroristas capturados após o 11 de setembro, terem acesso a atendimento médico de qualidade na prisão militar de Guantánamo — território controlado pelos EUA em solo cubano. Se os presos que ajudaram a arquitetar os ataques terroristas tem esse direito, por que os trabalhadores não os tem?

Sim, o “cara-de-pau” ainda levou os trabalhadores pra porta de Guantánamo! rsrs

Claro que eles não foram atendidos na base militar, e Moore acaba levando-os para o principal hospital de Havana, onde eles são atendidos com toda a atenção possível pelos médicos cubanos e sem pagar um centavo por isso.

Claro que vamos considerar os exageros causados pela oportunidade que o governo cubano teve de humilhar os EUA com este ato, mas a mensagem que Moore quer passar é a de que qualquer governo tem condições de pagar pela saúde de seu povo, basta ter vontade para isso. Mesmo em um país não-democrático e pobre, como é o caso cubano.

Quantos aos EUA, Barack Obama passou um bom tempo do seu mandato lutando para aprovar reformas no sistema de saúde e não conseguiu. Será que algum dia algum presidente vai conseguir?

E aqui no Brasil, será que o ~governo~ Bozo vai promover o desmanche do SUS, como prometido? (a grande imprensa nunca vai usar a expressão “desmonte”, mas pode acreditar, é isso mesmo)

E espero que vocês tenham entendido que este texto não é (só) sobre Saúde, e sim sobre a prática da Democracia.

Fonte:

- DVD “SiCKO, $O$ saúde”, de Michael Moore.

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