Zilda Arns

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Hoje, dia 8 de março, comemoramos o Dia Internacional da Mulher. A História nos apresenta diversas mulheres marcantes, e nós poderíamos falar de muitas delas no dia de hoje. Confesso que a escolha da personalidade a ganhar algumas humildes linhas no nosso site em um dia tão especial foi difícil, pois já falamos de algumas aqui, como a americana Rosa Parks e a polonesa Marie Curie e, sem desmerecer nenhuma, todas tem sua importância.

Mas escolhemos falar da doutora Zilda Arns porque… bom, até o fim do texto vocês entenderão!

Uma vida voltada para a prática da solidariedade:

Zilda Arns nasceu dia 25 de agosto de 1934 na cidade de Forquilhinha, em Santa Catarina. Em uma família de 13 irmãos, Zilda era uma das mais novas – a 12ª – e desde cedo se interessou pela medicina.

Formou-se na Universidade Federal do Paraná e logo começou a trabalhar diretamente com saúde pública, auxiliando famílias carentes a combater a mortalidade infantil, a desnutrição e os problemas causados pela falta de saneamento básico.

Muito religiosa, a doutora Zilda utilizava um modo próprio de difundir entre as famílias carentes o conhecimento necessário para evitar os problemas de saúde causados, muitas das vezes, por falta não só de saneamento básico mas também de informação. Ela acreditava que multiplicando o conhecimento (assim como, segundo a Bíblia, Jesus havia multiplicado os pães e os peixes e alimentado muitos famintos), cada vez mais pessoas estariam conscientes e menos suscetíveis às doenças.

Viram como uma metáfora bíblica pode ser usada de forma bem útil e interessante?

Zilda chegou ao cargo de diretora de Saúde Materno-Infantil da Secretaria de Saúde do Paraná e aproveitou para especializar-se ainda mais em saúde pública e pediatria. Coordenou campanhas de vacinação no estado, além dos programas de prevenção de câncer, aleitamento materno e saúde escolar.

Em 1983, juntamente com seu irmão, dom Evaristo Arns e dom Geraldo Majella, presidente da CNBB, fundou a Pastoral da Criança, apoiada pelo UNICEF.

À frente da Pastoral, um trabalho além das fronteiras brasileiras:

A Pastoral da Criança iniciou seus trabalhos na pequena cidade de Florestópolis, mas logo foi ganhando espaço para montar projetos semelhantes em diversas cidades do Brasil, sempre apoiado pela CNBB e pelo UNICEF, com coordenação ativa de Zilda Arns. Segundo o próprio site, a Pastoral…

“Tem como objetivo promover o desenvolvimento integral das crianças pobres, da concepção aos seis anos de idade, em seu contexto familiar e comunitário, a partir de ações preventivas de saúde, nutrição, educação e cidadania, realizadas por mais de 228 mil voluntários capacitados. Também promove, em função das crianças, as famílias e as comunidades, sem distinção de raça, cor, profissão, nacionalidade, sexo, credo religioso ou político.” [1]

Hoje a Pastoral da Criança está presente em 19 países, como Timor Leste, Paraguai, Bolívia, Filipinas, Moçambique etc, além do Brasil, e já atendeu mais de 2 milhões de crianças. A doutora Zilda ainda ajudou a fundar a Pastoral da Pessoa Idosa, que já auxiliou mais de 500 mil velhinhos e velhinhas de todo o Brasil.

Mas eu gostaria de chamar atenção para a última linha da citação acima. Apesar da Pastoral ser uma ONG criada por um órgão religioso, a CNBB, e por pessoas altamente envolvidas com a Igreja Católica Apostólica Romana, não há distinção de credo na hora de atender qualquer criança carente.

Isto fica bem explícito em uma entrevista da doutora Zilda em que ela responde se já teve alguma dificuldade de implantar os programas da Pastoral em países onde o cristianismo não é a religião principal:

“Em 20 anos, nunca tivemos resistência de religião alguma e nenhuma comunidade religiosa se queixou da Pastoral da Criança. Quanto mais elas se envolvem, mas gostam de trabalhar com a Pastoral. Já no começo, ainda em Florestópolis, fiz questão de envolver representantes das três outras religiões que havia na cidade. E é isso que acontece nos outros países. Estive em Guiné-Bissau, que tem maioria islâmica, e lá vi que eles cantavam a receita do soro caseiro que, naturalmente, era cantada na religião e da maneira deles. E fiquei comovida em ver líderes muçulmanos tão envolvidos com os nossos projetos. A Pastoral inverte a idéia de que é sempre o médico que cuida das pessoas e dá autonomia para que a família previna doenças. Isso integra todos de maneira muito fácil.” [2]

Agora ficou fácil entender porque a doutora Zilda foi escolhida para representar as mulheres no texto do Dia das Mulheres, não é mesmo? Além de levar informação às comunidades carentes e ajudar a prevenir diversas doenças, Zilda ainda realizou o trabalho independente da orientação religiosa das comunidades e das pessoas atendidas.

Melhor do que ficar discutindo preferências religiosas – ou a falta delas – é fazer o bem, mesmo que você siga um exemplo que venha da sua religião.

Zilda Arns faleceu dia 12 de janeiro de 2010, aos 75 anos, durante o grande terremoto que atingiu o Haiti e devastou metade do país. Logo após encerrar uma palestra para cerca de 15 religiosos cubanos, o teto da igreja onde eles estavam não resistiu aos abalos sísmicos e desabou, matando várias pessoas que ali estavam.

Zilda foi ao Haiti para observar o trabalho humanitário que chegou ao país juntamente com as Forças de Paz da ONU, lideradas pelo exército brasileiro. Certamente foi uma grande perda não só para o Brasil como para o mundo todo. Homenageada diversas vezes mundo afora, recebida por reis e presidentes, a doutora Zilda chegou até a ser indicada para o Premio Nobel da Paz em 2006.

E hoje, claro, pode ser considerada uma das mulheres mais importantes da História do Brasil não só do século XX como também do século XXI.

Fontes:

[1] Site da Pastoral da Criança.

[2] Mulher e Humanista, entrevista com Zilda Arns no site Educacional.

- Trabalho de Zilda Arns beneficiou mais de 2 milhões de crianças, texto de Maurício Savarese no UOL Notícias.

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