A Guerra Civil espanhola

Um dos conflitos regionais mais sangrentos do século XX contou com parte dos ingredientes da Segunda Guerra Mundial e também serviu de “treinamento” para as forças armadas da Alemanha e da Itália. A Guerra Civil espanhola deixou mais de 500 mil mortos e uma ditadura no poder que durou de 1939 a 1975.

Espanha: país rico no passado, mas seu ouro escorreu pelos dedos.

Quadro Premonição da Guerra Civil, de Salvador Dalí.

Pioneira das grandes navegações iniciadas nos séculos XV e XVI, a Espanha manteve por muito tempo diversas colônias principalmente na América e na África. Mas com o tempo estas colônias, principalmente as americanas, foram lutando cada uma pela sua independência e a Espanha foi perdendo espaço enquanto Metrópole.

Um outro agravante que influenciou negativamente a economia espanhola através dos séculos foi o fato do ouro recolhido na América não ter financiado o “crescimento tecnológico” do país. Ao invés de investir em manufaturas e indústrias, os monarcas espanhóis compravam os produtos prontos de países como Inglaterra e França.

Assim, sua balança comercial uma hora começou a ficar desfavorável, apesar dos rios de ouro e prata que fluíam da América para a Espanha. Explicamos melhor esta relação no nosso texto sobre o Mercantilismo.

Quando observamos a Espanha no início do século XX, percebemos que sua economia ainda era majoritariamente agrária e sua industrialização era tardia. A situação da maioria da população espanhola era parecida com a população russa antes da revolução de 1917, mas não era tão miserável quanto a dos russos, apesar dos ânimos já estarem bem exaltados na década de 1930.

Da monarquia parlamentar para a ditadura e depois para a república em menos de duas décadas:

O parlamentarismo espanhol sofreu um golpe de Estado em 1923, quando o militar Primo de Rivera, em nome da ordem e para conter a expansão dos sindicatos anarquistas – principalmente os da região da Catalunha – tomou o poder e implantou uma ditadura que durou até 1931, quando, acuado por diversas denúncias de corrupção, ele renunciou ao posto.

O rei Afonso III então tratou de convocar eleições para as municipalidades, que ocorreram em abril de 1931 com vitória dos monarquistas na maioria das grandes cidades. Mas no país inteiro a vitória dos republicanos – maioria de partidários da esquerda – foi esmagadora. Já imaginando o cenário meio tumultuado, Afonso III abdicou do trono e um governo provisório ficou encarregado de redigir uma nova constituição, onde a discussão principal era a separação entre Igreja e Estado, já que o clero era culpado pelos republicanos de apoiar os grandes latifundiários e os donos de indústrias contra os sindicatos. Novas eleições são convocadas para dezembro, e Alcalá Zamora foi eleito presidente, tratando de nomear Manuel Azaña para organizar o governo.

Azaña era moderado, e procurou conciliar as reivindicações sindicais com os interesses dos “donos” da Espanha. Óbvio que esta estratégia não deu certo, pois a Espanha já passava por turbulências: os anarquistas e os esquerdistas, mesmo os mais moderados, atacavam a Igreja e os latifundiários, enquanto estes dois grupos tramavam contra os sindicatos. Não eram discussões ideológicas, os grupos opostos chegavam às vias de fato, com mortes e atentados sendo praticados pelos dois lados.

Os anarquistas acabaram não apoiando a esquerda nas eleições parlamentares de 1933, vencida então pela direita. Algumas insurreições esquerdistas ocorreram por toda a Espanha, mas a única que teve um real impacto foi a Comuna das Astúrias, que dominou a cidade de Gijón por alguns dias.

Já em 1936, apoiados pelos anarquistas, a esquerda vence as eleições. Inflamados pela derrota, os direitistas tentam o golpe.

O início da Guerra Civil:

A guerra não começou porque os dois lados envolvidos queriam apenas resolver as coisas à bala. Além das agitações internas da Espanha, havia também o cenário político-ideológico europeu que não deixava dúvidas: nazi-fascismo ou comunismo, só um deveria sobreviver nesta queda-de-braço.

O nazi-fascismo já havia vencido na Itália, na Alemanha, em Portugal e já engatinhava na Áustria, enquanto o comunismo mostrava sua força recém-implantado na URSS. A Espanha teria que pender para um lado, e assim os militares de direita, liderados pelo general Francisco Franco, orquestraram o golpe que teve início em 17 de julho de 1936, auxiliados pelos latifundiários e pela Igreja, além do apoio bélico maciço de Itália e Alemanha.

Do outro lado estava a Frente Popular, base do governo eleito em 1936, apoiado pelos sindicatos, os partidos de esquerda e os simpatizantes do republicanismo, além do apoio bélico da URSS.


Quando a direita tentou tomar o poder em todo o país, a Espanha ficou dividida. Uma parte acabou controlada facilmente pelas tropas de Franco, os nacionalistas, e outra parte ficou sob controle dos republicanos. Nestas áreas as terras foram socializadas, os latifundiários e a Igreja perderam suas posses e os simpatizantes da esquerda lutavam bravamente para conter o avanço nacionalista.

Mas a maioria das tropas na verdade eram milícias que lutavam com as armas que tinham nas mãos, e mesmo com o apoio da URSS, ficava muito difícil manter as linhas de defesa contra as táticas da blitzkrieg, já testadas pelos alemães em solo espanhol. Alguns historiadores inclusive concordam com o fato de que o teste final do exército alemão antes da grande expansão territorial nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial foi a Guerra Civil espanhola.

Com o tempo as regiões republicanas foram perdendo forças. Ao estudar este conflito é comum ler sobre as atrocidades cometidas pelas tropas do general Franco. Cidades foram arrasadas e muitas pessoas morreram em bombardeios e execuções sumárias, além da fome, comum nestes conflitos. Afinal, era uma guerra. Um dos maiores protestos contra as atrocidades franquistas foi pintado pelo genial Pablo Picasso. O quadro “Guernica” representa o cruel bombardeio que a cidade sofreu em 26 de abril de 1937.

A Guerra Civil espanhola também teve testemunhas ilustres. Além de Picasso e Dalí, George Orwell – aquele mesmo, do famoso livro “1984″ -, após vagar por Paris e Londres, foi em 1936 para a Espanha integrar a Frente Popular e lutou ao lado dos republicanos. Ernest Hemingway foi cobrir a Guerra Civil para um jornal dos EUA e também acabou pegando em armas a favor dos republicanos. Federico Garcia Lorca, um dos principais escritores espanhóis, foi fuzilado por franquistas no início do conflito em Granada.

O último grande reduto republicano a cair foi Madri, em 26 de março de 1939. Restaram, sem muita força, Valencia e Alicante, que se renderam em 30 de março, e a cidade de Murcia rendeu-se dia 31. Em 1º de abril de 1939 deu-se início ao regime franquista, que comandou a Espanha até 1975, quando o general Franco enfim morreu e deixou um país cheio de diferenças ideológicas, sentimentos de independência de algumas regiões e feridas abertas até hoje.

Para saber mais:

- “Guerra Civil Espanhola“, texto de Pedro Augusto Rezende Rodrigues;

- Texto de Rodrigo Patto Sá Motta sobre o livro “A Guerra Civil Espanhola”, de Francisco J. Romero Salvadó.

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