Quando falamos em povos pré-colombianos, geralmente lidamos com um recorte temporal que vai desde os séculos VII e VIII até a chegada dos europeus no continente, já no século XV. E lidamos com este recorte porque normalmente estes povos despertam maior curiosidade devido às grandes construções deixadas e dos resquícios culturais ainda encontrados nos povos que descendem destas civilizações. Mas este povo que nós falaremos agora iniciou seu desenvolvimento no século XV a. C., ou seja: bem antes de seus descendentes famosos, os incas.
Como eu já citei os incas, já dá para ter uma noção do espaço geográfico ocupado pelos chavin. Por via das dúvidas, o mapa ao lado pode ajudar. Este povo viveu principalmente no norte do Peru, embrenhado a mais de 3 mil metros no altiplano, quase na mesma condição dos chachapoyas, ou seja, naquele meio-termo entre a selva amazônica e os Andes. Os chavin podem ser considerados como uma série de tribos que compartilhavam hábitos e costumes comuns, como veremos no desenrolar do texto.
Considerados como um dos principais povos pré-incaicos, os restos arqueológicos encontrados no principal sítio, Chavin de Huántar, e espalhados nas regiões de Kotosh, Ancash e Cunturhuasi e nos vales de Nepeña, Chicama e Casma, contam um pouco de como se desenvolveu esta civilização.
E é neste momento que nós podemos refletir um pouco quando consideramos os principais povos pré-colombianos mais “contemporâneos” – incas, astecas etc… – muito avançados para sua época. O povo chavin, cerca de 1000 anos antes dos incas, já tinha uma sociedade bem organizada.
Chavin de Huántar, o principal sítio arqueológico:

Segundo os arqueólogos, Chavin de Huántar teria sido a “capital” do povo. Serviu principalmente como centro religioso, já que as tribos que compartilharam da cultura chavin não chegaram a formar uma união política plena… pelo menos até hoje os arqueólogos envolvidos nas pesquisas ainda não encontraram prova de que existiu uma coesão política entre as várias tribos da região. Mesmo assim o fator religioso ligava estas tribos, já que existia um elemento na sociedade que funcionava como um rei-sacerdote.
Já nesta época – por volta dos séculos XV e XIII a.C. – os chavin já dominavam a arquitetura, a agricultura, a pecuária, a fabricação de cerâmicas e a confecção de tecidos. Mesmo assim, a sociedade ainda contava com elementos que executavam tarefas primárias, como a caça, a pesca e a coleta de sementes e frutas.
O templo principal, hoje tombado pela UNESCO como patrimônio da humanidade, é uma estrutura complexa construída com grandes blocos de pedra, onde encontram-se uma série de corredores, galerias e escadarias, além de uma grande “praça” central, conferindo um aspecto de labirinto a todo o complexo. Os chavin também já dominavam a hidráulica, e seus padrões de construção certamente foram copiados pelos povos posteriores, pois as construções são bem semelhantes – lembrando sempre que estamos lidando com uma diferença de pelo menos meio século entre o apogeu chavin e o início do desenvolvimento inca.
Eles adoravam deuses antropomórficos. Várias imagens de animais como o condor e o jaguar foram encontradas nas cerâmicas e nas paredes das construções. Destaca-se também o deus Lanzón, um monolito sorridente encontrado no templo principal.
Observação: Lanzón não é esta imagem aí em cima. Esta é uma face encontrada no muro de Chavin de Huántar. A foto de Lanzón é esta logo aqui embaixo.
Segundo os arqueólogos, os chavin chegaram a desenvolver uma força militar para lidar com adversários, além de conquistar outras tribos que, posteriormente, juntavam-se à cultura chavin, tomando como costume os hábitos dos conquistadores. Assim como a maioria das culturas da Antiguidade, os chavin foram suplantados por outros povos que vieram nos séculos seguintes.
Mesmo assim, é inegável a contribuição do povo chavin para os povos pré-colombianos. Quando eu pesquisava imagens para este texto, encontrei fotos que mostravam cerâmicas e construções que lembram muito as produzidas pelos chimus e chachapoyas. Como foram culturas geograficamente próximas – apesar da diferença de época – é óbvio que a influência chavin sobreviveu séculos até as grandes construções peruanas pós-século X.









