O Imperador dos Estados Unidos

Só “Imperador dos Estados Unidos” não: Imperador dos Estados Unidos e protetor do México.

Assim se auto-intitulava o simpático senhor Joshua Abraham Norton, que em 17 de setembro de 1859 enviou uma proclamação para vários jornais de São Francisco, cidade do estado da Califórnia que fica na costa oeste dos EUA, informando que a partir daquele dia o país tinha um imperador, Norton I.

Norton I

O que levou o senhor Joshua Norton a tomar esta atitude foi o fato de que ele perdeu quase tudo que tinha ao investir de forma errada o dinheiro que ganhou de herança do pai.

Nascido na Inglaterra em fevereiro de 1819, Norton viveu grande parte de sua juventude na África do Sul. Mudou-se para os EUA em 1849 e, segundo consta, começou a ganhar um bom dinheiro investindo em imóveis. Só que no início da década de 1850 a China – então maior importadora de arroz para os EUA – estava passando por uma grande fome. As colheitas não foram boas, e o mercado chinês deixou de vender toneladas de arroz para poder alimentar suas próprias bocas.

Desnecessário dizer que o preço do arroz nos países que importavam da China foi lá para o alto. Nesse cenário, Norton teve uma boa idéia: importar arroz do Peru. Só que ele não esperava que muitos outros investidores norte-americanos fizessem O MESMO, o que causou um verdadeiro tombo no preço do arroz.

Norton ainda tentou cancelar o contrato que ele havia assinado para importar o arroz peruano, mas não obteve sucesso. A briga judicial que se seguiu entre 1853 e 1857 sugou todos seus recursos financeiros, o que fez Norton decretar falência em 1858 e sumir do mapa… pelo menos até o dia 17 de setembro de 1859.

Alguns dos jornais que receberam a proclamação de Norton publicaram-na, achando que era uma grande brincadeira. Acabaram dando asa à cobra para um maluco-beleza.

A vida de imperador:

O imperador dando uma voltinha de bicicleta

Norton I era uma figuraça! Gente boa e muito simpático, tratava todos com educação. Ele passou a morar em uma pensão que cobrava cerca de 50 centavos de dólar pela diária e perambulava pelas ruas usando um fardão doado por um general.

Os donos dos restaurantes frequentados pelo “imperador” o recebiam bem, ao invés de tratá-lo como mais um maluco da cidade. E o “imperador” trabalhava emitindo decretos, demitindo e nomeando governadores e ditando ordens para o exército. Norton I chegou até a emitir uma ordem proibindo uma reunião do Congresso norte-americano em 1º de outubro de 1860. Em 12 de agosto de 1869 ele mandou dissolver os partidos Democrata e Republicano, pois achava que os dois lados constantemente causavam conflitos internos na política norte-americana.

Decretos e doideiras à parte, Norton era respeitado por muitas pessoas que o conheciam em São Francisco. Aqueles donos dos restaurantes que o recebiam bem acabavam colocando placas nas paredes com os dizeres: “Restaurante indicado por Sua Majestade Norton I, Imperador dos Estados Unidos“. Ele também fiscalizava escolas, ruas, recolhia impostos, que eram pequenos valores pagos por alguns comerciantes e emitia papel-moeda e bônus imperiais. E também tinha idéias meio malucas, como – vejam só! – construir uma ponte sobre a baía de São Francisco.

Norton I emitia estes bônus imperiais que acabaram virando itens de colecionador

Quando Norton foi detido por um policial em 1867, o chefe de polícia de São Francisco emitiu um pedido de desculpas formal a Norton I e ordenou que todos os policiais da cidade saudassem o “imperador” ao passar por ele na rua.

E assim foi feito até 8 de janeiro de 1880, o dia em que Norton I teve um ataque e morreu na rua, quando estava a caminho da Academia de Ciências da Califórnia, onde faria uma palestra para os alunos daquela instituição.

Cerca de 10 mil pessoas apareceram no funeral do “imperador”, que foi sepultado com honras de chefe de Estado.

Lápide de Norton I, Imperador dos Estados Unidos e Protetor do México.

Maluco-beleza, doidão, pinel… você pode chamar Norton I de tudo que quiser, mas a verdade é que ele soube levar uma vida pacata quando era de se esperar uma reação ruim ou violenta vindo de alguém que passou por apuros financeiros e perdeu tudo que tinha.

Pense nisso da próxima vez que você ficar estressado porque algo na sua vida não deu certo, ok?

Fontes:

- Lista dos decretos emitidos por Norton I na página virtual do museu de São Francisco (em inglês);

- “EMPEROR NORTON I. The benevolent dictator beloved and honored by San Franciscans to this day“. Texto de Patricia E. Carr (em inglês);

- “Norton I, Imperador dos Estados Unidos“. Texto do Carlos Cardoso.

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4 comentários sobre “O Imperador dos Estados Unidos”

  1. Zé da Fiel disse:

    Conheci essa historia em sandman 31 ed globo 1992, eu acho, a historia é tão impressionante e o personagem tão bem desenvolvido que tu fica embabascado com o final e ai quando no final, o Neil Gaiman revela que ele realmente existiu, é que vemos a dimensão do poder da palavra e de como a mente humana pode enveredar por caminhos estranhos.

  2. Zé da Fiel disse:

    Achei um link da historia http://www.4shared.com/get/EsQ23mYi/Sandman_31_Espelhos_Distantes_.html

    Velho esse gibi era muito bom, tem referencias ao Mark Twain, e pra ficar emocionando é só ler as pag 18 e 19 e ficar embasbacado com a habilidade de Neil Gaimam no uso das palavras.

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