URSS e o comunismo: falar mal é fácil…

… difícil é analisar o que exatamente aconteceu com o regime soviético, e tentar entender os caminhos e descaminhos da Revolução Russa.

Em 2007 eu e um colega de faculdade fizemos uma palestra na Semana Acadêmica. O tema era justamente a URSS, o comunismo e como essa equação foi montada desvirtuando os escritos de Karl Marx.

Muitas pessoas falam mal do comunismo – tanto do soviético quanto do sistema de uma forma geral -, mas não procuram observar e entender de que forma este sistema foi implantado na URSS. Ele teve erros graves causados por problemas previstos e imprevistos, e eu vou tentar explicar como estes erros mudaram o que tinha tudo para dar certo. Por favor, acompanhem meu raciocínio:

É fato que Lenin bebeu da fonte marxista e procurou por em prática os conceitos e teorias de Marx. Segundo o economista alemão, a Revolução do Proletariado se daria em um país de capitalismo completamente desenvolvido. Lenin e os camaradas russos provaram o contrário, pois a Rússia naquela época teve que sofrer os chamados saltos de desenvolvimento para se modernizar, com a implantação direta de indústrias em cima de uma economia (ainda) feudal, onde a maioria da população fazia parte do campesinato ou seja, eram servos… e isso já na transição do século XIX para o século XX.

Sua burguesia industrial – que Marx classificava como “parasitária” – ainda engatinhava. Seu proletariado, idem. Mas este proletariado estava muito bem organizado nos sovietes[1], o que facilitou a revolução, pois enquanto órgãos representativos do povo, os sovietes serviram como elemento de união entre os proletários e os camponeses – que eram aproximadamente 85% da população russa no início do século XX.

A ditadura do proletariado logo em seus primeiros dias – e pelos seguidos quatro anos, entre 1918 e 1822 -, passou por uma grande guerra civil. Sorte dos revolucionários que o Exército Vermelho, mesmo formado em sua maioria por camponeses, foi brilhantemente organizado ao longo de vários anos por Leon Trotsky, e conseguiu vencer o Exército Branco – reacionário -, apoiado pelas burguesias russa e européia, que viam a revolução soviética de 1918 como uma grande derrota burguesa. Havia um grande medo que esta revolução se espalhasse por outros países, pondo em risco a burguesia européia.

Mas então qual foi o problema, já que a revolução aconteceu?

O grande problema foi que nesta guerra civil morreram muitos intelectuais que ajudariam Lenin a governar a URSS. Por consequência da falta de material humano capacitado e pronto para fazer valer o comunismo desejado por Lenin, outras pessoas tiveram que ocupar cargos na administração soviética. Muitos elementos da antiga administração russa decidiram cooperar com a revolução, mas ao mesmo tempo aproveitaram sua experiência administrativa para quase que literalmente chupar o sangue soviético.

Estava criada a burocracia soviética.

Altamente implantada por Stalin – Lenin faleceu em 1924 -, a burocracia foi a responsável por vários problemas que o Estado soviético sofreu durante e depois da gestão stalinista. Trotsky lutou contra a burocracia, foi exilado e morreu por representar um perigo verdadeiro à ela. O mesmo Trotsky, enquanto ainda vivia na URSS e tentava consertar o desvio governamental, teve apoio de um grupo de generais soviéticos para tirar Stalin do poder e reverter o cenário, mas recusou. Preferiu esperar o bom senso stalinista – que nunca existiu -, e se deu mal.

Ainda assim Trotsky teve tempo para divulgar, mesmo no exílio, sua teoria da Revolução Permanente em vários escritos e em algumas reuniões comunistas nos PCs espalhados pela Europa. Nesta teoria, Trotsky defendia que a Revolução do Proletariado deveria ser mundial, alcançando todos os Estados, o que causaria uma planificação – mesmo que forçada – da economia em todo o planeta, inviabilizando o capitalismo e seus males, entre eles a a burocracia.

Quando falava sobre esta teoria, Trotsky com certeza pensava naquela frase de Marx: “Operários de todo o mundo, uni-vos!

Infelizmente a burocracia geriu a URSS e ditou as normas que os ditadores soviéticos deveriam seguir. Teve um grande impulso após a 2ª Guerra Mundial, o que ajudou a camuflar seus males perante a população mas corroeu o Estado soviético até Mikhail Gorbachev entregar os pontos em 1989, dando fim ao Estado nos moldes “comunistas” que todos adoravam criticar.

Comunismo que na prática nunca existiu, mas teve, atrás de si, uma propaganda maciça e que acabava legitimando o regime burocrático. Propaganda essa que transformou Stalin – pelo menos aos olhos dos publicitários soviéticos e dos menos afortunados – em um grande estadista, um pai dos pobres – sem esquecer que ele foi uma mãe para a classe dominante russa – como podemos ver no pôster abaixo, onde está escrito: “Stalin, grande construtor soviético“.

É bom dizer que todas as críticas feitas ao estado comunista da URSS – e aí nós podemos colocar os Estados chinês e cubano no mesmo bolo – tem sim um certo fundamento, mas as pessoas normalmente não param para pensar como poderia ser a URSS se Lenin não tivesse morrido em 1924. É fato que ele teria que enfrentar a burocracia e seus lentos tentáculos corroendo a vontade em transformar a URSS em um país de igualdades para todos, mas certamente teria a ajuda de Trotsky e outros camaradas nesta luta.

Notas:

[1] Aqui neste link tem uma definição muito boa dos sovietes. Não trouxe esta definição para o texto – até mesmo para ele não ficar tão grande -, mas recomendo o link.

- Peguei os dois posters que ilustram o texto no site A Soviet Poster a Day. Para quem curte estes posters antigos – alguns são realmente muito bonitos, além de ajudar a contar parte da história do país – eu recomendo a visita ao site, pois tem muitos outros posters lá. O site está em inglês, mas nada que o tradutor do Google não resolva, não é mesmo?

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2 comentários sobre “URSS e o comunismo: falar mal é fácil…”

  1. Serguei Erovith disse:

    Sua abordagem é interesante, mas encobre outra verdade, no momento que Trotsky pensou na “teoria da Revolução permanente”, o estado soviético estava em condições precarias, a jovem republica prcisava se erguer e alimentar seu povo. Um estado ameaçado de destruição pélas potencias ocidentais, sem alimento e industrias, teria forçosamente se voltar para seu priprio interior. Mesmo com toda adversidade, Stalin foi brilhante em seu governo, transformou a Russia agraria de economia de subsistencia em uma super potencia. Diria que o grande prejuizo de tudo foi a grande guerra patria, pois o pais desenvolvia-se a ritmosacelerado, quno teve sua paz e progresso brecado pela insanidade nazista. Depois da guerra Stlin recuperou parte do que foi perdido, expandindo as fronteiras do comunismo, mas não teve tempo de avançar. Stalin reconheceu as falhas, mas não pode corrigi-las, querer culpa-lo pela queda da URSS é algo sem fundamentos, basta ver a historia para saber as causas reais.

    • Vinicius Cabral disse:

      Serguei, talvez Trotsky defendeu a Revolução Permanente também como saída aos problemas soviéticos. Só uma planificação global facilitaria as coisas. Quanto ao Stalin, eu o considero meio “culpado” porque ele não fez lá muita força para lutar contra a burocracia, essa sim a verdadeira destruidora do ideal sonhado por Lenin.

      E veja bem, esta é a minha opinião sobre Stalin, ok? Eu inclusive respeito a sua opinião e, claro, respeitarei qualquer outra. Valeu pelo comentário e não se preocupe com os erros de digitação! :)

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