No texto contendo “perguntas e respostas sobre o Golpe de 64“, o leitor Bruno fez a seguinte pergunta:
Olá Vinícius. Tenho lido sobre esse tema ultimamente e ainda não consegui chegar a uma conclusão. Gostaria que você explicasse, se for possível, os efeitos da ditadura no cidadão comum, aquele que não era artista nem guerrilheiro. Eu, como nasci em 1986, não tenho a menor idéia de como foram os anos de ditadura, e nunca ouvi ninguém na minha família reclamar ou falar bem desse tempo. Parece que foram anos “normais”. Se você puder me “iluminar” e adicionar mais algumas informações ficarei muito grato!
Bruno, eu nasci em 1979, quando os militares ainda não ensaiavam a gradual abertura política do início da década de 1980, mas eu não posso dar um palpite “pessoal”, pois eu fui ter consciência enquanto sujeito político só nas eleições de 1989. Eu não participei do processo votando – era um moleque ainda – mas lembro bem das discussões da época entre os adultos próximos, afinal de contas o povo brasileiro votaria para presidente depois de décadas. E votou mal… mas aí é outra conversa…

Passeata dos 100 mil... olha o povo ae!
Com relação ao que aconteceu durante a ditadura militar com o cidadão “comum”, existem alguns estudos publicados, mas muitos focam principalmente os estudantes e os movimentos estudantis da época e a repressão que eles sofreram dos militares. E se engana quem pensa que os estudantes sofreram repressão por terem ideais “comunistas” ou simplesmente serem taxados como tal. A luta estudantil era bem mais profunda do que imaginamos à margem dos fatos.
Segundo Silvana Schmitt e Alexandre Fiuza,
Nesse período, a educação passou a ser vista como um investimento, por meio de uma formação mais técnica e menos humanista e propedêutica, e os debates que vinham acontecendo desde a década de 1950, na busca de ampliar o alcance da educação, foram sufocados pelo regime. Assim, os professores e alunos preocupados com a qualidade do ensino, que criticavam os caminhos adotados pelo Estado, foram duramente reprimidos pelo regime. A Universidade foi palco de repressão e controle, pois representava, aos olhos do governo, uma ameaça que precisava ser não apenas estagnada, mas também exterminada. [1]
Prestaram atenção na última frase da citação acima? Óbvio que no meio de um mundo de estudantes alguns pegaram em armas de olhos fechados para lutar contra o regime militar, mas muitos foram arrastados para a luta apenas por defenderem uma educação mais humana e mais igualitária. Tinham que combater pois passaram a ser combatidos. Apesar do artigo citado estar restrito à região oeste do Paraná, podemos generalizar para grande parte do Brasil sem medo de errar.
E pessoas comuns que acabavam levantando a voz contra o regime militar – por motivos diversos, inclusive por desejar que o filho fosse educado de uma forma mais humana – podiam sofrer perseguição. Para o trabalhador “comum” a coisa não apertou. Bastava a pessoa andar na linha, sem cometer crimes e trabalhar honestamente que militar algum ia atrapalhar sua vida. Mas não podiam fazer greve, pois greve dava cadeia!
E havia sim uma certa “patrulha ideológica”, principalmente depois do AI-5, já que a situação ficou bem arbitrária, mas nada como uma caça às bruxas, naquele estilo da pessoa gritar: “Aquele meu vizinho ali é comunista, prendam-no senão ele vai comer minhas criancinhas!”.
Havia a censura da imprensa e isto influenciava a pessoa “comum” que consumia notícias de jornais, revistas, rádios e assistia os programas da TV. Os artistas também passavam pela censura prévia de suas obras, de modo que muitas das composições da época as pessoas “comuns” só conheceram DEPOIS do fim da ditadura. Na verdade, ao influenciar a produção cultural do país os militares atingiam as massas, o povão que consumia esta arte.
Um outro fato importante – e aí, apesar de todos os pesares, coisas boas tem que ser lembradas – já ouvi de muitas pessoas que viveram nesta época que durante o período da ditadura militar a criminalidade diminuiu bastante, apesar dos índices sociais não serem os melhores. Havia pobreza extrema e muitos dos problemas que existem até hoje – inclusive a corrupção -, mas bandido não se criava na mão dos militares. Na época também já existia o combate ao tráfico de entorpecentes.
Bruno, as maiores “mudanças” com o regime militar foram sentidas nas capitais e grandes cidades, onde se concentravam as melhores cabeças pensantes do país – ou pelo menos as que tinham maior visibilidade. Como ainda existem pessoas vivas, eu te aconselho a perguntar mesmo. Seja curioso, e questione o maior número possível de pessoas sempre que puder. Tome cuidado, principalmente se você não conhecer o passado das pessoas, pois algumas perguntas podem abrir feridas.
O período da ditadura foi, para alguns, sombrio e violento. Mas para muitos foi bem tranquilo, inclusive se a pessoa apoiava o regime militar. Procure saber também se a pessoa era simpatizante do regime, mas não a julgue por isso, apenas pergunte e ouça. Vai por mim, vale a pena apenas ouvir, sem emitir a sua opinião… a não ser que ela seja pedida.
Referências:
[1] “A resistência estudantil à ditadura brasileira no oeste do Paraná”. Artigo de Silvana Lazzarotto Schmitt e Alexandre Felipe Fiuza, que pode ser lido neste link.
Leia também:
- “Artimanhas letradas: memória, resistência e educação popular nos anos de ditadura no Brasil”. Por Dimas Brasileiro Veras, que pode ser lido neste link.
- “Representações e discursos sobre a ditadura militar no Brasil”. Por Carla Surcin, Elizabeth de Souza e Jacqueline de Barros, pode ser lido neste link.









Vinicius, muito obrigado por esse post tão explicativo. Fiquei muito feliz de colaborar para o seu site!
A princípio, a conclusão que chego é que foi, obviamente, um período terrível para o Brasil. Porque, mesmo você não estando na frente de batalha, acabava sendo atingido pelo regime, como você explicou muito bem no texto.
Gostaria de, novamente, agradecer a atenção e os conselhos, e dizer que o seu site é muito bom!
Abraços.
De nada. Eu é que agradeço pela sugestão de texto!