Os contos da fome

Vocês já repararam que todos os “contos de fadas” tem um ou vários alimentos no meio da narrativa? E que estes alimentos – ou a falta deles – muita das vezes são determinantes para o desenrolar da trama?

A culpa não é de Perrault, de Hans Christian Andersen ou dos irmãos Grimm, principais responsáveis por publicar a maioria destes contos, mas sim do ambiente onde estes contos ou tradições orais foram criados e contados.

As origens dos “contos de fadas”:

Desde que o homem se expressa por meio da fala ele transmite suas tradições oralmente de geração a geração. Alguns povos da Antiguidade, com o tempo, resolveram deixar suas lendas e suas histórias gravadas nas paredes, nas tábuas de argila, nos papiros ou nos papéis.

Assim os mitos, lendas e acontecimentos reais eram passados à frente, para os mais novos, e perpetuavam-se as estórias e as histórias de cada povo.

Só que estas narrativas muitas das vezes se confundiam, misturando elementos, fatos e personagens que ora eram realidade, ora fantasia. A Ilíada é um exemplo clássico desta mistura, pois reúne um fato aparentemente “real”(*) – a guerra entre espartanos e troianos – com influência dos deuses como elemento fantasioso, místico.

O psicólogo suíço Carl Jung dizia que os contos de fadas…

(…) são uma representação simbólica de problemas gerais humanos e suas soluções possíveis, ou seja, as representações da fantasia são tão primárias e originais como os próprios desejos e instintos. (…) constituíram através dos séculos instrumentos para a expressão do pensamento mítico, perpetuando-se no tempo por desempenharem uma função psíquica importante relacionada ao processo da individuação (…) [1]

Nós nunca saberemos os nomes dos verdadeiros criadores destes contos – até mesmo porque existem muitas versões dos “contos de fadas”, dependendo do local onde se pesquise – mas podemos imaginar o ambiente onde estas estórias eram contadas.

E a grande maioria dos contos e lendas ganharam forma na Idade Média européia, que teve alguns períodos, como entre 1315 a 1317, em que a população passou por uma grande fome coletiva. Vamos falar sobre destes contos nas versões “atuais” e nas versões “originais”.

A vitória do Lobo Mau sobre a Chapeuzinho, e a derrota do Lobo para um porquinho:

Os contos de fadas e outras estórias para crianças que nós conhecemos hoje em dia na verdade já são adaptações das estórias publicadas na Idade Moderna pelos Grimm, Perrault ou Andersen, entre outros. No “original” destes escritores muitas estórias não tem elementos bonitinhos, fofinhos, nem finais felizes como nos contos de fadas da Disney.

E é bem provável que estes escritores já devem ter dado uma bela adaptada nas estórias originais, o que não as torna menos sinistras. Vejamos o exemplo da estória do Chapeuzinho Vermelho. Ela está levando uma cesta de frutas ou de comida para a Vovó – olha o alimento aí. O Lobo Mau engana a Chapeuzinho na floresta e depois a devora. Em outra versão, o Lobo devora a Vovó, se faz passar pela idosa e devora a Chapeuzinho. Existem outras versões, mas em nenhuma delas um caçador aparece para salvá-las.

Na estória dos Três Porquinhos o Lobo Mau nem perde tempo soprando casas, dá logo um jeito de devorar os dois primeiros porquinhos e cai na armadilha do terceiro, que acaba jantando o Lobo Mau.

A estória de João e Maria é outro belo exemplo. As duas crianças são largadas pelo pai na floresta. Iriam morrer de fome, mas encontram uma casa toda feita de doces e são capturadas por uma bruxa. Em outra versão, um demônio – ou um casal de demônios – captura as crianças usando comida como isca.

No conto da Branca de Neve e os sete anões, a Rainha pede que o caçador imbuído de matar a Branca de Neve traga como prova do assassinato o coração da moça. O caçador não mata a Branca de Neve e leva para a Rainha um coração de porco como prova. Mas dependendo da versão, a Rainha pede ao caçador os pulmões e o fígado da Branca de Neve. Se a criança perguntar o por quê deste pedido da Rainha, você pode responder sem medo de errar, mesmo assustando a criança: ” – A Rainha Má queria servir os órgãos da Branca de Neve no jantar daquela noite.” … haja fome, concordam?

Mamãe Gansa, ilustração de Gustave Doré.

Existem outros exemplos. No século XVII Perrault juntou vários contos sob a tutela da Mamãe Gansa, uma mulher do campo que seria a grande contadora das estórias. Com muitas crianças para cuidar, Mamãe Gansa era o arquétipo perfeito da mulher comum de seu tempo, meados e fim da Idade Média e início da Idade Moderna.

Estes arquétipos representam os problemas gerais humanos e suas soluções possíveis, como bem disse Jung, citado no início do texto. É bem capaz que Perrault, um político francês da época do rei Luis XIV, jamais escreveu qualquer linha destas fábulas, mas acabou levando a fama. O que importa saber é que, independente do escritor, estes contos refletiam os medos da época, a fome e o perigo da morte.

E não se enganem: mesmo sendo bem sinistros, estes contos eram narrados para as crianças da época. Ainda bem que nós nascemos depois de Walt Disney ter adaptado todos estes contos, hein? =)

(*)Observação: não é comprovada a existência da Guerra de Tróia, mas eu acho que vocês entenderam o exemplo.

Fontes:

[1] “Os contos de fada no processo do desenvolvimento humano”, texto de Joana Raquel P. J. Villela, da UNINCOR.

- MENDES, Mariza. “Em busca dos contos perdidos”. Editora UNESP. São Paulo, 1999. Pode ser visualizado neste link.

- “Os verdadeiros contos de fadas”, do NSN. O texto também fala de outros contos de fadas e suas versões “originais”.

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