A Revolução Neolítica (2ª parte)

No primeiro texto nós falamos das mudanças lentas e gradativas que moldaram os hábitos e o modo de vida dos homens na transição entre o Paleolítico e o Neolítico. Agora vamos falar das maiores mudanças que ocorreram neste período, a consolidação dos primeiros povos sedentários da Antiguidade.

Homem: um produto do meio?

Segundo o filósofo Jean-Jacques Rousseau, “É preciso estudar a sociedade pelos homens, e os homens pela sociedade“. Trazendo este pensamento para a aurora das primeiras sociedades – e guardando todas as devidas proporções com a frase de Rousseau e a época que ela foi pensada – , podemos dizer que as condições climáticas da época moldaram estas sociedades e ajudaram a definir as primeiras grandes civilizações.

Vamos lembrar onde floresceram os primeiros grandes grupos populacionais da Antiguidade: rio Nilo (no Egito), rios Tigre e Eufrates (no Oriente Médio), rio Indo (na Índia) e rios Yang-tsé e Huang Ho (na China).

[fonte da imagem ao lado]

Nestas regiões os primeiros habitantes a viver de forma mais “sedentária” para aproveitar as águas para suas plantações logo tiveram que lidar com um pequeno grande problema que acontecia todo ano: as cheias, que causavam estragos nas plantações.

Para lidar com este problema, os homens começaram a construir diques para controlar a vazão das águas. Com as margens dominadas, o crescimento populacional aconteceu normalmente devido à maior quantidade de alimentos disponíveis – por causa do crescimento das colheitas -, novos desafios apareceram, pois mais gente plantando significa mais área necessária para plantação e mais água a ser gasta para irrigação.

O que fazer para resolver isto? Construir extensos canais de irrigação que levavam a água das margens do rio para cada vez mais longe. Um trocadilho aqui é inevitável, mas o crescimento demográfico, da área de plantio e das obras necessárias para domar a água ocorreram como um “efeito cascata”.

É só isso? As sociedades antigas evoluíram a partir da necessidade de domar as águas?

Não é só isso. O poder de assimilação e a capacidade de adaptação do ser humano podem ser considerados dois fatores fundamentais para o desenvolvimento das primeiras sociedades. Quando era travada alguma disputa entre grupos, clãs ou vilas, os vencidos podiam assimilar costumes e conhecimentos dos vencedores e vice-versa, naquele mesmo esquema de “observação-tentativa-e-erro” relatado no primeiro texto ou no trabalho dos escravos capturados que passavam a viver entre os vencedores.

O misticismo foi outro fator importante para o desenvolvimento das sociedades antigas. Como não sabiam exatamente como explicar o que acontecia em sua volta, os homens acabavam inventando deuses que eram os responsáveis pelo que acontecia de bom ou de ruim.

Lembram das pinturas rupestres dos “homens das cavernas”? Elas são umas das formas primitivas de expressar este misticismo. Quando o homem passou a plantar e basear a maior parte de sua alimentação no que era colhido e deixou de depender exclusivamente da caça para não morrer de fome, os temores tomaram outros rumos.

A maioria das grandes obras da Antiguidade são monumentos místicos-religiosos. Seja para abrigar os mortos, para observar as estrelas ou para realizar sacrifícios. Mas como o nosso texto não pretende avançar tanto assim no tempo das grandes construções da Antiguidade, vamos manter o foco falando de outro fator fundamental…

As primeiras classes sociais:

Outro fator  importante que define bem a sociedade neolítica – e que não começou com o sedentarismo dos povos, mas certamente ficou mais forte e melhor definido após este sedentarismo – foi a divisão da sociedades por classes. No Neolítico as sociedades começam a definir e a separar o trabalho, e esta divisão de trabalho causou o aparecimento destas classes.

O agricultor deixou o cuidado de muitos animais para o pastor – a domesticação de animais começou no Neolítico. O pastor, por sua vez, deixou de lado aquele pequeno artesanato que ele tentava fabricar sem muito sucesso e passou a se servir dos trabalhos de um artesão mais qualificado, que tinha mais habilidade para trançar os cestos ou fabricar os objetos de barro. Por outro lado este artesão começou a deixar de lado aquela pequena horta que tinha no fundo do seu terreno e começou a trocar mercadorias com o agricultor.

Entenderam a circularidade da coisa toda? A especialização levou à divisão do trabalho.

Com todas estas melhorias, esta divisão do trabalho vai acabar gerando os primeiros excedentes de produção. Este excedente vai impulsionar o comércio, e logo o homem estava fixando valor no produto do seu trabalho. Para controlar este excedente e este comércio, foi necessário criar um modo de identificar e de armazenar as informações de quantidade os valores e as transações.

Gradativamente o homem vai inventar a escrita.

E aí o povo deixou de lado a Pré-História, o Neolítico, e passou a contar a própria História com letras e números…

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