A Reforma de Lutero – 2ª parte

No texto anterior nós tratamos rapidamente do processo que levou Lutero a questionar a Igreja Católica e posteriormente ser excomungado pelo papa Leão X. E agora nós vamos tratar das mudanças que levaram muitas pessoas a deixar o catolicismo e seguir as palavras de Lutero.

Para tratar do protestantismo, nós temos vários autores em que podemos basear nosso texto, mas talvez nenhum deles seja tão simples e ao mesmo tempo tão completo quanto Max Weber no que diz respeito às mudanças sociais ocorridas por causa de Lutero – e também por causa de Calvino, outro responsável pela evolução do protestantismo que nós esperamos publicar um texto sobre ele futuramente.

Weber e a ética protestante:

Max Weber

Weber, considerado um dos pais da Sociologia, foi um economista alemão que viveu naquele turbulento período de transição entre os séculos XIX e XX.

Naquela que talvez seja sua obra principal, o livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, Weber nos apresenta a ideia de que o agente principal do desenvolvimento do capitalismo é a mudança ideológica e teológica proposta por Lutero lá no século XVI.

Ele fala também das outras mudanças – culturais e sociais – ocorridas no período em que viveu Lutero, mas para o texto não ficar muito extenso, vamos usar aqui apenas a linha de raciocínio de Weber em cima da teologia da “ética protestante”.

Ao instituir o protestantismo, Lutero teria impulsionado o trabalho sem culpa. Explico: para a Igreja Católica, só teria salvação aquela pessoa que dedicasse sua vida a deus, longe dos pecados do dia-a-dia. As pessoas que viviam nos monastérios, que tinham vocação religiosa – padres, frades, monges, freiras etc… – iriam para o céu, pois passavam a vida orando e servindo à Igreja. Já as pessoas comuns, que apesar de serem religiosas, frequentarem a Igreja e confessarem seus pecados – e até mesmo compravam suas indulgências, lembram? – dificilmente alcançariam o reino dos céus, pois viviam em eterno pecado no “mundo dos homens”.

A Igreja Católica condenava o acúmulo de bens, o lucro e consequentemente qualquer trabalho, por mais honesto que fosse, que levasse a isto. A pessoa trabalhava de sol a sol, seguia rigorosamente os preceitos católicos, frequentava a igreja, evitava causar o mal para outras pessoas e mesmo assim, segundo a Igreja Católica, ainda tinha muita chance de ir para o inferno!

Camponês executando o pecaminoso trabalho de arar a terra...

E o que Lutero fez? Disse que o homem poderia se salvar por meio do trabalho. Querendo ou não, Lutero democratizou o acesso à salvação espiritual do indivíduo.

O que Weber fez foi ligar os pontos em sua teoria: bastava trabalhar cada vez mais para glorificar a deus. Trabalho gera renda e esta renda é acumulada. Assim, o indivíduo pode acumular dinheiro e bens materiais sem culpa. Extremamente simples de entender e de definir o capitalismo. Se Weber estava totalmente certo nesta teoria é outra conversa, mas eu acho que vocês conseguiram entender o porquê das idéias de Lutero terem conquistado tantas cabeças na Europa e mais tarde no Novo Mundo, principalmente nos EUA, onde milhares de protestantes fugiram para construir uma vida nova longe da Europa.

Outras mudanças promovidas por Lutero:

Enquanto teólogo, Lutero também desejava que o maior número possível de pessoas tivessem acesso à informação contida no principal livro cristão, a Bíblia. Só que nesta época 99,99% das bíblias disponíveis na Europa Ocidental estavam escritas em latim, e a grande maioria da população sequer tinha acesso ao estudo “formal” da época. Aprender latim? Era um luxo que quase ninguém tinha acesso. E adivinha que “classe social” sabia o latim de forma fluente? Isso mesmo, o clero, o que causava um certo monopólio do acesso à informação biblica.

Monge copista. Um dos poucos que sabiam ler e escrever na época...

Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, mas do que adiantava ter a Bíblia na língua de seu povo se a grande maioria da população continuava sem saber ler? Na esteira da “democratização da palavra de deus” veio também a ideia de que todos tinham direito a aprender a ler.

Com o tempo, alguns reinos e nações que estavam nascendo naquela época começaram a estimular e investir em educação para o povo. Daí para frente podemos observar que nesta época ocorreu na Europa um desenvolvimento econômico maior em regiões onde o protestantismo era mais forte – por isto Weber é tão agudo ao associar o capitalismo com protestantismo.

Esta Reforma de Lutero, e na sequencia Calvino e também os anglicanos na Inglaterra vão provocar uma resposta da Igreja Católica. Mas sobre a Contra-Reforma nós trataremos em um outro texto…

Fontes:

- WEBER, Max. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, que pode ser lido neste link.

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