Sobre a morte de Bin Laden

Por: Jorge Vieira ,
em 09 de maio de 2011.

Concordo com o professor Ramez Phllip (da USP) que enviou-me um artigo no qual ele afirma que a única verdade dita por Barack Obama sobre o suposto assassinato de Bin Laden é que “a Guerra ao Terror não é contra o Islã“, se bem que no governo Bush os republicanos fizeram o povo americano crer que islamismo e terrorismo eram sinônimos.

Aliás, a gente precisa entender que, quando se trata de nacionalismo, os democratas são mais radicais que os republicanos e que os EUA sempre foram grandes patrocinadores de terroristas de Estado, geralmente de direita, mas alguns com capa de “esquerda” ou sem ideologia, desde que servissem a seus interesses.

Foram eles que patrocinaram as mais sangrentas ditaduras do planeta como Saddam Hussein (Iraque), Kadafi (Líbia), Ariel Sharon (Israel), Papa Doc (Haiti), Omar Torrijos (Panamá), Pinochet (Chile) e não podemos esquecer que foram eles que treinaram e armaram Bin Laden e o Taliban, quando a antiga União Soviética invadiu o Afeganistão, assim como foram eles que tramaram a queda de Reza Pahlevi no Irã, sem imaginar que os radicais xiitas fariam da antiga Pérsia uma ditadura teocrata.

Charge de Carlos Latuff sobre os crimes de Israel em Gaza. Até onde podemos classificar um ato como “terrorista”?

“Polícia do Mundo”, os EUA jamais defenderam a auto-determinação dos povos e invadiram – eles usam o eufemismo “intervir” – Granada, Filipinas, Haiti, Líbano, Iugoslávia, Iraque, Iemen, Somália, Afeganistão e Paquistão com tropas e (por baixo dos panos) invadiram Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Peru, Nicarágua, etc…, com espiões e treinadores que ajudaram a implantar sangrentas ditaduras militares ou civis.

Quando Gorbatchev iniciou a Perestroika na antiga URSS, a corrente política onde eu militava criou um slogan e fez um cartaz que dizia: “Nem Stalin nem Gorbatchev, a revolução soviética vive!“. Os equivocados que consideravam a URSS um país socialista – que nunca foi, pois a base fundamental do socialismo é a democracia – e os outros que achavam que haveria uma abertura democrática no Leste Europeu sem um giro ao capitalismo selvagem, nos crucificaram e só não tomamos picaretadas como Trotsky porque estávamos do lado de cá do Atlântico e no hemisfério sul.

O tempo mostrou que estávamos certos. Ou alguém duvida que a falsidade do BRIC esconde a fome e a miséria que continuam existindo na Índia e na China e que se instalou perversamente na Russia depois do giro ao capitalismo?

Hoje, se eu dissesse “nem Obama, nem Bin Laden“, seria taxado de terrosista, até porque o charme afro-descendente de Barack tem feito muita gente esquecer o que ele representa e o que continua fazendo, do mesmo jeito que Bush fazia.

É verdade que Bin Laden corria em faixa própria e que seu ódio ao ocidente era mais doentio e fundamentalista que ideológico, pois ele nunca apoiou as lutas dos povos árabes – exceto a do Afeganistão, onde a Al Qaeda se aliou aos talibans.

Também é verdade que Bin Laden jamais apoiou os palestinos – e aqui discordo do termo “combater Israel” pois esse combate não levou e não vai levar a nada, exceto à morte de mais alguns milhares de inocentes. Assim como se omitiu quando os EUA invadiram o Iraque e também é verdade que – a exemplo da esquerda brasileira – ele sempre dividiu os islâmicos entre sunitas e xiitas, quando o correto seria procurar uni-los contra os ataques do Ocidente.

E ainda tem a questão do método. Sou radicalmente contra terrorismo e tortura, venha de onde vier e tenha que matiz ideológico tiver. E Bin Laden era um terrorista sanguinário, que não se importava de matar milhares de inocentes, desde que atingisse o “inimigo do Corão”.

Os Estados Unidos e a Europa rica desde que a guerra fria acabou e o muro de Berlim caiu trocaram o pretexto de “combater o comunismo que come criancinhas” pelo de “combater os terroristas”. E para combater terroristas é preciso que existam terroristas. Se não existirem, eles criam.

Bin Laden era tão terrorista – e tão equivocado nos métodos – quanto os Brigadas Vermelhas, o Bader Meinhoff, o Carlos (Chacal) ou o MR-8 brasileiro nas décadas de 1960/70. Mas os primeiros tinham uma ideologia – se certa ou errada é outra discussão – enquanto Osama era um fundamentalista paranóico que apenas dividia o mundo entre islâmicos e “pecadores”.

A pergunta que fica é: quem será o próximo na mira dos EUA?

Terrorista, eu?

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Um comentário sobre “Sobre a morte de Bin Laden”

  1. HistóriaZine disse:

    Conheço o Jorge Vieira desde 2002, ele já foi até meu chefe! Respeitem o cara porque ele pode não ser historiador, mas gosta muito do assunto e entende BASTANTE de política!

    Obrigado pelo texto, Jorge!

    Ass.: Vinicius Cabral

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