Corrida para lugar nenhum

Assisti o documentário norte-americano “Race to Nowhere”, que em português pode ser chamado – na minha tradução livre – de “Corrida para lugar nenhum”. Ele fala sobre a pressão que os alunos dos EUA, principalmente os de famílias de classe média-alta, estão sofrendo em sala de aula nos dias atuais.

Mas tenham calma que o documentário não é só sobre isso, e a pressão não é só dos professores. Vou falar um pouco do filme e vamos seguir uma linha de raciocínio que vai desembocar no ensino aqui no Brasil, ok?

A diretora estreante Vicki H. Abeles é uma advogada que certamente passou por uma certa pressão quando estudante e observou dentro da própria casa seus filhos passarem pelo mesmo problema… daí resolveu trazer o tema para discussão em forma de documentário.

As histórias contadas na película mostram que realmente os alunos passam por uma pressão absurda dentro da própria casa. Esta pressão vai para sala de aula na figura dos educadores – provavelmente cobrados pela direção da escola que por sua vez é cobrada pelos pais dos alunos.

E como toda corda sempre arrebenta do lado mais fraco, os alunos hoje estão sofrendo de estresse, depressão, um certo descontrole mental – que até levou uma das alunas que teve sua história contada no documentário a se suicidar – entre outras doenças psicossomáticas, além de casos de uso de drogas e abandono dos cursos.

O objetivo da pressão aplicada aos alunos? Entrar em melhores faculdades. Só isso.

Mas o que levou a este “estado escolar” de estresse contínuo? [estou usando esta expressão na falta de uma melhor para definir a situação]

Capitalismo: sugando todos…
… mas dando uma vantagem para os melhores.

O norte-americano é muito competitivo por natureza. Aliás, eu corro o risco de ser chamado de “marxista radical”, mas tenho que dizer que o Capitalismo – o sistema econômico onde os EUA e todos nós, enfim, estamos atolados até a testa – é um sistema eternamente competitivo. São empresas lutando por uma fatia cada vez maior de mercado e no meio desta briga estão os trabalhadores, ganhando na maioria absoluta das vezes salários não-condizentes com a quantidade ou qualidade do trabalho executado. E tem que trabalhar como se seus vencimentos fossem idênticos aos dos “chefes”…

Daí que se você é bom em determinado trabalho, parabéns, mas você é só mais um em uma multidão de profissionais. Você tem que ser “O Melhor”, daí quem sabe você é contratado por um salário mais digno e que vai te dar mais garantias de um futuro mais confortável?

Além da busca por melhores ganhos financeiros, há também a pressão pelo serviço bem feito. Afinal de contas, quem gostaria de entregar seu processo na mão de um advogado disperso e que demonstra um certo desconhecimento da lei que ele deveria conhecer como poucos? E um médico? Você deitaria na mesa de operações de um médico que fica na dúvida do que fazer quando fica frente a frente com uma decisão que envolve a vida do operado?

Difícil, concordam? Alguns chamam de “Lei da Selva”…

Mas você não estuda advocacia, sequer aprende a salvar uma pessoa que está sofrendo um choque cardiogênico no Ensino Médio. Estas informações estão no Ensino Superior. E na teoria, quanto melhor a faculdade que o aluno cursa, melhor a qualidade das informações recebidas – saídas das cabeças dos melhores professores -, melhores estágios ele irá conseguir e melhores experiências terá em pouco tempo de profissão.

Por isso esta pressão. Eu até entendo que pais querem sempre o melhor para seus filhos. Mas segundo o documentário esta pressão ao invés de ajudar, atrapalha. E muito!

Procurem saber mais sobre o documentário, vale a pena dar uma olhada no mesmo.

Mas e no Brasil, é assim?

Assistindo ao documentário logo veio este questionamento na minha cabeça. No Brasil os jovens de classe-média também sofrem com a pressão dos pais e professores. Segundo este estudo, os jovens brasileiros estariam até sofrendo com a indecisão na hora de escolher uma carreira, certamente causada pelo estresse resultante da pressão.

Estude... estude... estude...

Outro problema do Brasil é a falta de cobrança de alguns pais, professores e principalmente o MEC – que aprovou uma coisa absurda chamada “progressão continuada” – que simplesmente deixam a aprendizagem de lado e empurram com a barriga o ano letivo.

Aí o jovem vai passando de ano graças à progressão e cresce sem saber a tabuada, a conjugação correta de verbos e até mesmo responde perguntas dizendo que o Egito fica na Europa – mas aí é culpa da Cleópatra dos lindos olhos azuis interpretada pela Elizabeth Taylor, concordam? [pelo menos na época dos meus pais, quando uma pessoa achava que o Egito ficava na Europa a culpa era da Liz Taylor...]

Segundo este artigo, a progressão continuada é um bom método a ser utilizado com os alunos, mas merece um acompanhamento primoroso de educadores e até dos pais no ensino das crianças e jovens… mas digam aí: os professores tem tempo?

Esta é a discussão: Até onde os educadores podem cobrar dos alunos sem atrapalhar a aprendizagem? E até onde os pais podem exercer esta cobrança? E onde falta cobrança – principalmente dentro de casa – , o que fazer para mudar?

Quem quiser discutir, o espaço dos comentários está aberto!

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4 comentários sobre “Corrida para lugar nenhum”

  1. Luciano disse:

    Os pais devem encontrar um equilíbrio entre cobrança e apoio. Esse equilíbrio pode ser efetuado em conjunto, ou seja, o pai apresentar mais cobrança e mãe mais apoio, caso isso se encaixe com as personalidades do casal.
    Os educadores já realizam sua parcela de cobrança com as avaliações e os deveres de casa. Eles devem cobrar os deveres e fazer anotações na agenda quando a tarefa não for feita, não mais do que isso. As avaliações devem ser de alto nível, desde que as explicações também sejam(o que no nosso país é muito difícil).
    Outro método de cobrança que os educadores podem adotar é o incentivo à pesquisa. O aluno fica mais maduro se tiver que procurar outras fontes de estudo, receber tudo "mastigadinho" na mão é muito cômodo.

    Esse problema apresenta, em suma, três raízes.
    A primeira é a falta de estrutura familiar. A família precisa ter relacionamentos sólidos para proporcionar desenvolvimento, apoiar, cobrar e acompanhar na medida certa a criança ou o jovem.
    A segunda é a carência de seriedade por parte do governo com relação à educação. O país não coloca esse assunto em primeiro lugar, como deveria ser feito. Pessoas educadas sabem se cuidar e portanto cuidam da saúde, assim como poderão gerar e ocupar mais empregos.
    A terceira é o sistema, citado no seu texto Vinícius. Toda essa exigência vem do capitalismo. Essa competitividade pode ampliar o desempenho de alguns, mas corrói o potencial da maioria.

  2. Daniel Alexandre disse:

    Qual o problema do serviço público? mais ou menos, podemos dizer que, se trata de um espaço físico acomodando vários funcionários fazendo nada. Nada. Fazendo nada, e, na maioria do tempo aproveitado: nada que seja inovador.
    muitos postos de saúde estão na era da papelada… poucos são 'alfabetizados'(digitalmente)…
    em muitas escolas pergunte ao diretor sobre os planos futuros da escola, ele certamente dirá que estão organizando a Festa Junina deste ano…
    O trabalho significativo está longe deste feito pelos números.
    Enquanto a escola não tomar uma posição autônoma, e restabelecer-se como escola, e que tem regras próprias, e que quer a evolução dos seres que estão lá, nada terá valor na sociedade. Dependemos muito dela.

    Poderíamos começar tendo a Política, a Biologia, e a economia, como matérias principais para o aluno. Para ir desprendendo a sociedade desta escravidão salarial e política. Para que a 'massa' que há de vir, tenha condições melhores de gerenciamento, e equidade econômica…
    Abraço e, sem pressões…

  3. Zé da Fiel disse:

    Aconteceu algo engraçado, que pra min exemplifica oque a escola brasileira "pensa do que é educação ideal". Matriculei meu filho para o primeira serie ano passado e por ter nascido em janeiro ele foi "guindado" automaticamente pra segunda serie, reclamei, esperniei e briguei mas teve jeito,ele foi, ele e outras vinte e tantas crinaças. Hoje na terceira, ele tem um desempenho de segunda, lê mal, escreve mal, e desconhece matematica. Tento ser um pai interressado e presente, realmente espero queo fato de tentar incentiva-lo a ler compense o fato de a escola não querer ensina-lo.

    Mas esse fato me fez perceber uma coisa, anttigamente eu achava que a educação era sucateada de proposito para o povo não ter voz e não lutar por seu diritos; Mas não, nos brasileiros como povo, não levamos a educação a serio, os não-letrados consideram-na superfluo, e os academicos da educação, aparentemente a tratam ccomo um valor menor, não à usam como ferramenta para moldar uma nação, transmitir valores e conhecimento, e pior tratam a todos os estudantes como objeto de estudo.
    Esse *caso recente da professora que acha que concordancia verbal e gramatica são surpefluos e uma ferramente de opressão e descriminação, demonstra que a educação neste pais é encarado como desencessario, que alguns procurarão o conhecimento e esses "fortes" vão sobressair e eles e somente eles serão dignos d conviver no mesmo ambiente academico, os demias que façam um concurso e se encostem em algum emprego publico que pra isso não precisa de estudo.
    *(http://colunistas.ig.com.br/poderonline/2011/05/12/livro-usado-pelo-mec-ensina-aluno-a-falar-errado/)

  4. HistóriaZine disse:

    Ando meio enrolado de serviço mas estou vendo que a discussão tomou um rumo ótimo. Vamos por partes:

    @Luciano
    A idéia de forçar o aluno a pesquisar é ótima. Infelizmente eu não vejo professores que hoje tenham "força de vontade" para iniciar um trabalho desta importância. É falta de apoio da escola, falta de interesse da grande maioria dos pais em incentivarem os filhos a serem pessoas mais "curiosas"… mas a intenção é muito boa!

    @Daniel Alexandre
    Parte destes problemas que você citou tem sua raiz num tal de "Consenso de Washington", já ouviu falar dele? Os itens tratados na reunião não falam diretamente de educação, mas acabam influenciando a área… é meio triste, mas o próprio capitalismo que cobra resultados e a falta de erros prejudica a educação (tanto pública como privada)…

    @Zé da Fiel
    Este é um problema sério! Seu filho tinha que iniciar os estudos sem pular etapas… mas, fazer o que, né? Tá aí a prova de que a "progressão continuada" não dá certo (não é exatamente este o caso do seu filho, mas serve como exemplo). E não adianta reclamar, ninguém faz algo para melhorar… =/

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