As veias abertas que jorravam ouro e prata

O texto abaixo é uma parte do livro “As veias abertas da América Latina”, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, considerado por alguns um ferrenho defensor da versão histórica que prega o massacre dos nativos americanos após a chegada dos europeus. Para outros historiadores, Galeano só escreveu a verdade do continente.

O livro é polêmico. Houve realmente um massacre das populações nativas em troca das riquezas – principalmente ouro e prata – que, para os nativos, pouco importava mas na Europa financiou o desenvolvimento de vários países? Ou os nativos aceitaram pacificamente os europeus e acabaram morrendo só por causa de doenças, estas sim, sem dúvidas, trazidas pelos colonizadores? Como a História tem muitas “verdades”, creio que não cabe a nós julgar sem um estudo completo do tema.

Trago para os leitores o trecho abaixo pois o considerei interessante quando li. Aliás, convido os leitores a lerem este livro. Tem muitas boas informações que, se não devem ser usadas como verdades absolutas em uma discussão sobre o tema “colonização da América”, pelo menos merecem atenção.

E vamos logo ao texto do Galeano [“As veias abertas da América Latina”, Editora Paz e Terra, 1983. 19ª edição, páginas 28 e 29]. Os grifos são meus:

”Havia de tudo entre os indígenas da América: astrônomos e canibais, engenheiros e selvagens da Idade da Pedra. Mas nenhuma das culturas nativas conhecia o ferro nem o arado, nem o vidro e a pólvora, nem empregava a roda, a não ser em pequenos carrinhos. A civilização que se abateu sobre estas terras, vinda do além-mar, vivia a explosão criadora do Renascimento: a América aparecia como uma invenção a mais, incorporada, junto com a pólvora, imprensa, papel e bússola, ao efervescente nascimento da Idade Moderna. O desnível do desenvolvimento de ambos os mundos explica a relativa facilidade com que sucumbiram as civilizações nativas. Fernão Cortez desembarcou em Veracruz acompanhado por não mais de 100 marinheiros e 508 soldados; trazia 16 cavalos, 32 bestas, 10 canhões de bronze e alguns arcabuzes, mosquetões e pistolas. Bastou-lhe isto. E entretando a capital dos Astecas, Tenochtitlán, era cinco vezes maior do que Madri e tinha o dobro da população de Sevilha, a maior das cidades espanholas. Francisco Pizarro, por seu lado, entro em Cajamarca com 180 soldados, 37 cavalos, e encontrou um exército de 100 mil índios.

Cortez e Montezuma

Os indígenas foram derrotados também pelo assombro. O imperador Montezuma recebeu, em seu palácio, as primeiras notícias: um grande “monte” andava mexendo-se pelo mar. Os outros mensageiros chegaram depois: “… muito espanto lhe causou ao ouvir como dispara um canhão, como ressoa seu estrépito, como derruba as pessoas; e atordoam-se os ouvidos. E quando cai o tiro, uma bola de pedra sai de suas entranhas: vai chovendo fogo…” Os estrangeiros traziam “veados” nos quais montavam e “ficavam da altura dos tetos”. Por todas as partes tinham o corpo envolto, “somente as caras aparecem. São brancas, como se fossem de cal. Têm cabelo amarelo, embora alguns os tenham pretos. Sua barba é grande…[1]”

viracocha_01Montezuma acreditou que era o deus Quetzalcóatl que voltava. Oito presságios haviam anunciado, pouco antes, o retorno. Os caçadores lhe tinham trazido uma ave que tinha na cabeça um diadema redondo com a forma de um espelho, que refletia o céu e o sol em direção do poente. Neste espelho Montezuma viu marchar sobre o México os esquedrões dos guerreiros. O deus Quetzalcóatl tinha vindo pelo leste e pelo leste tinha-se ido: era branco e barbudo. Também branco e barbudo era Viracocha [imagem ao lado], o deus bissexual dos Incas. E o leste era o berço dos antepassados heróicos dos Maias [2].

Os deuses vingativos que agora regressavam para saldar contas com seus povos traziam armaduras e camisas de malhas, escudos brilhantes que devolviam os dardos e as pedras; suas armas disparavam raios mortíferos e escureciam a atmosfera com fumaças irrespiráveis. Os conquistadores praticavam também, com refinamento e sabedoria, a técnica da traição e da intriga. Souberam aliar-se com os Tlaxcaltecas contra Montezuma e explorar, com proveiro, a divisão do império incaico entre Húascar e Atahualpa, os irmãos inimigos. Uma vez abatidas, pelo crime, as chefias indígenas, souberam ganhar cúmplices entre as castas dominantes intermediárias, sacerdotes, funcionários, militares. Além disso, também usaram outras armas ou, se se prefere, outros fatores trabalharam objetivamente para a vitória. Os cavalos e as bactérias, por exemplo.”

Referências e comentários:
Que também constam no livro.

[1] Segundo os informantes indígenas de frei Bernardino de Sahagún, no Códice Florentino, Miguel León-Portilla, Visión de los vencidos, México, 1967.

[2] Estas assombrosas coincidências estimularam a hipótese de que os deuses das religiões indígenas tivessem sido na realidade europeus chegados a estas terras muito antes de Colombo. Rafael Pineda Yáñes, La isla y Colón, Buenos Aires, 1955.

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Interessante esta visão dos deuses nativos serem europeus que chegaram bem ANTES de Colombo. Normalmente nós não pensamos nesta possibilidade, mas É uma possibilidade, concordam?

Mas sobre isto nós falaremos em um outro texto…

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