A Revolução Francesa (3ª parte)

Quadro "A Liberdade guiando o Povo", de Eugène Delacroix. Este quadro entrou para a História como um dos símbolos da Revolução Francesa, mas Delacroix pintou-o somente em 1830, inspirado pelos acontecimentos da revolução que aconteceu no mesmo ano e ficou conhecida como "Les Trois Glorieuses".

Antes de ler este texto, leia os dois primeiros da série:
- 1ª parte: A França pré-Revolução
- 2ª parte:
Bastilha, Terror, Diretório, Jacobinos e Girondinos.

3ª parte: Influências e legado da Revolução Francesa.

O povo francês foi além de todos os outros povos; contudo, o detestável regime de cujos vestígios estamos nos livrando ainda nos mantém a grande distância da natureza; existe ainda enorme lacuna entre o que somos e o que poderíamos ser. Apressemo-nos a preencher essa lacuna; reconstituamos a natureza humana dando-lhe nova estampa.” [1]

Esta declaração do deputado Grégoire em 1794 resume um pouco de como o francês entendia sua Revolução. Na frase podemos encontrar claras referências à ideologia iluminista que povoava as cabeças pensantes da época, motivando os homens a lutar pelo seu espaço e seus direitos, deixando de lado os grilhões religiosos que nasceram na Idade Média e, por consequência, as monarquias que eram apoiadas e legitimadas pela Santa Sé romana.

O Iluminismo merece um texto só dele, tamanha sua importância histórica, mas acho que dá para explicar rapidamente o que foi esta corrente ideológica para nós entendermos como ele influenciou a Revolução Francesa.

O Iluminismo: o Homem tomava o lugar de Deus como o “centro” de todas as coisas.

O pensamento iluminista nasceu na Europa no século XVII. Os pensadores desta vertente filosófica defendiam o domínio da razão sobre todas as outras coisas, tomando claras posições contrárias ao Teocentrismo que dominou toda a Idade Média europeia.

Já o Teocentrismo defendia que “Deus era o centro de todas as coisas”. Juntamente com este pensamento vinha a ideia de que o planeta Terra era o centro do universo – Galileu Galilei é que gostava de contestar estas ideias – e que todas as explicações para o mundo estavam contidas na Bíblia ou nas obras dos pensadores católicos, como por exemplo, Santo Agostinho.

A “filosofia católica” da Idade Média – ou melhor, a base do pensamento que hoje chamamos de Teologia – cunhava os dogmas, que eram considerados as verdades absolutas, imutáveis, definitivas e inquestionáveis. Discordar destas ideias não era uma prática muito inteligente na Idade Média, podia terminar com o questionador excomungado… ou queimado em uma fogueira.

Já o Iluminismo colocou o Homem como o centro de todas as coisas [Antropocentrismo] e os pensadores voltaram a valorizar em suas obras as ideias dos filósofos gregos, como Platão e Aristóteles, que já na Antiguidade procuraram desenvolver o pensamento racional para fugir das explicações “mitológicas” da época para os fenômenos que os cercavam.

Desta forma, o Iluminismo pregava que o Homem deveria voltar a buscar, de forma científica, as respostas para as questões que eram justificadas pela fé.

Uma importante publicação da época foi a Enciclopédia, também conhecida como “Dicionário da razão”, que organizada inicialmente por d’Alembert e depois por Diderot e publicada entre 1751 e 1772, serviu como principal síntese do pensamento político e científico, reunindo textos e pesquisas de diversos autores.

Alguns dos principais pensadores iluministas foram Jean-Jacques Rousseau, Immanuel Kant, John Locke, Voltaire, Lamarck, Helvetius e Charles de Montesquieu. Este último formulou a Teoria da Separação dos Poderes [resumido aqui], que colocava as decisões de um governo de forma separada em funções executivas, legislativas e judiciárias.

Estes ideais iluministas influenciaram não só a política mas também as artes – por isso eu disse que o Iluminismo merece um texto só dele, pois esta ideologia mudou completamente a forma como o homem da Idade Moderna passou a entender o mundo que o cercava. Mas o que nós precisamos saber para este texto é que as ideias de Montesquieu – principalmente a teoria da separação dos poderes – influenciou os anseios da burguesia europeia, principalmente a francesa.

Época de transições políticas: da monarquia absoluta para a parlamentar. Ou então para a república. Estas eram as saídas.

A Inglaterra sofreu movimento parecido com o francês ainda no século XVII – a Revolução Gloriosa, que durou entre 1668 e 1669 – mas, ao contrário de seus vizinhos fabricantes do bom vinho, os ingleses mantiveram a monarquia, mesmo que de forma parlamentar, ou seja: o país continuava com seu rei e sua rainha sentados no trono, mas o Parlamento – eleito por uma parcela da população – é que passou a controlar e tomar as principais decisões do país.

Já na América do Norte os EUA ainda eram aquelas 13 colônias controladas pelos ingleses até o início da década de 1770. Mas em 1774, após o fim de Guerra dos Sete Anos, as colônias iniciaram sua luta pela independência. Os franceses, derrotados na Guerra dos Sete Anos, auxiliaram os colonos da América que, entre outras coisas, desejavam o fim da dependência político-econômica com a Inglaterra e a construção de um estado-nação. Assim nasceu os EUA.

Como o Iluminismo ganhava cada vez mais espaço entre os intelectuais da época, movimentos esparsos aconteceram em outros países europeus e na América. A Revolução Francesa foi apenas o ponto de ruptura com a ordem estabelecida onde ocorreram as maiores agitações – além dos exemplos da Inglaterra e EUA, citados acima. Na volta da Guerra de Independência dos EUA muitos ex-soldados franceses ajudaram a engrossar o coro dos que questionavam o poder absoluto de Versailles.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade: o lema era bom, mas na prática as diferenças sociais e as lutas para diminuir estas diferenças continuaram.

Quadro “A Liberdade guiando o Povo”, de Eugène Delacroix. Este quadro entrou para a História como um dos símbolos da Revolução Francesa, mas Delacroix pintou-o somente em 1830, inspirado pelos acontecimentos da revolução que aconteceu no mesmo ano e ficou conhecida como “Les Trois Glorieuses”.

Este lema esteve presente – pelo menos na intenção – na maioria das leis aprovadas pela Assembleia Constituinte francesa e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Apoiados nestes três ideais, os burgueses puderam mobilizar o povo e conseguir seus objetivos. E isto não aconteceu só na França.

Estes três ideais também mobilizaram movimentos de independência nas colônias portuguesas, francesas e espanholas, principalmente no continente americano. Nossa série de textos sobre “Os Libertadores da América” – Tupac Amaru, San Martin e Simon Bolívar – contam um pouco destes movimentos pela libertação da América do Sul.

Na prática estas mudanças políticas aconteceram mas o poder apenas mudou de mãos, e não foi para as mãos do povo, mas sim para a dos burgueses. O povo continuou tendo péssimas condições de vida.

Históricamente – para fins de datação – a Revolução Francesa é considerada o momento de mudança entre a Idade Moderna e a Contemporânea, mas as mudanças anteriores e posteriores à Revolução foram gradativas, não aconteceram de um dia para o outro, nem seus ideais principais nasceram como em um passe de mágica.

Os ideais iluministas já evoluídos ao ponto de provocar esta ruptura, por exemplo, tem raízes no Renascimento, lá no século XV. O começo da burguesia enquanto classe econômica também é da mesma época – mas os primeiros burgueses “nasceram” bem antes, lá nas primeiras feiras ao redor dos feudos lá no fim da Idade Média, nos séculos XII e XIII.

O que não podemos é desconsiderar a importância da Revolução. Ela teve raízes profundas e influenciou dezenas de outros povos, mesmo que estes povos não tenham usufruído de todo o direito conquistado após as revoluções. O século XIX talvez tenha sido o mais “revolucionário” da História – pois a luta do povo continuou – e sua pólvora vem lá da Revolução Francesa e de seus ideais, inflamados no fim do século XVIII.

Por isso sua importância.

Referências:

[1] HUNT, Lynn. “Política cultura e classe na revolução francesa”. Editora Companhia das Letras, 2007, p. 22-23 [link]

Fontes:

Conforme foi explicado no primeiro texto, aqui estão algumas fontes utilizadas. Como o assunto é muito extenso e tem uma farta bibliografia, recomendo uma pesquisa rápida para encontrar outros livros além destes indicados abaixo.

● HOBSBAWM, Eric. “A era das revoluções”. Editora Paz e Terra, 2006.
● BOITO JUNIOR, Armando. “Estado, política e classes sociais: ensaios teóricos e históricos”. Editora UNESP, 2007. [link]
“A Revolução Francesa foi causada pela fome.” Texto do prof. doutor Fábio Ramos sobre a Revolução Francesa. [link]
● MICELI, Paulo. “As revoluções burguesas”. Atual Editora, 1987.
● VICENTINO, Cláudio. “História Geral”. Editora Scipione, 1997.

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3 comentários para “A Revolução Francesa (3ª parte)

  1. Em minhas andanças diárias à cata de novidades, deparei-me com este excelente informativo didático. Gostaria imensamende de receber suas atualizações em meu email.

    Obrigado,

    Luciano Oliveira

  2. Parabéns! O conjunto das três partes que fala sobre a Revolução Francesa é simplesmente fantástico! Perfeito para quem quer entender melhor um período tão complexo e significativo na história no mundo ocidental.
    Ótimo!

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