“You dont just sit in a rocking chair
When youve built a revolution”
Antes de começar o texto, um comentário é mais que necessário:
Minha relação com o idioma dos lordes – que também é a língua do Tio Sam – não é lá muito boa. No geral eu consigo assistir meus seriados prediletos quase sem olhar a legenda quando eu me acostumo com o sotaque do personagem. E não dá para negar que o inglês falado em grande parte da Inglaterra é bem mais fácil de entender do que o inglês falado em Seattle, por exemplo. Questão de sotaque.
Quando eu começo a ouvir uma música cantada em inglês eu, sinceramente, não presto muita atenção na letra. Só me preocupo mesmo com o conjunto da obra – a qualidade da voz do(a) cantor(a), a melodia, os riffs de guitarra etc… – mas quando uma música chama minha atenção eu procuro entendee a letra. Quando não consigo, recorro ao encarte do CD ou às páginas da internet que tem a letra da música. Aí eu normalmente consigo entender alguns versos e as expressões mais difíceis eu deixo para o dicionário tirar minhas dúvidas.
Eu estou dando toda esta volta para explicar que dia desses eu estava usando o Twitter quando o amigo @VozdoAlem, do Nerds Somos Nozes comentou sobre uma banda do País de Gales, chamada “Manic Street Preachers”, dizendo que um determinado CD deles era muito bom. Eu baixei o CD e, ato contínuo, ouvi e baixei o restante da discografia. Banda muito boa, recomendo. Mas uma música deles em especial estava martelando meus ouvidos nos últimos dias.
Ela se chama Baby Elian, e é do CD “Know Your Enemy”. O que ela tem de tão especial ao ponto de merecer um texto neste humilde site? Já vou explicar! Mas antes, a música. Aumenta o som que o negócio é bom! – e sim, o vídeo foi gravado em Cuba. Se você quiser acompanhar a letra, clique aqui.
[link do Youtube]
O título da música é uma referência ao caso do menino Elian Gonzáles, que sobreviveu a um naufrágio em novembro de 1999 e acabou virando objeto de uma ferrenha disputa diplomática entre E.U.A. e Cuba.
Elian e sua mãe – que na época já estava separada do pai de Elian e os dois dividiam a guarda do garoto -, juntamente com outros cubanos tentavam fugir da ilha clandestinamente rumo à Flórida quando a pequena embarcação que os levava afundou. Elian foi resgatado dias depois pela guarda-costeira dos E.U.A., próximo à Fort Lauderdale. O garoto foi entregue ao tio-avô paterno, que residia em Little Havana, subúrbio de Miami onde vivem muitos exilados cubanos.
Só que o pai de Elian é quem tinha o direito à guarda da criança. A disputa teve desfecho favorável à Cuba, mas o caso é apenas um dos muitos problemas, embargos e tentativas de derrubar o regime castrista que ocorreram desde a Revolução Cubana, iniciada lá na década de 1950.
E é isto que me impressionou na música, pois seus versos estão apinhados de ocorrências – diplomáticas ou não – entre os dois países. Observem o refrão:
“Kidnapped to the promised land
The Bay of Pigs, or baby Elian
Operation Peter Pan
America, the Devils Playground”
“Kidnapped to the promised land“. Achei interessante a associação com os primeiros puritanos vindos da Inglaterra que desembarcaram no atual território dos E.U.A., após atravessar o oceano Atlântico a bordo do navio Mayflower. Este grupo de pessoas veio para os E.U.A. em busca da liberdade religiosa, fugindo da repressão da igreja anglicana, e eles acreditavam que no “Novo Mundo” eles poderiam construir uma nova Terra Prometida, uma nova Canaã. Para muitos cubanos os E.U.A. hoje são a “terra prometida”.
Acho que a parte do “America, the Devils Playground” eu nem preciso comentar. A metáfora cai como uma luva para explicar a relação E.U.A. – Cuba ANTES da revolução. Já o “The Bay of Pigs”, claro, é sobre aquele fracassado ataque de cubanos exilados nos E.U.A. e patrocinados pela CIA à Baía dos Porcos. Como eu disse, o ataque fracassou e o governo castrista na época ficou mais forte para legitimar a revolução.
Mas… e quanto à “Operation Peter Pan”? Já tinha lido algo sobre o assunto mas confesso que deixei passar no texto sobre a revolução, linkado alguns parágrafos acima.
A Operação Peter Pan:
Segundo Fidel, “uma covardia”. Leia e tire suas conclusões.
Revolução em curso, governo cubano nas mãos de Castro e seus auxiliares e simpatizantes, os E.U.A. deram um jeito de tirar da ilha cerca de 14 mil crianças entre 1960 e 1962. Como eles conseguiram? Simples: o Departamento de Estado financiou organizações católicas humanitárias que tiraram as crianças da ilha com o consentimento dos pais.
[As crianças que fizeram esta viagem criaram até uma organização. Clique na imagem ao lado para ir no site do grupo da Operação Peter Pan]
Os pais iriam para os E.U.A. meses depois como “exilados políticos”, poderíamos chama-los assim, não fosse a proibição do governo cubano, que barrou a saída dos pais de forma “legal”. A única saída era a fuga. Desnecessário dizer que muitas crianças jamais voltaram a ver seus pais. A Operação Peter Pan foi suspensa em 1962, durante a Crise dos Mísseis, e não foi retomada depois dos ânimos terem esfriado entre os dois governos. Fica a dúvida: foi realmente uma ação humanitária ou um sequestro?
Com o consentimento dos pais eu acho que uma ação destas não pode ser considerada sequestro. Mas o governo cubano aproveitou para vender o fato como um golpe-baixo dos E.U.A. – como se o covarde embargo econômico já não fosse um golpe suficientemente baixo… mas, pensando bem, o embargo só seria sentido no início da década de 1990, com o fim da U.R.S.S..
A música, como eu já disse, tem várias outras referências, como, por exemplo, o “Cuban Adjustement Act”, que entrou em vigor nos E.U.A. em 1966. Esta lei baixou diversas barreiras à concessão de vistos permanentes aos cubanos exilados nos E.U.A., facilitando a saída ilegal de Cuba. Se o(a) cubano(a) conseguir provar que vive a pelo menos um ano nos E.U.A., ganha o visto permanente.

Os caras do Manic Street Preachers. De vez em quando fazer um rock político tem bons resultados...
A banda tem outras músicas “politizadas”. Eu, particularmente, acho interessante quando uma banda consegue unir bom som com História. Algumas outras bandas estrangeiras já gravaram músicas assim, e alguns artistas brasileiros também já deram uma certa contribuição neste sentido. Aliás, na música popular brasileira nós temos ótimos exemplos!
Eu tenho aqui uma lista – pequena, mas que tende a aumentar com o tempo – sobre músicas que contam História e espero publicar os textos com o tempo. Mas você, que está lendo o texto, saberia de alguma música nestes “moldes” para indicar?
Escreve aí nos comentários. O professor aqui agradece, ok?









Apenas como curiosidade (pois apesar de também ser uma música com referências Históricas, não cabe no texto) vai aí mais uma música dos caras, chamada "Let Robeson Sing" [vídeo] e [letra].
Olá … vc poderia usar algumas músicas brasileiras. O que acha?
Priscila, a idéia é exatamente esta… calma que a gente vai escrevendo e postando aos poucos, ok?
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