O golpe de 64: perguntas e respostas

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O dia 31 de março (ou seria 1° de abril?) marca o início do Golpe Civil-Militar que implantou duas décadas de ditadura no Brasil. Em 2012 o Golpe completou 48 anos.

Neste texto vamos fazer um breve resumo dos acontecimentos que marcaram uma época bem turbulenta de nossa História.

Eu, Vinicius, preferi transformar o texto em uma série de perguntas e respostas. As perguntas eu já ouvi de algum amigo ou parente curioso ou então ela foi feita algum dia em sala de aula – por um colega de sala ou por minha própria pessoa. E as respostas estão de acordo com o que eu ouvi dos professores, os livros que eu li e as diversas opiniões que eu já ouvi ao longo das muitas conversas que eu já tive sobre o assunto.

Espero que vocês gostem do formato adotado para este texto e sintam-se à vontade para fazer novas perguntas nos comentários, caso tenham mais dúvidas. Estarei à disposição, ok? [até porque eu adoro conversar sobre este assunto]

Qual era o “cenário” da política brasileira antes do Golpe?

Não dá para comentar sobre a política nacional nesta época sem citar, mesmo que de forma bem rápida, a política internacional. O Brasil – assim como todos os outros países do planeta – estava, de alguma forma, alinhado com um dos dois grandes blocos econômicos e ideológicos que controlavam o planeta: o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos e o comunismo, liderado pela então União Soviética.

O Brasil era aliado direto dos E.U.A. desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o que não impedia o país de abrigar simpatizantes do comunismo. Alguns políticos influentes da época simpatizavam com os ideais comunistas e tentavam, de alguma forma, implantar no país medidas semelhantes a algumas decisões tomadas nos países comunistas, como por exemplo, a estatização dos serviços públicos. O exemplo clássico é de Leonel Brizola, que na época em que era governador do Rio Grande do Sul estatizou diversas empresas que estavam nas mãos do capital estrangeiro.

Havia desde o início da década de 1960 uma certa incerteza política no ar, mas nada que estivesse fora de controle pelo Estado. Naquela época os eleitores votavam no presidente e no vice, e não eram obrigados a votar em políticos do mesmo partido – ao contrário das eleições atuais, em que ao escolher o presidente você automaticamente escolhe o vice.

Desta forma o presidente eleito em 1960 e empossado no ano seguinte foi Jânio Quadros, do Partido Trabalhista Nacional (PTN). O vice eleito foi João Goulart, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Mas Jânio renunciou no mesmo ano devido às pressões que, segundo ele, eram “forças terríveis” que tramavam contra seu governo. É verdade que Jânio tomou algumas decisões políticas, diplomáticas e administrativas que não agradaram a alguns setores da sociedade e alguns militares, mas também houve uma pressão exagerada em cima do então presidente.


Jânio Quadros condecorou Che Guevara com a Cruz do Cruzeiro do Sul. Este foi apenas um dos gestos polêmicos do ex-presidente.

Por que depois da renúncia de Jânio Quadros o clima político ficou tão “pesado” no país?

Jânio já contava com a desconfiança e a antipatia de alguns políticos e superiores das Forças Armadas que tinham ideais mais alinhados com a política praticada pelos Estados Unidos. O gesto da foto acima, de condecorar um dos comandantes da Revolução Cubana, causou desconforto em muitos militares.

A iniciativa do presidente brasileiro, também interessado em implementar uma nova política de relações internacionais, suscitou críticas, principalmente dos militares, promovendo até mesmo a devolução de condecorações da grande maioria deles.” [fonte]

Após a renúncia de Jânio, o vice João Goulart deveria ser empossado, como rezava a Constituição de 1946. Só que Goulart estava em uma viagem diplomática à China, outro país reconhecidamente comunista. Os setores mais conservadores imediatamente acusaram Goulart de ser comunista e tentaram impedir sua posse.

Alguns políticos mais moderados e outros mais alinhados à esquerda seguraram a pressão dos militares e da oposição e exigiram a implantação de um regime parlamentarista, com Goulart ocupando o posto de chefe-de-estado. E em 1963 a população, em um plebiscito, escolheu a volta do regime presidencialista. Goulart então assumiu o poder e tentou sempre manter uma postura conciliadora, com medidas que ora agradavam a direita, ora agradavam a esquerda.

Só que este cenário era turbulento demais! Quando Goulart tomava decisões que agradavam a direita, inflamava o discurso dos políticos da esquerda, que criticavam energicamente as decisões do presidente. E vice-versa. E a corda acabou arrebentando do lado esquerdo, pois havia o “perigo comunista” rondando o país.

Mas afinal, o Brasil poderia vir a ser uma nova União Soviética? E o tal “perigo comunista”, era real?

Não havia nos comunistas brasileiros força suficiente para mobilizar uma grande parcela da população para pegar em armas e colocar em andamento uma revolução. Mas havia sim a vontade de mudanças entre as classes populares, apoiadas por alguns políticos de esquerda, o que invariavelmente mudaria o status quo das classes mais favorecidas.

Como exemplo prático, podemos citar o fato de que os políticos de esquerda exigiam que o governo iniciasse uma grande Reforma Agrária, o que ajudaria grande parte da população rural mas contrariava os interesses dos latifundiários.

A Igreja Católica sempre teve posição contrária ao comunismo, mesmo tendo em suas fileiras padres que mantinham o “péssimo costume” de ler a Bíblia e seguir à risca os ensinamentos socialistas de Jesus. E nesta onda de medo, as pessoas da classe média embarcavam naquele discurso de que, com o comunismo, iam perder todas as suas posses para o Estado.

Resumindo: não havia, na época, motivos para temer uma revolução completa no país. Era difícil e bem custoso causar uma revolução profunda em um país tão grande e tão diversificado como o Brasil – o que quer dizer que nem os partidos comunistas lá na Europa tinham condições de financiar tal revolução.

Quem realmente apoiou o Golpe?

Inicialmente grande parte da classe-média, setor popular que históricamente mantém um discurso de mudanças mas na prática tem fortes tendências conservadoras, os grandes donos de terras, parte do empresariado nacional, a Igreja Católica, principalmente os membros do alto-clero, políticos dos partidos de direita, muitos militares e pessoas que de uma forma geral não simpatizavam com o comunismo.

Afinal, foi Golpe ou Revolução?

É necessário entender que o que ocorreu em 1964 não trouxe mudanças na ordem vigente do país. Não houve uma quebra de modelo político nem social. Portanto, dizer que o que ocorreu em 64 foi uma revolução é um erro histórico grave. Foi sim um golpe para a manutenção do status quo de uma parcela da população brasileira.

E o pior de tudo, foi um golpe preventivo, já que a ameaça comunista nunca se concretizou.

Vamos raciocinar juntos no absurdo da notícia. Ali em cima está escrito: "Fugiu Goulart e a democracia está sendo reestabelecida." Pergunto, apenas para reflexão... Goulart não foi eleito democraticamente e referendado por um plebiscito???

Não existiam só comunistas entre os “subversivos” – apelido carinhoso dado pelos militares àquelas pessoas que eram contrárias ao regime arbitrário imposto principalmente depois de 1968, com a expedição do Ato Institucional número 5. Padres, artistas, estudantes e qualquer outro brasileiro que não concordava com a falta de liberdade imposta pelos militares ou que acabava entrando na briga por sofrer perseguição de algum aparelho do Estado acabou lutando de alguma forma contra a ditadura.

Os exemplos estão espalhados por todo o Brasil, até na Presidência da República.

Houve influência dos Estados Unidos no Golpe de 1964?

A influência existiu, apesar de não ter sido muito direta. Oficiais brasileiros passavam por uma formação ideológica influenciada por quartéis norte-americanos, além do já comentado alinhamento ideológico capitalista que também influenciava setores da sociedade.

Havia uma preparação, uma espécie de sobreaviso que deixou militares dos E.U.A. prontos para intervir no Brasil caso o Golpe desse errado. E não foi só no Brasil que os E.U.A. influenciaram para a entrada de ditaduras militares no poder. Isto também aconteceu na Bolívia, Guatemala, Chile, Argentina, República Dominicana, Uruguai, Paraguai… eram as Doutrinas Monroe e Truman aplicadas diretamente à América Latina.

Essa parte eu gostaria de deixar dois links com textos sobre a influência dos E.U.A. no Golpe de 64. Um texto da revista Veja e um texto do Portal Vermelho. Eu aconselho ler os dois, ok?

E qual a posição do autor do texto quanto ao ocorrido em 64?

[Estou poupando os leitores desta pergunta nos comentários, ok?]

Eu, Vinicius, sou contrário a qualquer limitação de liberdade – desde que esta liberdade não seja usada para ferir ou prejudicar de qualquer forma outras pessoas. Por isso eu não concordo com o que aconteceu em 64 e nos anos seguintes.

O Brasil não precisava de uma Revolução nem de um Golpe para melhorar as condições de vida de seu povo. O país precisava de justiça social, coisa que até hoje não acontece de forma plena no país. Só assim vamos superar os graves abismos de desenvolvimento que ainda temos dentro do território nacional.

Apesar de você, “amanhã vai ser outro dia”, mesmo que este outro dia ainda não tenha, de fato, chegado para a maioria da população…

Como eu disse no início do texto, fiquem à vontade para fazer mais perguntas no espaço dos comentários!

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14 comentários para “O golpe de 64: perguntas e respostas

  1. Um fato muito polêmico é um tal discurso intitulador de uma chamada 'ditabranda' apregoado por uns jornalistas pela web, uma vez que tal fase da nossa política nacional não teria retalhado os direitos sociais e individuais da sociedade… há que se avaliar essa visão um tanto distorcida aê, galera.

    E outra, como assim o parlamentar Bolsonaro vem afirmar que nem um Golpe seria tal evento, uma vez que obteve o apoio de um segmento da população considerável para manter a política brasileira nos eixos, tal qual estava!

  2. Prefiro não comentar o Bolsonaro, aquilo é um ABORTO da Democracia. Quanto ao discurso da "Ditabranda", aquilo dá nojo, sério mesmo!

  3. Cara, eu nem ia comentar, por que sou um cara politizado e muito das minha opiniões poddem ser dubias…mas eu perco o amigo mas não perco a piada.

    Como tu bem disse mo teu texto, houve exageros de ambas as partes. Na epoca com os casos de Coreia, Cuba e Vietnam existia sim um clima de psedo revolução mundial. (Tem uma parte muito boa em SIKCO do Michel Moore que mostra o pensamento das pessoas da epoca. As palestras contra o atendimento de saude universal)Temos que lembra que muitos dos jovens que se engajaram na luta armada foram treinados sim, pela URSS e eles achavam que podiam iniciar uma revolução. Já ouvi centenas de entrevistas de ex-alunos da epoca que receberam treinamento, em Cuba e Bolivia. Portanto se havia alguem patrocinando e se havia alguem acreditando em uma revolução comunista no Brasil, o "Statusquo" tembem tem o "direito" de tentar se proteger.

    Isso posto, essa ditadura restringi-se apenas o transito de informação e liberdade de expressão segundo um codigo moral, não houve repercução nenhuma ao cidadão comum, meu avô vivendo no interior da Bahia nem sabia se teve ditadura ou não. E outra a psedo luta cconta a ditadura não era pra restabelecer o governo de João Golart e sim pra instaurar uma ditadura comunista contando com o povo brasileiro tão politizado e socialmente resposavel que já conhecemos

    Só pra citar um exemplo pratico, Presidentaço LULÂO, foi preso por deseordem publica e inscitação as massas na epoca, se hoje tem muito otario de internet que fala mal dele e o acusa de ganho pessoal, imagina o mesmo no fim dos anos 70. E vamos analizar, quem tava lutando pelo oque e porque quem?

    De novo, tervigesei, falei muito e fiquei em cima do muro só pra contestar um pouco, e confirmar que não sei nada.

  4. Sim, Zé, não nego que pessoas receberam treinamento de guerrilha em outros países, financiados pelos comunistas (até porque o Partido Comunista tinha "entrada" no país).

    Mas eu – veja bem, EU, Vinicius, minha opinião, não tô dizendo que li isso em um livro ou em qualquer outro lugar – não acho que estas pessoas tinham forças suficientes para iniciar uma revolução em TODO o país, mesmo apoiadas pelos PCs da Europa. Aqui o "descontentamento" das camadas populares com o governo não chegou aos pés do exemplo soviético.

    Cuba é outro caso à parte. País pequeno e de população majoritariamente agrária e miserável. E os chineses estavam preocupados demais em controlar sua população para ajudar uma revolução comunista no Brasil. Por isso eu coloquei no texto que não havia força suficiente para uma ação igual a destes 3 exemplos.

  5. Olá Vinícius. Tenho lido sobre esse tema ultimamente e ainda não consegui chegar a uma conclusão. Gostaria que você explicasse, se for possível, os efeitos da ditadura no cidadão comum, aquele que não era artista nem guerrilheiro. Eu, como nasci em 1986, não tenho a menor idéia de como foram os anos de ditadura, e nunca ouvi ninguém na minha família reclamar ou falar bem desse tempo. Parece que foram anos “normais”. Se você puder me “iluminar” e adicionar mais algumas informações ficarei muito grato!
    Ps: Seu site é excelente! Parabéns!

  6. Olá. Nosso pais está precisando novamente de um AI 5 para impor limites aos Cahoeiras da Vida, alguns congressitas (o time de Goiás e Rio), alguns do judiciário, assaltantes, estupradores, matadores de mulheres indefesas, pedófilos, arrobadores de caixas eletrônicos, enfim, algo para devolver à sociedade que paga impostos um mínimo de tranquilidade. Estamos precisando de saúde, educação e segurança.

    • ALON, o problema é que o AI-5 nunca ficaria restrito aos corruptos… um dia a população ia voltar a sofrer com ele.

  7. Olá Vinícius,se revolução comunista no Brasil tive se tido exito hoje poderiamos ser um pais igual a Cuba que até para comprar sorvete tem filas inormes.

    • Oi Cristiane, tudo bem?

      Vou responder “copiando-e-colando” uma parte do texto que explica isso de forma resumida, já que eu ando MUITO ocupado e completamente sem tempo para escrever um texto (acredite, a vida do professor aqui não está fácil! rsrs)… Qualquer dúvida, dá uma olhada no livro de História do Brasil do professor BORIS FAUSTO. Ele é muito bom!!!

      Após a renúncia de Jânio, o vice João Goulart deveria ser empossado, como rezava a Constituição de 1946. Só que Goulart estava em uma viagem diplomática à China, outro país reconhecidamente comunista. Os setores mais conservadores imediatamente acusaram Goulart de ser comunista e tentaram impedir sua posse.

      Alguns políticos mais moderados e outros mais alinhados à esquerda seguraram a pressão dos militares e da oposição e exigiram a implantação de um regime parlamentarista, com Goulart ocupando o posto de chefe-de-estado. E em 1963 a população, em um plebiscito, escolheu a volta do regime presidencialista. Goulart então assumiu o poder e tentou sempre manter uma postura conciliadora, com medidas que ora agradavam a direita, ora agradavam a esquerda.

      Só que este cenário era turbulento demais! Quando Goulart tomava decisões que agradavam a direita, inflamava o discurso dos políticos da esquerda, que criticavam energicamente as decisões do presidente. E vice-versa. E a corda acabou arrebentando do lado esquerdo, pois havia o “perigo comunista” rondando o país.

      Espero que tenha te ajudado, e desculpa não poder responder melhor.

    • Depende. Independente de treinamento, financiamento e etcéteras, tu acha que grupos pequenos teriam condições de mobilizar “massas camponesas” (numa época já marcada por forte êxodo rural, diga-se de passagem) prá derrubar um governo que a Esquerda brasileira na época mais apoiava do que combatia?

      Porque vamos combinar: se rolasse uma “revolução”, também rodaria o presidente.

  8. Não houve influência direta dos EUA? Castelo Branco foi praticamento promovido pelos Estados Unidos a presidente.

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