Poucos assuntos históricos despertam a curiosidade de uma boa parcela das pessoas que eu conheço. Nem todo mundo gosta de ler, discutir ou até mesmo bater um bom papo descontraído sobre História de uma forma geral, mas quando o assunto é Segunda Guerra Mundial… a coisa muda de figura. Este foi o maior conflito que já existiu na História e as marcas da destruição ainda estão presentes em muitos lugares do planeta, principalmente em toda a Europa, partes da Ásia, África, ilhas do Pacífico e Japão.
A guerra não chegou muito “perto” do Brasil, mas alguns brasileiros lutaram no front, enviados pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) até as linhas italianas a partir de 1944. E o documentário que nós vamos falar agora mostra exatamente isto: o relato de aviadores da Força Aérea Brasileira (FAB) que lutaram ao lado dos grupos de caça norte-americanos, integrando o 350º Fighter Squadron.
Senta a Pua!
O documentário, dirigido pelo brasileiro Erik de Castro e lançado no ano 2000 conta a trajetória dos aviadores brasileiros desde a ida para o primeiro treinamento nos E.U.A., em Orlando, até o fim da guerra. A FAB não tinha um grupo de aviação de caça até a entrada na guerra, então foi criado o 1ºGAvCa, que foi batizado com o nome de “Senta a Pua”, uma expressão que quer dizer, segundo o professor e jornalista Austregésilo de Athayde…
“… lançar-se sobre o inimigo com decisão, golpe de vista e vontade de aniquilá-lo. Quem vai sentar a pua não tergiversa. Arremete de ferro em brasa e verruma o bruto.”
Havia também a primeira esquadrilha de ligação e observação da FAB, que ficava mais subordinada à própria FEB. O 1ºGAvCa ficou diretamente subordinado à USAF, a força aérea norte-americana.
Contando com depoimentos de diversos oficiais que participaram do conflito, o filme traz algumas informações interessantes. Você sabia que os Aliados preferiram manter o combate na Itália, mesmo em banho-maria, para que os soldados alemães que estavam entrincheirados ali não saíssem das linhas, indo reforçar outras frentes que estavam sob fogo cerrado dos Aliados, tanto na França/Bélgica/Holanda quanto na U.R.S.S./Polônia? Esta ordem estratégica eu desconhecia, mesmo que um “é óbvio!” tenha saído da minha boca após ouvir a explicação no documentário.
Já a história da criação do famoso símbolo do grupo, o “patch” que estampa até hoje os aviões do 1º Grupo de Aviação de Caça da FAB eu já conhecia. Só não sabia que o avestruz teve um modelo humano para o desenhista, o então capitão aviador – hoje brigadeiro – Fortunato Câmara de Oliveira.
Ele usou como inspiração o colega Lima Mendes, após consultar os pilotos sobre qual de todos ali no grupo mais se parecia com um avestruz. Se você ainda não viu o documentário, a história do patch e a simbologia contida no mesmo pode ser lida clicando aqui ou aqui. Ah, e no segundo link conta o porquê do avestruz. É uma história engraçada.
Ao front!
A vida não foi fácil na Itália. Os aviadores brasileiros inicialmente ficaram na região da Tarquinia, e começaram integrando as formações junto com outros três pilotos norte-americanos, para pegar experiência, afinal de contas, treinamento é treinamento, guerra é guerra.
Os aviadores brasileiros não pegaram a fase de confronto direto com os aviões da Luftwaffe, isto já tinha sido feito pelos aviadores norte-americanos. Então muitas das missões consistiam em bombardear alvos estratégicos – depósitos de munições, pontes que podiam ser usadas pelos alemães, trens que transportavam armas e mantimentos etc… – , o que não evitava confrontos periódicos com as temidas baterias anti-aéreas.
Os aviadores brasileiros também deram suporte aos soldados que tomaram Monte Castelo, bombardeando as trincheiras de onde os alemães rechaçavam os ataques aliados. Segundo o brigadeiro Rui Moreira Lima, havia uma média mensal de três baixas no grupo de pilotos brasileiros. Muitos infelizmente morreram e outros que saltaram no meio das linhas inimigas foram feitos prisioneiros.

O lendário Thunderbolt P-47, o avião utilizado pelo 1ºGAvCa. [fonte]
Poucos escapavam do cerco alemão quando o avião caía atrás das linhas inimigas, e a história mais fantástica certamente é do piloto Danilo Marques Moura. Sua fuga foi tão espetacular que os colegas criaram uma ópera contando sua aventura desde o vale do Pó até o acampamento dos Aliados, já na cidade de Pisa.
Já no final do conflito, os brasileiros já tinham centenas de horas de vôo e uma certa experiência nos céus italianos, e foram os principais pilotos a fazer parte da Ofensiva da Primavera, que durou entre 6 e 24 de abril. A ofensiva foi o esforço final dos Aliados para encerrar a guerra. A linha de frente já estava rompida, mas os soldados alemães ainda se defendiam com força.
Em um destes ataques o aspirante Frederico Santos bombardeou um depósito de munição e não conseguiu escapar do “cogumelo” formado pela explosão. Seu avião virou uma bola de fogo, ele ainda conseguiu pular de pára-quedas mas faleceu. Como estava em território ainda controlado por alemães, seu resgate não foi cogitado. Só depois de um tempo, com a região já livre de alemães é que foi enviado um grupo para recolher possíveis prisioneiros deixados para trás pelos alemães e mortos.
Aí descobriram que os alemães não enterraram o Santos. Eles cobriram o corpo do piloto com pedras, colocaram uma cruz e reproduziram as informações contidas na “dogtag” – aquela plaquinha que todos os militares penduram no pescoço para identificação – em uma placa de bronze.
O documentário é emocionante! Ouvir da boca das pessoas que viveram o conflito é melhor do que ler livros ou ver filmes “ficcionais” sobre o assunto – mesmo que estes filmes sejam baseados em fatos reais. Ali não tem roteiro inventado, os pilotos contaram apenas o que aconteceu com eles.
Se eu ficar escrevendo aqui, vou acabar contando o filme todo. Vejam! É isto que eu recomendo. É parte da História do Brasil e da Segunda Guerra Mundial.

Cada bomba pintada na fuselagem representava uma missão.
Visite também:
- O site oficial do grupo de aviadores, o Sentando a Pua.








