A Revolução Francesa (2ª parte)

- Antes de ler este texto, leia a 1ª parte: A França pré-Revolução.

2ª parte: Bastilha, Terror, Diretório, Jacobinos e Girondinos.

Quando Luis XVI tomou a decisão de abafar a Assembleia Constituinte, já era tarde. Nas ruas de Paris a revolta já tomava conta da população. Os nobres deixaram a França, com medo da violência – Luis XVI em um momento também deixou Paris rumo ao exílio. Um governo provisório foi instituído pela burguesia parisiense, a Comuna.

Em 13 de julho de 1789, a Comuna organizou a Guarda Nacional, uma milícia com o intuito de resistir a uma possível tentativa de retorno de Luis XVI ao controle antes do fim da Assembleia e também para lutar contra eventuais manifestações mais violentas da população. Em toda a França milícias e governos provisórios tentavam manter a ordem. Em Paris, no dia 14 de julho os milicianos invadiram o Arsenal dos Inválidos para pegar as armas e as munições que ficavam guardadas naquele local.

Só que a pólvora para as armas estava em outro lugar: a prisão da Bastilha.

“A Tomada da Bastilha”, quadro de Jean Pierre Houël.

A Bastilha era um castelo que foi transformado em prisão onde os monarcas encarceravam seus oponentes políticos. Mais do que simplesmente uma prisão, a Bastilha servia como um repositório das idéias que confrontavam o poder absoluto dos reis. Era um símbolo contra o iluminismo e os ideais liberais da época.

A tomada da fortaleza transformou-se em um marco da Revolução, e o dia 14 de julho de 1789 foi comemorado já no ano seguinte como um dia simbólico para a França. Seguindo a queda da Bastilha, no campo as pessoas saqueavam castelos, enquanto os poucos funcionários nomeados pela coroa que ainda trabalhavam tentando manter a ordem deixavam seus postos, com medo da violência atingi-los. A burguesia tomava a frente nas organizações municipais e campesinas e novas milícias eram montadas.

Declaração dos Direiros do Homem e do Cidadão

Enquanto isso, na Assembleia, era aprovada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento que estabelecia a igualdade de todos perante a lei, e garantia o direito à propriedade privada e a resistência à opressão.

Os privilégios feudais também foram cassados, a Igreja teve seus bens confiscados, o dízimo foi suspenso e os padres passaram a responder diretamente à administração pública, ao invés da Santa Sé, em Roma. Era aprovada a Constituição Civil do Clero, que fez o papa Pio VI condenar a Revolução e dividir o clero em juramentado – os que aceitavam a Constituição – e refratário, composto pelos membros que não aceitavam a nova subordinação.

Em 1791 a Assembleia Nacional proclamou a primeira Constituição francesa, que estabelecia uma monarquia parlamentar. O rei exerceria o poder executivo e o poder legislativo seria exercido pelos deputados eleitos pelo voto censitário, ou seja: de acordo com as rendas individuais. Também foram aprovadas leis que proibiam as greves e a formação de associações de trabalhadores. Desta forma, o Estado francês ganhou leis de interesse burguês. Os privilégios aristocráticos foram substituídos por leis que garantiam liberdade econômica para a burguesia e restrições para o restante da população.

Enquanto isso, os países vizinhos da França tentavam conter a Revolução, e os nobres franceses que fugiram do país tentavam organizar forças contra-revolucionárias. Nada disso teria ido para a frente se Luis XVI tivesse aceitado a Constituição, mas a família real também resolveu fugir da França.

A Fuga do Rei:

Segundo Eric Hobsbawm, “os reis tradicionais que abandonaram seus povos perdem o direito à lealdade“. Luis XVI, ao tentar fugir, fez mais do que simplesmente abandonar seu povo. Ele acirrou o desejo pela implantação da República entre os populares.

Sua fuga foi em vão. Capturado em Varrenes, Luis XVI inicialmente foi absolvido pela Assembleia, que neste momento ainda desejava manter a monarquia. A Guarda Nacional inicialmente conteve os protestos que pediam a cabeça do rei, mas não conseguiu – nem teve motivos para – conter a fúria da população quando um exército, formado pelos nobres que fugiram do país – os emigrados – e fortalecido por exércitos de outros países conservadores e que não desejavam a continuidade da Revolução, principalmente soldados prussianos, marchou sobre a França rumo a Paris.

Os países europeus vizinhos à França que ainda tinham monarquias absolutistas, temendo este avanço revolucionário por toda a Europa, assinaram a Declaração de Pillnitz, que previa uma intervenção na França, nem que fosse pela via militar.

Batalha de Valmy

Os jacobinos – falaremos mais deles daqui a pouco – proclamaram que a pátria estava em perigo e armaram a população. Foi o começo da Comuna Insurrecional de Paris.

A Batalha de Valmy foi vencida pelos franceses às portas de Paris, sob a liderança de Robespierre, Marat e Danton, e os emigrados foram expulsos definitivamente da França ou mortos. Luis XVI foi julgado como traidor e teve sua cabeça guilhotinada em praça pública em 21 de janeiro de 1793.

E já que citamos os jacobinos, está na hora de falar da principal divisão política da Revolução.

Jacobinos versus Girondinos: “Esquerda X Direita”

Os girondinos representavam a grande burguesia e, como toda burguesia-que-se-preza, defendia seus interesses econômicos acima de qualquer outra coisa. Os jacobinos eram, inicialmente, revolucionários que ganharam este nome devido às primeiras reuniões do grupo, que aconteciam no convento dos padres jacobinos, de ordem dominicana.

Desde o início da Assembleia os dois grupos agiram de forma a polarizar o debate, assim como acontece hoje em dia nos debates entre grupos políticos de direita e de esquerda. Apesar das idéias contrárias, os dois grupos apoiavam a Revolução, mesmo que os debates sobre a Constituição tenha gerado alguns atritos. Mas foi durante a Covenção Nacional – a Assembléia foi transformada em Convenção e assumiu o controle da França – iniciada em 20 de setembro de 1792, que a polarização ficou mais intensa.

Durante as reuniões, os deputados girondinos que queriam o fim rápido da Revolução, a consolidação das vitórias burguesas e o reestabelecimento comercial francês, freando o radicalismo, ficavam à direita. No centro ficavam aqueles deputados sem posição política definida. Na maioria eram membros da pequena burguesia. E à esquerda, na parte mais alta do salão de reuniões, ficavam os jacobinos, mais radicais e que defendiam os interesses da população comum, os sans-culottes. Herdamos esta “nomenclatura” política desta época, destes debates dentro da Convenção Nacional.

Além dos acalorados debates e das ameaças externas, a França tinha grandes problemas internos. Eles pioravam à medida que a Revolução não conseguia se organizar em torno de idéias comuns. Como já foi dito, os girondinos queriam o estabelecimento de seus direitos, esquecendo o restante da população, mas o jacobinos defendiam o povo. No meio desta disputa, tínhamos alguns levantes anti-republicanos ocorrendo no interior da França, o que dificultava ainda mais a organização do país.

Em 2 de julho de 1793 os jacobinos, pressionados e apoiados pelos sans-culottes, tomaram a Convenção e mandaram prender os girondinos. Os principais líderes jacobinos, Hébert, Danton, Saint-Just, Marat e Robespierre assumiram o poder, dando início à Convenção Montanhesa, considerada a época mais radical da Revolução.

Todo o poder ao povo! Ao povo??? Robespierre e o “Terror Jacobino”.

Após a tomada do controle pelos jacobinos, foi aprovada ainda em 1793 a Constituição do Ano I. O Comitê de Salvação Pública, liderado inicialmente por Danton, ficou responsável pela organização do país e pela defesa externa da França. Abaixo dele vinha o Comitê de Salvação Nacional, cuidando da segurança interna, enquanto o Tribunal Revolucionário julgava os opositores da revolução.

Os jacobinos implantaram uma espécie de “economia de guerra”: havia o racionamento de mercadorias e os especuladores – que escondiam produtos para aumentar a procura e o preço dos mesmos – foram combatidos.

Várias pessoas acusadas de simpatizar e até mesmo tramar a favor da monarquia foram julgadas e guilhotinadas em poucos dias. Mas foi após a morte de Marat, assassinado por uma girondina, que os ânimos ficaram muito exaltados. Marat era querido pela população, e sua morte causou mais do que comoção.

“Marat assassinado”, quadro de Jean-Joseph Weerts.

Danton, considerado moderado para os padrões jacobinos, foi destituído do Comitê de Salvação Pública e expulso do partido. Robespierre tomou seu lugar e iniciou a fase que ficou conhecida como O Grande Terror. Aristocratas, membros do clero, burgueses especuladores e inimigos da Revolução foram detidos e executados. Até a ex-rainha Maria Antonieta e o químico Antoine Lavoisier, “pai” da química moderna, foram executados. Até mesmo deputados jacobinos, contrários ao radicalismo de Robespierre, foram perseguidos.

Golpe do 9 Termidor

Robespierre não tinha jogo de cintura político, e suas atitudes estavam causando desconforto até entre os jacobinos que apoiaram sua nomeação no lugar de Danton. Em 27 de julho de 1794 ocorreu o golpe do 9 Termidor, quando girondinos que sobreviveram ao Terror, em uma rápida manobra na Convenção, destituíram Robespierre, acabaram com a Comuna de Paris e colocaram o Partido Jacobino na ilegalidade.

Robespierre e seus apoiadores foram sumariamente executados. Convocada por Robespierre para defender seus interesses, a “massa” dos sans-culottes não respondeu ao chamado. A pequena burguesia deixava o poder, enquanto os girondinos voltavam ao comando, dando início à Convenção Termidoriana.

A volta da burguesia ao poder! Problemas, problemas e mais problemas…e uma solução.

Esta Convenção teve vida curta, durando entre 1794 e 1795, mas foi importantíssima, pois reorganizou os interesses burgueses. Foi aprovada a Constituição do Ano III e a implantação do Diretório, dando início à República do Diretório, que durou até 1799. Este Diretório era controlado por cinco membros eleitos pelo voto dos deputados.

Até aí ia tudo bem – até mesmo com uma pequena calmaria pós-golpe -, só que os girondinos não contavam com algumas coisas que começaram a ocorrer após a implantação do Diretório. Os sans-culottes reinvindicavam a continuidade das políticas sociais mantidas pelos jacobinos, que por sua vez tentaram voltar ao poder na força por algumas vezes. Simpatizantes da monarquia também tentavam dar pequenos golpes, enfraquecendo a administração girondina.

Os burgueses sabiam que seria difícil controlar toda esta situação sem o apoio da maioria. A França não tinha só problemas internos, como a escassez de alimentos e a contínua agitação político-social. O exército francês lutava em todas as fronteiras, rechaçando as investidas dos exércitos da Espanha, Holanda, Itália e Prússia, que nesta época resolveram se unir para formar a Segunda Coligação contra a França. Estas guerras minavam ainda mais a economia francesa, amplificando os problemas internos.

Era necessário alguém com força suficiente para acalmar os ânimos internos e liderar os franceses rumo à vitória contra as forças reacionárias externas. Este homem precisava de pulso firme para tomar decisões duras. Ele já existia, era um general de brigada e tinha conseguido respeito ao sufocar um golpe realista em 1795. Os burgueses acenaram com a possibilidade de colocá-lo no poder através de um golpe, não deslegitimando assim o Diretório, apenas forçando o fim do mesmo por causa do golpe.

Ele acatou a decisão, tomou o poder em 9 de novembro de 1799 – o dia 18 de brumário no calendário francês da Revolução – e instituiu o Consulado, dando fim ao Diretório. A burguesia estava livre para tratar de seus negócios enquanto este general controlava toda a França. O problema é que ele não ficou satisfeito em controlar apenas a França…

Mas sobre Napoleão Bonaparte nós falaremos em uma outra série de textos que tratarão apenas de seus anos no poder. Aguardem.

E no próximo texto, falaremos das Influências e do legado da Revolução Francesa.

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4 comentários sobre “A Revolução Francesa (2ª parte)”

  1. Isadora disse:

    Muito bom, mas eu acho que falta algumas informações sobre os jacobinos, girondinos e os sans-cullotes.

    • Vinicius Cabral disse:

      É, Isadora, eu também acho que ficou faltando MUITA informação… mas como falar disso tudo sem escrever um texto longo demais?

  2. Vera disse:

    EU NÃO GOSTEI, ACHO QUE É MUITO CONFUSO !
    ENTENDAO ISSO É OS ALUNOS QUE VAO LER NÃO OS ADULTOS DÃÃÃ!

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