A Revolução Francesa (1ª parte)

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Antes de começar o texto, algumas observações são necessárias:
1) Estes textos serão divididos em três partes, pois o assunto é muito extenso. Aliás, é muito difícil falar de Revolução Francesa sem se alongar;
2) Não use estes três textos como fonte definitiva de trabalhos escolares. Este é apenas um texto informativo e (muito) resumido;
3) Algumas das fontes utilizadas na pesquisa estarão creditadas na terceira parte. Utilize-as nos trabalhos, caso tenha os livros citados. Se você não tiver em casa qualquer um dos livros, não se desespere: existem muitos estudos e livros publicados sobre a Revolução Francesa, uma ida rápida à biblioteca mais próxima resolverá seu problema.

1ª parte: A França pré-Revolução.

A estrutura feudal ainda reinava em alguns campos franceses sob a coroa de Luis XVI. O poder absoluto garantia ao rei privilégios que só eram estendidos à corte e aos membros do clero. O povo, incluindo aí os burgueses, vivia apenas para trabalhar e pagar impostos. Mas a culpa não era toda de Luis XVI. Ele herdou o Antigo Regime de reis anteriores, que nunca se preocuparam muito com seus súditos.

A França era um Estado pobre – que não dava à população melhorias significativas – dentro de um país rico. Mas esta riqueza estava concentrada nas mãos de pouquíssimas pessoas. Antes de continuar, deem uma olhada nos dois gráficos abaixo, que mostram como estava dividida a população francesa na época de Revolução:

Neste cenário o Primeiro Estado (o clero) e o Segundo Estado (a nobreza) eram literalmente bancados pelo Terceiro Estado (o restante da população, inclusive os burgueses). Os sans-cullotes, os trabalhadores comuns, os artesãos, os operários e os camponeses viviam situação crítica.

Muitos famintos, sequer tinham emprego ou não ganhavam o suficiente para o próprio sustento. Para piorar ainda mais as coisas, na época as plantações sofreram com uma onda de frio intenso e a escassez de alimentos agravou a fome e a miséria.

O Terceiro Estado - o povo - sendo pisado pelo Primeiro e Segundo Estados - o clero e a nobreza...

Migrações em massa do campo para a cidade ocorreram nas décadas anteriores à Revolução, inchando cada vez mais as cidades que, sem ter vagas suficientes para acomodar todos que precisavam trabalhar para conseguir seu sustento, acabavam com milhares de pessoas vagando pelas ruas.

Os burgueses pouco podiam fazer. Estavam atrelados às regras comerciais e fiscais francesas e justificavam o salário miserável que pagavam aos trabalhadores com o pesado pagamento de impostos ao rei. Junte-se a isto a insatisfação de grande parte da população com as guerras que a França tomou parte naqueles tempos – a Guerra dos Sete Anos e a Guerra da Independência dos E.U.A., por exemplo – e temos aí uma situação que podia explodir em uma revolta popular a qualquer instante.

Os negócios externos franceses não iam mal, mas algumas atitudes de Luis XVI complicaram as coisas. O Tratado Eden-Rayneval, assinado em 1786 com a Inglaterra, permitia a entrada de vinho mais barato no mercado inglês, mas fazia o mesmo com tecidos ingleses na França. Nesta época a França já produzia vinho de qualidade mas o produto não era o principal item comercial do país. A entrada dos tecidos ingleses prejudicou muito o comércio interno dos produtores de tecido francês. Sem ter muitas colônias para escoar seu produto – lembrem-se, nesta época quem mandava no comércio mundial era a Inglaterra – muitos burgueses ficaram indignados com este tratado.

A desordem administrativa ajudava a piorar a situação. Luis XVI dava posse a um novo ministro para tentar solucionar o descontentamento dos populares mas barrava projetos reformistas deste ministro. Demitia o ministro e dava posse a um novo, que por sua vez também tinha seu projeto reformista barrado. Um destes ministros, o Loménie de Brienne, chegou a propor que os nobres e o clero também pagassem impostos. Quase apanhou dos aristocratas durante uma sessão da Assembleia dos Notáveis.

Foi um outro ministro, Jacques Necker que, pressionado pela crise, solicitou a Luis XVI a convocação dos Estados Gerais, reunião que não acontecia desde 1614. O rei acatou a ideia e convocou a reunião para ter início dia 5 de maio de 1789.

Os Estados Gerais:

Guardadas as devidas proporções, a Assembleia dos Estados Gerais funcionava como uma assembleia constituinte. Só que no caso francês a votação já começava meio desproporcional. É que cada Estado tinha direito a UM voto na câmara. Assim, toda solução que fosse benéfica ao Terceiro Estado e contrária aos interesses do Primeiro e do Segundo Estados eram derrubadas, pois a votação sempre terminava 2 a 1 pró nobreza e clero.

Uma frase que ficou famosa e que retrata bem o interesse dos burgueses do Terceiro Estado em fazer parte das decisões políticas francesas é atribuída ao bispo Emmanuel Sieyès:

O que é o Terceiro Estado? Tudo. O que é que tem sido até agora na ordem política? Nada. O que é que pede? Tornar-se alguma coisa.

Abertura da Assembléia dos Estados Gerais

O Terceiro Estado exigiu a participação de um número de deputados compatível com sua representação popular, espalhando panfletos e motivando o povo a protestar a favor desta mudança. Acatada a solicitação do Terceiro Estado, a reunião começou com o seguinte quadro de parlamentares: o Primeiro Estado tinha 291 representantes, o Segundo Estado 270 e o Terceiro Estado 578. Fazendo uma conta simples, chegamos à seguinte conclusão:

270 (Segundo estado) + 291 (Primeiro Estado) = 561, número menor que o de parlamentares do Terceiro Estado. Mas mesmo assim não havia maioria, caso todos votassem a favor de seus Estados. Os representantes do Terceiro Estado então solicitaram que fossem abertas votações individuais, e o restante dos parlamentares acataram a decisão. Provavelmente pensavam que dobrariam o Terceiro Estado em sucessivas votações até conseguir a maioria e manter a situação atual.

Só que eles não contavam com o apoio de cerca de 290 representantes de suas fileiras que estavam dispostos a ajudar o Terceiro Estado. Estes representantes eram membros do baixo clero e da nobreza de toga – aquelas pessoas que compravam o título de nobreza, não confundir com os nobres “de sangue”.

Luis XVI abriu a Assembleia com um discurso onde lembrava que aquela reunião foi convocada não para limitar o poder real, mas sim para reajustar o sistema tributário francês. Só que muitos parlamentares queriam o fim dos poderes absolutos do rei, e não aceitavam outra solução. Os representantes do Terceiro Estado começaram a apresentar as reclamações do povo – os “Cahiers de Doléances” – e os debates cresceram em intensidade com o passar dos dias.

Ao saber do apoio de parte dos nobres e do clero ao “povo”, Luis XVI tentou, em vão, dissolver os Estados Gerais, proibindo a entrada dos parlamentares no salão onde acontecia a reunião. Os representantes do Terceiro Estado, indignados com a decisão do rei, invadiram a sala do jogo de péla que existe no Palácio de Versalhes em 15 de junho e se auto-proclamaram em Assembleia Nacional Constituinte, prometendo sair da sala apenas quando fosse votada uma nova constituição para a França.

“Le Serment du Jeu de paume”, quadro de Jacques-Louis David retratando o juramento da sala do jogo de péla.

Perante esta decisão dos parlamentares, Luis XVI resolveu tomar medidas mais drásticas: demitiu Necker e tentou impedir a realização da Assembleia Constituinte. Foi em vão, pois uma revolta popular nas ruas de Paris espalhou-se por muitas outras cidades francesas e nas regiões rurais.

Alguns nobres e membros da Igreja foram atacados, inaugurando uma época que ficou conhecida como “grande medo”. Mas destas manifestações, da queda da Bastilha e das disputas políticas que aconteceram depois da Assembleia Constituinte nós trataremos no próximo texto: Bastilha, Terror, Diretório, Jacobinos e Girondinos“.

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8 comentários para “A Revolução Francesa (1ª parte)

  1. Teu texto deixa transparecer que conjunturas socio-economicas e algumas coincidencias politicas levaram a revolução francesa.
    Onde entra ai então o pensamento libertario pós independencia america, o iluminismo e outras bobagens de que eu sempre ouvi falar?

  2. CALMA, Zé, a série de textos ainda não acabou.

    Sobre ideologias eu vou tratar apenas no último texto, ok?

  3. olá, pode colocar um gráfico que mostre como era a participação de cada estado na assembleia dos estados gerais?

    • Gabriela, não tenho aqui o número exato de pessoas que faziam parte da Assembléia, mas independente disto, cada “Estado” tinha UM voto. Os representantes entravam em acordo e o voto era da maioria em cada “Estado”. Sendo assim, o primeiro e segundo “Estados” sempre venciam o terceiro, que era a maioria da POPULAÇÃO (não confundir com as cadeiras da Assembléia, ok?).

  4. Olá Vinicius, gostaria de saber as referências bibliográficas desse texto, principalmente sobre o gráfico “população francesa nas décadas de 1780_1790″
    Obrigada

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