Os manteñas

No continente americano muitos povos cresceram à sombra das três grandes civilizações pré-colombianas – os Incas, os Maias e os Astecas. E esta civilização que nós vamos falar neste texto floresceu bem próxima aos incas.

Os Manteñas iniciaram um relativo desenvolvimento por volta do ano 500 a.C. próximo à baía de Caráquez, mais ao norte do litoral equatoriano, até a região de El Oro, mais ao sul. Quando o povo começou a fundar as primeiras vilas eles já dominavam a técnica artesanal, pois os arqueólogos encontraram cerâmicas que foram datadas desta época.

Mas a característica mais curiosa dos manteñas é que eles tinham uma estreita relação com o mar, fato que fez os primeiros espanhóis que chegaram ao litoral do Equador comandados pelo navegador Bartolomeu Ruiz em 1526 apelidarem os manteñas de “Fenícios da América”, devido às embarcações que o povo usava.

Você pode estar pensando: “É óbvio que eles tinham estreita relação com o mar, afinal de contas viviam no litoral ou bem próximo dele.”, mas os manteñas alcançaram um nível de conhecimento e de técnicas de navegação que superava qualquer povo pré-colombiano.

“Índios” ao mar! E tudo por causa de uma concha:

Segundo achados arqueológicos e relatos dos primeiros espanhóis que chegaram à região, os manteñas mantinham uma extensa rota comercial que cobria as costas colombiana, equatoriana, peruana e chilena, além do litoral da América Central, chegando até o México. Conseguiam navegar centenas de quilômetros sem precisar voltar ao litoral e seus barcos suportavam um considerável peso, o que permitia carregar muitos mantimentos e produtos. Estima-se que os manteñas mantinham relações comerciais diretas com todos os povos pré-colombianos da região.

O segredo para o barco não afundar mesmo levando um grande peso era construí-lo usando a madeira da árvore ochroma lagopus – que na região amazônica é justamente conhecida como “pau de balsa” -, já que sua madeira expande ao contato com a água e dificilmente afunda.


Reprodução de um barco – ou balsa? – manteña.

Mas o fator fundamental que ligava os manteñas com o mar foi a adoração pela concha spondylus, que era considerada sagrada pelo povo, pois seu interior era relacionado com o órgão sexual feminino. Havia a profissão de “catador de conchas”, e estima-se que esta atividade – que exigia o mergulho em alto-mar e em profundidades de até 30 metros – é que levou os manteñas a desenvolver a habilidade de navegação.

E a concha spondylus também era adorada por outros povos pré-colombianos, o que leva a crer que o trabalho de extração da concha era bem rentável para o povo.

Organização social dos manteñas:

Suas cidades e vilas chegaram a reunir entre 500 e 1000 moradores. No topo da pirâmide social estavam os sacerdotes e os donos de barcos. Logo abaixo vinham os artesãos, os caçadores e agricultores. A base era formada pelos catadores de conchas. Este ofício era muito perigoso e não era raro quando o mergulhador morria ao tentar pegar uma concha no fundo do mar.

Além das atividades ligadas à navegação, os manteñas plantavam milho, batata, mandioca, abacate, cacau e tomate, além de já domesticarem lhamas e patos. Também tinham uma produção de cerâmica bem avançada. Vasos e outros utensílios com características manteña foram encontrados até entre ruínas e cerâmicas incas, o que leva a crer que os dois povos tinham realmente uma estreita relação comercial.


Cerâmica manteña, em exposição no museu de Cuenca. [fonte]

Esta relação comercial entre os dois povos é um outro fator interessante. Os pesquisadores descobriram que os incas costumavam utilizar de elementos da sua própria cultura para subjugar outros povos – um dia falaremos das múmias incas entre os chachapoyas [clique aqui para ler sobre isso] – mas com os manteñas os incas aparentemente preferiram manter uma relação mais amigável. Seria também pela necessidade que os incas tinham em conseguir as conchas?

Descobrindo o passado. O El Niño ajudou os arqueólogos:

Os espanhóis trabalharam para desarticular as rotas comerciais dos manteñas a partir de 1536, por isso o povo – que existe até hoje e ainda vive na região – deixou o comércio marítimo com o passar do tempo, voltando-se para atividades em terra firme. Parte do passado material do povo estava esquecido por conta de uma erupção vulcânica que ocorreu no século VII e que havia depositado detritos – e soterrado – um grande porto manteña na região da baía de Caráquez.

Entre os anos de 1997 e 1998 o El Niño provocou na região muitas chuvas torrenciais e acabou por revelar um grande sítio arqueológico onde foram encontrados cerâmicas, fornos, reservatórios de água e vestígios dos antigos barcos utilizados pelos manteñas. E como não podia deixar de ser, ainda mais tratando-se de um povo comerciante, também foram achados objetos com características de outros povos que viviam bem longe da região.

[Esta observação é importante na medida em que a região da baía de Caráquez abrigou outras culturas, como os Chorrera e os Machalilla, anteriores aos manteña e que também viveram na região.]

Todo ano os descendentes dos nativos organizam uma grande festa onde navegam com réplicas dos barcos utilizados pelos antepassados. Abaixo, mais algumas imagens.

Fragmentos de conchas spondylus e cerâmicas manteñas. [fonte]

Escultura manteña exposta no museu de Cuenca.

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2 comentários sobre “Os manteñas”

  1. End Fernandes disse:

    Fatástico mano,

    eu sabia que outros povos viviam por aqui

    mas, não tinha idéia do quão eram desevolvidos

    Abrç

    =]

  2. História Zine disse:

    Rapaz, você bateu o recorde! É o comentário mais rápido após uma publicação! hahaha

    Bom, quanto aos povos pré-colombianos, existiram DIVERSAS outras culturas, não tão vastas (e grandiosas) quanto as três maiores citadas no início do texto, mas igualmente fascinantes. Aqui eu espero publicar, com o tempo, textos sobre estas várias culturas.

    Valeu pela visita!

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