Durante o Período Regencial e os primeiros anos após a coroação do imperador D. Pedro II o Brasil passou por diversas revoltas que abalaram a unidade do país. Esta foi uma época conturbada no mundo inteiro, e aqui no Brasil não foi diferente.
A Sabinada foi um movimento contrário à Regência ocorrido entre 1837 e 1838 na Bahia, que já havia sido palco da Conjuração Baiana em 1798, da Federação dos Guanais em 1832 e da Revolta dos Malês em 1835. Falaremos destes movimentos em textos futuros, mas citei-os apenas para você, leitor, ter uma noção de que a província da Bahia – assim como outras províncias brasileiras – já tinha um histórico de revoltas e lutas.
O médico e jornalista Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira foi o principal mentor da revolta, que não desejava a independência da província da Bahia, mas sim a instalação de uma república independente do Império Brasileiro até o fim da Regência.
Causas da Sabinada:
Havia um certo descontentamento – não só dos baianos mas de grande parte das províncias – com a excessiva centralização da Regência. Na Bahia esta situação ficava pior pois as autoridades nomeadas para governar a província – representadas pelo governador Francisco de Souza Paraíso – agiam, segundo os revoltosos, de uma forma despótica e repressora.
Em 1937 começaram as discussões para a implantação do Ato Adicional, que mudaria muitas coisas na Constituição promulgada por D. Pedro I, assim como mudou a Regência Trina para Regência Una, instituindo o mandato de quatro anos para o regente. Como as discussões do Ato Adicional duraram até 1840, na época abriu-se uma brecha, um vácuo de indecisão política no Império que impulsionou atitudes como a de Francisco Sabino.
Outro fato que deixou muitos descontentes foi o alistamento militar imposto pela Regência para combater a Revolução Farroupilha no sul do país. Aliás, é por causa – em parte – da Revolução Farroupilha que a Sabinada teve início.
O início da Sabinada: a fuga de Bento Gonçalves e… espera aí! Bento Gonçalves???

Forte São Marcelo, também conhecido como “Forte do Mar”, onde estava preso Bento Gonçalves, líder dos Farroupilhas.
A fuga de Bento Gonçalves, tramada pelos revoltosos baianos, foi um dos estopins da revolta. Francisco Sabino teve contato com os ideais farroupilhas, conheceu e iniciou uma amizade com Bento Gonçalves quando ficou preso no Rio Grande do Sul entre 1834 e 1837. Sabino, auxiliado por parte dos militares de Salvador conseguiu expulsar o governo provincial em 7 de novembro de 1837 e proclamou a República Bahiense. Segundo os revoltosos,
“A Bahia fica desde já separada, e independente da Corte do Rio de Janeiro, e do Govemo Central, a quem desde já desconhece, e protesta não obedecer nem a outra qualquer Autoridade ou ordens dali emanadas, enquanto durar somente, a menoridade do sr. dom Pedro II.” [1]
[Ao lado, a bandeira da República Bahiense]
Talvez o maior erro dos revoltosos foi não ter envolvido mais a população no movimento. Na época os intelectuais e membros mais abastados da sociedade de Salvador – os mentores ao lado de Sabino, como o político João Carneiro da Silva Rego, o advogado Inocêncio da Rocha Galvão e os militares Luiz Antônio Barbosa de Almeida e José Duarte da Silva – discutiram a possibilidade de manter o apoio popular à margem da revolta.
Antes da tomada do poder alguns intelectuais até incitavam a população através de textos em panfletos e jornais a ficar do lado de uma possível revolta, mas na hora H o apoio à Sabinada não foi tão grande.
Os republicanos até tentaram, sem sucesso, obter apoio junto aos fazendeiros do Recôncavo. Mas nem os fazendeiros, tãopouco os escravos – estes certamente escaldados após a repressão imperial que desarticulou a Revolta dos Malês em 1835 – ficaram do lado da recém-fundada República.
Logo a cidade de Salvador estaria sitiada por tropas imperiais sufocando a revolta.
A resposta do Império:
Ao tomar conhecimento da revolta o regente Diogo Feijó começou a reunir e organizar as tropas para acabar com a revolta em Salvador. Na Bahia o regente já podia contar com parte das tropas que não ficaram ao lado dos republicanos e que receberam apoio dos fazendeiros do interior da província.
O tempo que durou a Sabinada foi exatamente o tempo que as tropas imperiais demoraram para organizar a ação militar. Uma ofensiva conjunta por terra e mar teve início dia 13 de março de 1838 e durou até o dia 15 do mesmo mês. E foi uma ofensiva violenta, liderada pelo comandante Crisóstomo Calado, com várias casas queimadas, cerca de mil mortos e trezentos feridos, muitos deles pessoas que nem tinham muita vontade inicialmente de lutar ao lado dos republicanos mas, sem opção frente ao cerco do exército imperial, tiveram que lutar.
Três líderes foram condenados à morte e outros tantos condenados à prisão perpétua, mas todas as penas foram convertidas em degredo em regiões mais isoladas do Brasil. Francisco Sabino foi condenado ao exílio na então longínqua província do Mato Grosso. Outros líderes e participantes da revolta, como como Daniel Gomes de Freitas, Francisco José da Rocha, João Rios Ferreira e Manoel Gomes Pereira conseguiram fugir da prisão e foram ajudar os farroupilhas no Sul.
Conclusão:
A Sabinada como uma proposta ideológica e uma solução administrativa até que poderia funcionar bem – dentro do objetivo de devolver o controle da província ao Império após a coroação de D. Pedro II -, mas o Império não poderia deixar a província tomar seus próprios rumos naquele momento político tumultuado por discussões na corte e outras revoltas acontecendo simultaneamente em outras províncias. A experiência poderia dar certo, e quem garantiria a volta da província com toda a população ao lado do governo republicano?
Por isto os donos de terras do interior – latifundiários, escravistas e monarquistas – não ficaram do lado da revolta. E sem o apoio popular já comentado acima, ficou bem difícil manter a República Bahiense. A Sabinada ficou como exemplo de que não valia muito a pena, na época, lutar pela autonomia das províncias e a implantação das repúblicas, ou até mesmo transformar o Brasil em vários estados federados, porém independentes – mesmo que na mesma época a Revolução Farroupilha no sul e a Cabanagem no Pará estavam a pleno vapor.
Referências:
[1] CHIAVENATO, Júlio. “As lutas do povo brasileiro”. Ed. Moderna. Retirado deste site.









EU GOSTEI MUITO DO ASSUNTO CITADO EM TODOS OS DOCUMENTOS.