Resenha: o "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil"

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Falar aqui no HistóriaZine sobre um livro que não foi escrito por um historiador pode soar estranho, mas não dá para não falar de um livro que desde seu lançamento causou uma certa polêmica por apresentar fatos que por muitas vezes desmentem a História dita “oficial” do Brasil.

Na verdade o autor, o jornalista Leandro Narloch, não escreveu nada muito diferente do que qualquer aluno que cursou nos últimos anos – ou está cursando – uma boa cadeira de História não tenha ouvido ou até mesmo discutido em sala de aula com os colegas e professores.

A intenção de Narloch foi reunir diversas pesquisas revisionistas e apresenta-las em um texto de fácil leitura e que realmente te prende pelas páginas. Estes trabalhos revisionistas começaram a pipocar nos meios acadêmicos em meados da década de 1990, e nada mais são do que pesquisas mais aprofundadas sobre os mais variados temas, desde o relacionamento dos nativos com os europeus lá no século XVI até as discussões sobre o que era samba e o que era jazz ou marcha no início do século XX… e, é óbvio, dentro desta discussão tentar descobrir quem realmente inventou o samba.

E todos os contras da História “oficial” apresentados no livro vem acompanhados de alguma pesquisa feita por algum historiador. Não há invenção por parte do Narloch, ele apenas organizou e expos os fatos.

Mas por que as polêmicas? O livro acaba jogando luzes sobre fatos um tanto quanto obscuros ou que receberam tratamento acadêmico tão padronizado nas escolas Brasil afora que até hoje em dia são tratados como verdades inquestionáveis.

Óbvio que ao ler que muitos dos nativos brasileiros preferiam viver o mais próximo possível dos portugueses ao invés de se esconderem na mata, ou que Machado de Assis era um crítico ferrenho e um censor excessivamente chato ou que José de Alencar teria escrito uma carta ao Imperador sendo contrário ao fim da escravidão ou então que Santos Dumont realmente não inventou o avião choca quem está acostumado a ouvir a História “oficial”, mas você não deve ficar preocupado ao ler o livro. Por que?

Porque a História não tem apenas UMA face, UMA verdade, UMA versão dos fatos. Sempre quem escreve a História “oficial” é o vencedor. Ao perdedor, muitas das vezes, resta apenas a figuração. Historiadores do passado não se preocupavam em dizer – ou não queriam expor o fato – que Zumbi tinha escravos em Palmares ou que os próprios africanos capturavam negros de outras tribos e vendiam para o homem branco. Ou você acha que os portugueses entravam nas savanas e matas africanas atrás de escravos?

O livro tem alguns excessos, claro, como por exemplo a comparação com o fato de Getúlio Vargas ter sido chamado de timoneiro em um samba da década de 1930 e o mesmo termo “timoneiro” ter sido usado pela propaganda chinesa para ajudar a legitimar a liderança de Mao-Tsé Tung após a Revolução de 1949. Achei desnecessário, mas dou um desconto porque o Narloch, como eu disse, não é historiador. Não cabe a ele manter a imparcialidade de seu texto.

Apesar destes pequenos deslizes o livro é muito bom. Vale a leitura a título de curiosidade e cabe a você, leitor, julgar os fatos expostos e até mesmo procurar ler as pesquisas indicadas pelo autor. Conhecer o maior número possível de versões e fontes sobre um mesmo fato é sem dúvida a melhor forma de chegar bem perto da verdade…

… se é que a “verdade” realmente existe…

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15 comentários para “Resenha: o "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil"

  1. Meu tio comprou esse livro e eu dei uma folheada nele, parece mesmo muito bom. Eu confesso que gosto de livros de História escrito por não historiadores (nada contra você, gato, te acho ótimo, hahha) mas é porque eles conseguem fazer o que você faz aqui e nem todos os historiadores conseguem: ESCREVER PRA UM LEIGO. E isso não é defeito de historiador, é de todo profissional. Usando o exemplo mais próximo de mim, pega um livro de um físico pra leigos (exemplo clássico é Uma Breve História do Tempo, do Hawking) pra ver que não dá pra entender nada. Claro que tem os que conseguem realmente ser pra leigos, mas nem todo profissional consegue acertar a mão. E pro cara que pesquisa o assunto sem ser profissional pode pecar pela falta de acuidade mas tem o lado bom da didática e facilidade de leitura.
    Beijão, tou adorando acompanhar seu sucesso!

  2. Eu confesso que não sou nem um pouco fã dessa corrente de pseudo-historiadores revisionistas como o próprio narloch, laurentino gomes e eduardo bueno. Não sei até que ponto este tipo de história comercial é bom para a disciplina, ou apenas é parte de um modismo passageiro. História com tom de curiosidades, de almanaque pode ser até legal, mas sem um fundo de reflexão crítica como base, fica uma coisa inútil.

    Grande abraço.

  3. Almir, eu também não sou lá muito "fã" desta turma, mas enquanto historiador meu trabalho é ler, e julgar o trabalho APÓS a leitura, nunca antes dela.

    Jornalistas escrevem bem, tem um texto fácil de assimilar e estão mais propensos a receber a atenção de uma parcela maior do público que muitas vezes não compreende um texto mais elaborado (como acontecem com os trabalhos acadêmicos). No caso do Narloch ele tem uma parcela de mérito na medida em que ele escreveu seu livro em cima de pesquisas, mesmo que APENAS pesquisas revisionistas.

    Fiz a resenha mais como indicação de leitura interessante, e aí quem ler o livro e se interessar em uma pesquisa mais profunda, que procure os trabalhos indicados pelo autor, leia e tire suas próprias conclusões.

    Obrigado pela visita!

  4. Dica interessante. Assisti, um tanto ao acaso, na Globo News o programa “Literatura” que, em raras oportunidades apresenta algo digno de atenção. Estava lá o Leandro falando do livro que escreveu sozinho e de um outro que escreveu em parceria com um cidadão cujo nome não me ficou na memória.
    Vou procurar este livro, gostei muito da dica. O fato de estar “na lista dos mais vendidos”, lado a lado com aqueles de auto-ajuda (ao escritor, claro) e outros de baixíssimo nível intelectual e moral me deixaram com o pé bem atrás.
    Vendo o cara falar na TV, percebo ser mais um pensador de direita, como há tantos no Brasil, país em que, por idiossincrasias diversas, “ser de direita” tornou-se antipático. Há grandes escritores que se orgulham de ser “de direita” na França, nos EUA, na Alemanha e mesmo na Rússia. No Brasil parece que ligamos “direita” a “ditadura militar” e o cidadão prefere se dizer “sem ideologia” do que assumir o tipo de verdade que ele defende e o Amigo está de parabéns, não apenas pela resenha, que me tornou mais curioso quanto ao livro do Leandro, mas pelos grandes esclarecimentos que presta e, em particular aqui, aos diversos aspectos dos fatos, segundo a análise de quem escreve. Ler textos de orientações diferentes é fundamental, mas, a uma primeira aproximação, mais do que concordando com o Amigo, ressalto que o Leandro segue uma linha ideológica parecida com a do Oliveira Vianna (posso estar equivocado) e chama de “nova” a história que eu e você aprendemos nos bancos escolares em meados do século passado e se chamava, ela sim, “história oficial”. O que o Leandro chama de “história oficial” parece ser a leitura que os estudantes de hoje fazem do que aprendemos a chamar de “história crítica”, que floresceu na década de 90. Leandro, pelo que deduzo a um primeiro olhar, volta à “História Oficial” consagrada na República Velha e a chama de “Nova História”.
    Só lendo o livro poderei – e seguramente irei – voltar com segurança ao tema. Mas, a princípio, preferia utilizar meu tempo com coisas mais construtivas ou relevantes. Por exemplo, o fato concreto de que os fatores econômicos têm uma importância enorme na história é olimpicamente desprezado pelo referido autor (ou seja, ele concorda com isso tudo que aí está, acriticamente) e só isso já me deixa preocupado.
    Ele dizer que o ambiente nas universidades está hoje “mais livre de ideologias” me assusta mais ainda, pois, a ser verdade o que ele diz, significa que os vencedores de hoje lograram relegar ao gueto o que várias gerações de estudiosos tiveram o cuidado de retificar ao longo de décadas muito difíceis, fazendo com que voltemos à velha história à la Oliveira Vianna, hoje rebatizada com o nome de “Nova História”. Não só na economia, também na educação e na cultura, tudo isso aponta na direção de uma séria crise.
    Acrescento o parecer de que o Leandro em momento algum consultou qualquer fonte primária (jornais de época, entrevistas com descendentes dos detratados em seu livro, etc.) Causa celeuma em São José do Rio Pardo, por exemplo, onde há mais de um século se mantém a Semana Euclidiana (9 a 15 de agosto – http://www.superdownloads.com.br/download/17/historia-semana-euclidiana-sao-jose-rio-pardo/) a declaração de que Euclides da Cunha foi um infanticida cruel que deixou seu filho bastardo morrer de fome (e o bebê teria levado 7 dias para morrer de inanição) citando miseramente a Judite da Cunha, filha de Dilermando de Assis com Anna de Assis. Não procurou saber se houve algum inquérito policial a respeito, não há registro de nascimento ou óbito, em que sepultura se encontra…. Por outro lado, em numerosas cartas escritas por Euclides a Francisco Escobar, há diversas referências ao filho que criou como seu e que se referia com sua “espiga de milho no cafezal”, uma vez que tanto ele quanto Anna eram morenos e o menino era loirinho como o Dilermando. Quem era a criança morta, então? O Leandro nem se preocupou em verificar microfilmes de jornais de época relativos ao fato – e seguramente não leu as Cartas de Euclides da Cunha publicadas pela Eunice Galvão.
    Enfim, obrigado mais uma vez pela dica, PARABÉNS pelo espaço magnífico que manténs e, por favor, mantenhamos contato!
    Um cordial abraço,
    Lázaro

    1. Lázaro, obrigado pelo comentário. Concordo com tudo que você escreveu… mas não pude deixar de fazer a resenha, pois achei que o livro é bom para a pluralidade histórica de debates. Leia, é interessante!

      1. Li o livro que recomendaste, Vinicius. O a. queria causar raiva – ou celeuma, ou o que quer que “venda livros” – mas em mim causa muita compaixão. A que nível baixou a educação em nosso país…

        Se estiveres interessado, lá está:

        http://www.culturabrasil.org/historiaerradadobrasil.htm

        O Shvoong tme um sistema remunerado (devagar… uns U$ 10 por ano…) que nos permite divulgar mais nossas resenhas de livros, filmes, revistas, ensaios…

        Confira o resumo do resumo (no máximo 900 palavras) em
        http://pt.shvoong.com/humanities/history/2279816-guia-politicamente-incorreto-da-hist%C3%B3ria/

        Um forte abraço,

        Lázaro

  5. O livro acerta em muitos fatos, por sinal, já conhecidos de quem conhece um pouco da história do Brasil. O problema são as conclusões colhidas pelo autor. Antes de mais nada a obra é essencialmente contraditória, na medida que se propõe avessa à ideologias, ao mesmo tempo em que prega conceitos ideológicos fascista, racista e imperialista. De cara o livro nos deixa a clara a impressão de que o grande culpado pela dizimação da população indígena nas Américas foi o próprio índio, além de que o responsável pela escravidão no Brasil seriam os negros. Isso é ridículo e falacioso. E o que dizer da tese ali exposta de que, se os europeus não tivessem descoberto estas terras, os próprios índios se dizimariam. É demais. Afora tudo isso, vem à tona a velha e abominável concepção preconceituosa anti-nortista de que os estados brasileiros deficitários deveriam ser entregues ou vendidos ao estrangeiro, e cita como exemplo o Acre, Rondônia, Roraima e Alagoas. Por essas e outras, ainda assim, recomenda-se a leitura do livro, para termos a grata noção de como uma boa idéia, na cabeça de um troglodita, pode resultar uma pérola de chatice, rabugice e mau gosto.

    1. Perfeita análise, Maurício… Concordo plenamente. Somo a isso a questão “discutida” no último capítulo, Comunistas, que foi mal escrito e que abusa de opiniões preconceituosas a respeito do sofrimento daqueles que passaram pela Ditadura. Ao que parece o Narloch concorda com a existência de uma suposta “Ditabranda”… Acredito que o livro pode ser sim indicado, afinal de contas, é possível ver o que não se deve fazer quando pensar em escrever um livro, como quem escreve uma enciclopédia de bobagens.

  6. Sou Profº de História (Historiador também, pq não?) e considero a leitura da obra interessante. É um livro de curiosidades e como tal deve ser lido como um passatempo ! O que me preocupa é a leitura do material por leigos… Existindo discernimento do leitor e um espirito de desconfiança apurado não vejo problemas na divulgação de obras com esse viés. Meu sonho é que a história seja uma disciplina popular e realmente encontre seu papel na sociedade. Desejo que a minha disciplina saia das torres de marfim das universidades.

    1. Exatamente, Thiago! O “cuidado” ao ler um livro como este tem que ser exatamente como você falou.

      Obrigado pela visita! :)

  7. Bom eu achei o livro interessante pois ele traz uma visão diferente do que conhecemos . Alem disso não posso deixar de notar que alguns amigos meus leram o livro e mudarão totalmente sua visão critica do mundo mas acho que o objetivo do livro não e esse acho que o objetivo desse livro e de dar uma versão diferente de todo o que você estudou ate hoje acho que ele não quer impor sobre você os ideais dele quer apenas te dar uma visão diferente da historia !

    abração pra vcs !

  8. “versão diferente de todo o que você estudou ate hoje acho que ele não quer impor sobre você os ideais dele quer apenas te dar uma visão diferente da historia !

    abração pra vcs !”

    Acho que a vossa pessoa não sabe como funciona uma faculdade de história. Lá nós não aprendemos apenas uma visão de história. Nós estudamos historiografia, ou seja, as diversas leituras a respeito de um momento histórico.

  9. Reitero que, em minha modestíssima opinião (incidentalmente, sou Doutor em Ciência Política pela UFF-RJ) o que o Leandro chama em seu livro de “História Oficial” é a uma profunda revisão – com base em fatos e dados oriundos de fontes primárias, cuidado que o autor não teve ao remeter-se miseramente a fontes secundárias e terciárias – da História Tradicional que ele reapresenta com o recapeamento de “nova versão”. Ora… Esta “nova versão” é precisamente a antiga, a tradicional, ensinada nas escolas e universidades nas décadas de 20 e 30 do século passado…
    Um livro ruim, mau escrito, com vários erros (de português inclusive, mas principalmente historiográficos, antropológicos, sociológicos e políticos) que somente “faz barulho” porque a nova geração NADA conhece do Oliveira Vianna e outros autores de direita (como o Leandro) que foram ultrapassados pelas evidências e dados históricos oriundos de documentos originais liberados principalmente pelo governo estadunidense mas também da Inglaterra e da Argentina.
    É um livro parcial, cuja parcialidade patente em sua frase final, “viva o capitalismo brasileiro” desmente sua pretensa “neutralidade” e propalada “ausência de ideologia”.
    Recomendo consultar obras mais autênticas (de direita ou de esquerda) que deixem clara a sua posição e não se escondam atrás do amadorismo e da pretensa desideologização.
    Estudar versões diferentes – a partir de Obras consagradas e dignas de nota – sim! Consultar livros ruins e parciais como este, NÃO!

    Mais detalhes em http://www.culturabrasil.org/historiaerradadobrasil.htm

    1. Professor, eu concordo que, apesar do autor usar pesquisas históricas, ele realmente pende para uma visão meio “distorcida” dos fatos, citando apenas o que lhe convém ao discurso. Mas acho válido para aguçar a curiosidade dos leitores menos afeitos aos livros sérios de História. Serve como uma “porta de entrada”, mas nunca deve ser usado como fonte de pesquisa!

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