A violência que mora ao lado

Nos últimos dias a população do Rio de Janeiro tem passado por momentos de medo e tensão. Facções de traficantes cariocas tem espalhado o terror pela capital e partes da Baixada Fluminense queimando carros, ônibus e vans. Os ataques dos traficantes, aparentemente, seriam a forma de protestar contra a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora – as UPPs – em mais algumas favelas do Rio.

Espalhando o caos e o medo, tentaram fazer com que a população ficasse mais uma vez do lado deles e contrária à instalação das UPPs nas comunidades. Só que desta vez parece que o feitiço virou contra o feiticeiro. A população não aguenta mais tanta violência e, segundo relatos de alguns repórteres, os moradores da Vila Cruzeiro teriam recebido bem a ocupação da Polícia Militar. Parte do efetivo do exército que está na capital a pedido do governador recebeu aplausos da população quando chegou no complexo do Alemão nesta sexta (26/11) à tarde.

É bom lembrar que nos confrontos anteriores o grosso da população apenas criticava, pois não queria o enfrentamento entre bandidos e policiais, pois sempre sobra uma bala perdida para matar algum inocente. Agora parece que a história está mudando.

Mas como o Rio chegou a este ponto, com o crime entranhado na sociedade de tal forma que o trabalho policial de combate ao tráfico de drogas ficou tão prejudicado? Vamos tentar entender um pouco este processo, já que entender o todo é quase impossível.

Como “nasceu” a favela?
E como a criminalidade carioca foi parar lá?

Até o início do século XX não existiam favelas no Rio. As pessoas mais humildes viviam em cortiços espalhados pelo centro da cidade. O maior deles, conhecido como “Cabeça de Porco”, reunia centenas de pessoas vivendo em condições nada favoráveis de conforto e higiene.

No grande plano de urbanização proposto durante o governo do prefeito Pereira Passos – que governou entre 1902 e 1906 – a cidade do Rio passou por mudanças significativas. No centro, o plano previa o fim dos cortiços, já que estava em jogo a melhoria das condições sanitárias desta área da cidade. E com a demolição dos cortiços, grande parte dos moradores do “Cabeça de Porco” e de outros cortiços menores acabaram indo morar no hoje Morro da Providência, que na época era conhecido como “Morro da Favela”, ali mesmo no centro, próximo à Central do Brasil.

Para quem não sabe ou nunca ouviu falar, “favela” é uma vegetação rasteira que tomava conta do morro na época. Por isso o nome que com o tempo passou a designar toda e qualquer ocupação irregular nos morros cariocas. Mais tarde o nome ficou relacionado a toda e qualquer aglomeração de casas de pessoas mais humildes.

É aí que entra o traficante hoje em dia. As favelas são verdadeiras “fortalezas” onde o tráfico não recebe o combate do estado. Tem difícil acesso, dificultando o trabalho de incursão da polícia e conta com um exclusivo escudo humano formado pelos moradores.


Um “onde está Wally” indigesto para os policiais…

Voltando aos cortiços, lá não viviam apenas trabalhadores menos afortunados que não tinham condições de morar em um lugar mais digno. Grande parte da “malandragem” carioca também vivia ali. Só que na época – início do século XX – não havia tráfico de drogas. Os “malandros” eram os pungistas, ladrões de carteira, os valentões que gostavam de uma boa briga…

As drogas só viriam fazer parte do dia-a-dia da população a partir das décadas de 1960 e 1970, quando o consumo atinge uma parte já considerável da sociedade. Nesta época já havia uma repressão por parte dos militares em cima dos primeiros traficantes. O tráfico era feito bem na surdina e os traficantes não tinham ainda todo o poder financeiro que tem hoje.

Já no final da década de 1970 o crime organizado no Rio dá uma guinada financeira a partir do aumento do consumo de drogas. Aliado a este problema, nos primeiros anos da década de 1980 o estado do Rio iniciou uma política de vista-grossa ante o crescimento do tráfico. Esta vista-grossa aliada ao despreparo do estado no enfrentamento do tráfico vai estourar nos problemas de segurança que nós temos hoje.

E neste cenário, haja “capitão Nascimento” para consertar a bagunça frente a grupos de traficantes fortemente armados e completamente adaptados e protegidos nas áreas que eles controlam.


Na época que acontece o filme “Tropa de Elite” – meados da década de 1990 – o BOPE contava com cerca de 100 homens. Hoje em dia o efetivo conta com mais de 400 integrantes.

O que o governo está fazendo hoje para mudar este cenário?

A proposta de pacificação dos morros cariocas feita pela equipe do governador Sérgio Cabral pretende instalar as UPPs nos diversos pontos considerados críticos pela Secretaria de Segurança Pública do estado. Para completar o objetivo, se os traficantes oferecerem resistência à implantação da UPP a polícia deve responder à altura. Enfrentamento, esta é a palavra-chave.

O estado renunciou o combate ao crime por pelo menos três décadas no Rio de Janeiro. Hoje é muito mais difícil controlar a entrada de armas e drogas no estado. O tão falado poder paralelo controla partes da capital, grande-Rio e algumas áreas do interior. É de se esperar que a polícia tenha muita dificuldade para controlar determinadas áreas da cidade. E é isto que nós estamos observando no noticiário desde o início da semana.

Ao ser questionado em recente entrevista, o secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse que

“A ação (dos traficantes) é específica contra o Estado. Querem fragilizar uma ação do Estado que os está atingindo. Incêndios têm impacto visual e simbólico.” [1]

A “ação do estado” citada pelo secretário que estaria atingindo os traficantes é justamente a instalação das UPPs. Elas geram discussões, como todo ato governamental. Uns gostam e apóiam, outros criticam de forma séria, focando os pontos fracos. Enquanto buscava algumas fontes para o texto, topei com uma entrevista do sociólogo Luiz Antonio Machado da Silva, professor do IUPERJ. Quando questionado pela entrevistadora sobre quais pontos ele vê de positivo na instalação das UPPs, ele respondeu:

“As UPPs são muito recentes, não estão estabilizadas, de modo que é cedo para uma avaliação definitiva. Mas já podemos especular em torno do que está acontecendo. Supondo que as UPPs venham a vingar – o que é uma possibilidade e não uma certeza – pode haver uma mudança na cultura policial, que desconfia das boas intenções dos pobres e é arbitrária e violenta. Isso vai depender do sucesso na formação democrática dos novos policiais que estão sendo incorporados para atuar nas UPPs. Se vierem a ser ouvidas, o que não será simples de conseguir, as reclamações dos moradores poderão em muito contribuir para isso – elas serão ao mesmo tempo uma consequência da boa formação dos agentes e um importante reforço para ela.” [2]

Como disse o professor, a integração entre policiais e comunidade é um fator decisivo para o sucesso das UPPs. E um dado indiscutível é a diminuição da criminalidade nas comunidades que hoje tem uma UPP instalada. E contra a diminuição da criminalidade não existem argumentos contrários. É bom para a população e ponto final. Mas em contradição, leiam a entrevista do sociólogo José Cláudio Alves. Ele defende que esta guerra é apenas uma “reorganização” das forças criminosas.


Policiais garantindo a segurança e interagindo de forma positiva com os moradores. A população precisa confiar na força policial e relacioná-la com ações positivas. Afinal de contas, policial honesto não é criminoso.

Ainda tem muito trabalho a ser feito pela polícia no Rio de Janeiro. O que ficou bem claro nas declarações dos governantes nos últimos dias é que desta vez não haverá recuo das forças policiais. Cansados de ações paliativas que apenas camuflavam a violência por um período específico de tempo – como nos casos da ECO 92 e do Pan 2007 – o povo desta vez está do lado das ações do estado. Cabe aos profissionais conduzirem da melhor forma esta pacificação da Cidade Maravilhosa.

Vamos aguardar e torcer para que tudo dê certo.

Fontes:

[1] Não podemos recuar. Entrevista do secretário de segurança para a revista Época.

[2] UPPs: pacificação ou controle autoritário? Entrevista com o professor Luiz Antonio Machado da Silva.

- A gênese da favela carioca, texto de Licia Valladares.

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