Deem licença que agora eu vou dar minha opinião (bem) pessoal sobre a eleição presidencial. E começo perguntando para você, leitor: o que é mais importante em seu país e mereceria uma maior atenção da população?
- A melhoria da educação, da saúde, do transporte, da habitação, maior qualidade e quantidade de empregos, bons salários, aumento no poder de compra deste salário – o que nós costumamos chamar de poder aquisitivo – e posterior crescimento do Brasil como um todo justamente pela melhoria das condições de vida ou…
- A legalização ou não do aborto.
Ok, eu concordo que o aborto é uma questão de saúde pública, portanto merece atenção e um debate mais aprofundado sobre o tema. Mas eu vivo em um país onde milhares – senão milhões – de abortos são realizados todo ano e são tolerados pela sociedade!
A diferença é uma só: se você tem dinheiro procura uma clínica e conta com acompanhamento médico. Se você é uma mulher pobre tem que recorrer a métodos nada seguros à sua saúde. E enquanto isso nossos líderes religiosos esperneiam reclamando o direito à vida de todo ser humano mas nunca são ouvidos porque quem vai à missa ou ao culto – ou seja, a população – tolera o aborto.

Eu sei, são fofinhos e deveriam vir ao mundo saudáveis de fábrica, mas e quando a gestação da criança compromete a vida da mãe?
Presidente ou líder religioso?
Você lembra que o Brasil é um Estado Laico?
Dia destes enquanto eu escolhia alguns textos para o livro do HistóriaZine veio um pensamento na minha cabeça: “Por que o pessoal está mobilizando Igrejas e fazendo da fé um instrumento eleitoreiro?” Sim, amigos, instrumento eleitoreiro. O que nós temos hoje em parte da disputa presidencial é uma clara influência das religiões no resultado das pesquisas – e sim, o resultado do 1º turno também teve influência religiosa.
Não estou querendo culpar sua fé por este ou aquele voto. Longe disso, eu tenho minha fé mas sei separar bem as coisas. O que eu quero alertar é que o Brasil é um Estado laico, portanto deve manter-se livre de influência religiosa em suas decisões mais importantes, inclusive suas eleições. Nós não vivemos no Irã, por exemplo, onde independente do resultado das eleições os líderes religiosos – xiitas, diga-se de passagem – é que decidem quem é que vai ocupar a cadeira de presidente.
(agora que nós descobrimos a pólvora nós podemos parar de chamar o Ahmadinejad de ditador carniceiro? “Marionete” seria o menos errado, ok?)
E como você, religioso ou religiosa que segue todos os mandamentos de sua religião deve portar-se frente ao Estado laico? Da mesma forma que todos os “hereges, ateus e afins”: respeitando a opinião da maioria. E você já perguntou qual a opinião da maioria das mulheres quanto à legalização ou não do aborto?
Não? Então por que vocês estão preocupados com a opinião da Dilma sobre isso?
– Serra, se tirar o “aborto” da pasta da Saúde, eu coloco a “privatização” na pasta dos Escândalos, ok?
Desviando o foco principal dos debates:
O vale-tudo eleitoral.
Infelizmente a candidata do PT vem sofrendo com ataques dia após dia durante o período eleitoral. Já perdi a conta de emails que recebi chamando a Dilma de tudo, desde guerrilheira e terrorista até – pasmem se isto atrapalharia de alguma forma alguém a governar – lésbica! E as acusações de que o vice Michel Temer seria satanista? Desculpe se você acredita nesta falácia, mas isto é ridículo!
Segundo Ciro Gomes, a culpa é do pessoal do PSDB. Eu até acredito no Ciro, mas completaria dizendo que qualquer calúnia só vai para a frente se encontrar eco nas pessoas fora do partido que acabam espalhando ainda mais os boatos, principalmente pela internet.
A acusação de que a Dilma seria favorável ao aborto é mais um entre tantos rótulos que tentam colocar na conta da candidata e desviar o foco dos debates. Até a Marina Silva, que é abertamente religiosa e bem mais radical que a Dilma disse que o aborto é uma questão que merece uma discussão nacional e até mesmo um plebiscito. Por que então a Dilma tem que ficar rebatendo acusações sobre isto ao invés de discutir com seu adversário os problemas e as soluções para o Brasil?
Seria por que o adversário dela se eleito representaria um retrocesso a tudo que o país conquistou nestes 8 anos de governo Lula e estas “qualidades” não podem vir a público de forma clara?
(e antes que você colocar na discussão a corrupção que ficou exposta durante o governo Lula, deixa eu te apresentar o sr. Geraldo Brindeiro, conhecido na época do governo FHC como Engavetador Geral da República. Ou seja: existiam acusações, assim como elas existem no governo Lula, mas no governo FHC elas iam para a gaveta, sequer eram investigadas! Igualmente deplorável, concordam?)
Enfim, amigos(as) e leitores(as), vamos discutir. Vamos até mesmo usar os preceitos religiosos para justificar nossas opiniões, mas não deixemos de ouvir quem está do nosso lado com uma opinião contrária. Joguem a intolerância religiosa no primeiro bueiro perto de sua casa. Um novo Brasil está nascendo – seria aquele “país do futuro” que nossos pais tanto falavam? – e nós não podemos abortá-lo por causa de uma ou outra influência religiosa, financeira ou ideológica.
Precisamos pensar o Brasil para todos. E com todos. Afinal, não somos todos brasileiros?








