Antes de começar o texto, mais uma vez aviso que, assim como quando falamos sobre Dilma e a Ditadura Militar, este também NÃO É um texto “eleitoreiro”. Apenas não podemos perder a oportunidade de falar de um personagem político importante da História recente do Brasil. E temos também que falar um pouco do processo democrático em que ele está fazendo parte no momento.
Mas vamos ao texto.
Desde o fim da Copa do Mundo de futebol a campanha das eleições presidenciais de 2010 ficou mais presente no dia-a-dia do brasileiro. Debates já aconteceram e a tão xingada propaganda político-partidária começou a ser vinculada em rádios e TVs. Este ano os candidatos também ampliam seus horizontes de campanha com o uso cada vez maior da internet. E em todos estes veículos de comunicação, um candidato vem chamando a atenção de muitas pessoas que eu tenho contato. Normalmente eu ouço perguntas do tipo: “Quem é esse Plínio Sampaio?” ou “Quem é esse velhinho com idéias doidas de fazer Reforma Agrária?”
Muitas pessoas não sabem, mas o Plínio tem uma biografia política que vai além da candidatura a Presidente do Brasil.
Uma vida pelo Socialismo:
Plínio Soares de Arruda Sampaio é um advogado paulista nascido em 26 de julho de 1930. Ingressou na carreira política em 1958, na subchefia da Casa Civil do governo estadual. No ano seguinte já era coordenador de ação do governo, cargo que ocupou até 1962. No mesmo ano foi eleito deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC) e tornou-se membro da Comissão de Economia, da Comissão de Política Agrícola e da Comissão de Legislação Social.
Convidado pelo então presidente João Goulart, Plínio foi relator do Projeto Nacional de Reforma Agrária, e propôs um modelo de Reforma que despertou a fúria de muitos latifundiários brasileiros. Suas propostas foram rejeitadas, pois a maioria do Congresso era composta por políticos alinhados com a direita conservadora e reacionária.
Nesta época o governo Goulart passava por alguns probleminhas políticos: a direita vivia alerta com medo do “perigo comunista” que, diziam, rondava o Brasil. E era comum políticos de direita criticarem Goulart, insinuando que ele estaria interessado em implantar um governo socialista no país. Já a esquerda criticava abertamente a falta de radicalismo com que Goulart tratava os assuntos nacionais mais importantes, inclusive as Reformas necessárias para diminuir a desigualdade social brasileira.
Enquanto isso Goulart ficava em uma espécie de corda-bamba tentando – sem muito sucesso – manter um governo de centro, com medidas que às vezes agradavam a direita, às vezes a esquerda. Goulart teve inclusive o cuidado de montar sua equipe com membros que eram partidários da direita e da esquerda, mas nem isso era suficiente para aplacar os ânimos dos mais exaltados. E é bom lembrar que, mesmo duramente criticado pela esquerda – sua voz mais forte na época era o então governador do RS, Leonel Brizola -, Goulart conseguia conquistar com mais força a antipatia dos conservadores, justamente por causa do seu plano de reformas de base, que transformariam o Brasil em uma nação mais justa caso fosse bem sucedido.
E é ÓBVIO que esta forma de governar no barril de pólvora que era a América Latina durante a Guerra Fria não ia dar certo, e o resultado é o Golpe civil-militar de 1964. Plínio foi um dos primeiros políticos a ter seus direitos cassados pelo AI-1, o PDC foi posto na ilegalidade, e ele teve que fugir do país por conta disto.
O Exílio produtivo e a volta ao Brasil:
Enquanto esteve exilado no Chile, Plínio ocupou o cargo de técnico do Programa de Desenvolvimento da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO), auxiliando projetos de Reforma Agrária naquele país. Em 1975 a FAO transferiu Plínio para os EUA, onde ele cursou mestrado em Economia Agrícola e auxiliou programas de Reforma Agrária na América Latina e Caribe, atuando como vice-diretor do programa cooperativo da FAO e do BID.
Plínio é consultor da FAO até hoje!
Voltando ao Brasil em 1976, na onda da lenta reabertura política, Plínio dedica-se à fundação de um partido socialista no Brasil. Impulsionado pela liderança durante as greves operárias no ABC paulista, o então metalúrgico Lula pede para Plínio redigir uma proposta de estatuto que reforce as decisões da militância do Partido dos Trabalhadores. Plínio pode ser considerado um dos fundadores do PT, e o primeiro estatuto do partido é de sua autoria.
Ele foi eleito deputado federal por São Paulo em 1982 e 1986, participando da elaboração da Constituição em 1988. Nesta época também ajudou a fundar, juntamente com o sociólogo Betinho, a Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria.
Plínio também é um dos maiores defensores do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, o MST, e apóia todos os assentamentos produtivos espalhados pelo país citando-os, sempre que possível, como um modelo de ocupação e transformação de terras improdutivas em oportunidades para o homem do campo.

Depois de concorrer ao governo de São Paulo em 1990, Plínio foi afastando-se gradativamente das disputas políticas e da direção partidária, primeiro por sentir que, independente dos resultados das eleições, o debate das propostas políticas estavam ficando de fora do interesse geral dos candidatos. E quanto à direção partidária, Plínio achava que o PT estava desviando de suas origens socialistas.
Devo citar que eu tenho percebido esta falta de grandes debates e apresentação de propostas nas campanhas de 2006 e 2010, mas Plínio já tinha percebido isso no início da década passada! Quanto ao desvio das propostas iniciais do PT, esta é a minha crítica ETERNA ao partido desde 2003.
Apesar do afastamento da vida política, Plínio fundou em 1996 a Sociedade para o Progresso da Comunicação Democrática, entidade que edita o Correio da Cidadania, jornal que tem como proposta apresentar uma visão crítica da política, economia e sociedade brasileira.
Em 2005 candidatou-se presidente do PT, na tentativa de vencer as eleições e fazer o partido retornar às suas origens socialistas. Plínio não teve sucesso na eleição, e com o agravamento de escândalos envolvendo vários políticos do PT, Plínio desfilia-se do partido e junta-se ao recém-fundado PSOL, fundado por ex-PTistas descontentes e ex-militantes do PSTU.
E nas eleições de 2010 Plínio é candidato à Presidente da República pelo PSOL, chamando a atenção dos eleitores com um discurso que pode até soar radical para um senhor de 80 anos, mas que condiz com sua biografia.
E o que mais impressiona nesta campanha é como Plínio está usando com sabedoria a mídia. Primeiro ele entrou na justiça para participar do debate promovido pela TV Bandeirantes. O pessoal já ficou meio “de orelha em pé” com ele. Durante o debate, Plínio foi severo e criticou com sabedoria TODOS os três candidatos – Dilma, Serra e Marina – e ao mesmo tempo foi respeitado pelos três.
Não foi convidado para a sabatina promovida pelo Jornal Nacional e esperneou, reclamando do favorecimento aos três maiores candidatos. A TV Globo acabou mandando um repórter para uma curta entrevista, mas Plínio foi ouvido. Também não foi chamado para o debate promovido pelo portal UOL e a Folha da São Paulo, mas usou uma câmera conectada à internet para comentar o debate. Muita gente ficou ligada no debate E nos comentários do Plínio, que também tem uma conta no Twitter, onde divulga suas propostas e critica os outros candidatos.
Afinal de contas, o que é um debate senão apresentação de propostas e críticas às mesmas?
Se Plínio vai ser eleito? Muito difícil. Mas, aos 80 anos, ele mostra que existem outras opções e outros caminhos na política brasileira. E desafia os atuais políticos para o debate aberto dos reais problemas existentes no Brasil.
E isto os políticos podem até ter boa vontade em resolver depois de eleitos, mas tem medo de debater estes pontos com força durante a campanha e perder a eleição.
Referências:
- Site do PSOL.









