Vamos começar a série de textos sobre os Libertadores da América falando do revolucionário peruano José Gabriel Condorcanqui, que em 1780 rebelou-se contra as elites locais, reclamou a descendência do lendário Túpac Amaru – líder inca que lutou contra a invasão espanhola no séc. XVI – e comandou a primeira grande resistência indígena na América espanhola.
Chapetones, criollos e nativos:
Os espanhóis não trouxeram apenas destruição à população nativa. Em um primeiro momento tivemos sim batalhas que exterminaram grande parte da população – matança esta ampliada pela falta de defesas biológicas dos nativos frente às doenças trazidas pelos europeus – mas com o tempo e achegada dos jesuítas os massacres foram postos de lado em nome de uma convivência aparentemente pacífica, até mesmo porque os espanhóis precisavam de braços para trabalhar no Novo Mundo, e nem todos na Europa tinham tanta vontade de vir para a América trabalhar.
Os jesuítas, além de converter os “pecadores não-batizados” – os nativos –, fundaram escolas e universidades em diversas cidades da América espanhola. A educação servia principalmente aos filhos dos espanhóis, mas alguns nativos e mestiços também tinham contato com esta “educação formal”.
Mesmo com estas universidades, muitos espanhóis mandavam seus filhos terminar seus estudos na Europa, e nesta época – segunda metade do séc. XVIII – o continente europeu começava a discutir idéias iluministas e liberais de forma intensa. Estas idéias acabavam chegando aos nativos de alguma forma: em conversas informais, ou pela educação que era oferecida nestas escolas ministradas pelos jesuítas.
Os ideais liberais fervilhavam na Europa, mas ainda havia na América espanhola uma idéia geral de que o rei, lá na Espanha, tinha força suficiente para manter todo o controle por estas terras. Este poder era garantido pelos espanhóis que formavam a elite administrativa da colônia – chamados de chapetones -, que eram responsáveis por controlar ou recolher a miita, que nada mais era do que o trabalho a ser feito para a administração ou o imposto a ser pago pelos nativos. Os chapetones repassavam grande parte destes recursos arrecadados ao vice-rei, que por sua vez encaminhava estes recursos à Coroa espanhola.
Além dos chapetones e dos nativos, a população contava com uma parte de escravos negros, trazidos da África e de criollos, como eram chamados os filhos de espanhóis nascidos na América ou os mestiços de mãe ou pai espanhol. Muitos dos criollos eram pequenos ou médios comerciantes, fazendeiros, donos de minas de prata ou profissionais diversos – médicos, professores etc -, ou trabalhadores comuns, que faziam serviços em fazendas ou minas. Estes criollos também pagavam impostos, mas os valores não eram tão absurdos como os valores e obrigações da miita imposta aos nativos.
Para se ter uma idéia de como era a sociedade peruana nesta época, viviam no país aproximadamente 1.800.000 pessoas, dos quais 60% eram nativos, 23% criollos, 5% eram escravos africanos e somente 12% eram brancos.
Muitos chapetones controlavam os nativos fazendo alianças com os curacas, que eram os líderes dos ayllus – como eram chamadas as tribos. Assim, mantinham o controle da população sem necessitar apelar para a força bruta. Em troca de manter a população trabalhando de acordo com as vontades dos chapetones, os curacas recebiam como compensação uma parte do que era arrecadado com a miita ou ficavam desobrigados de cumprir o trabalho compulsório imposto pelos chapetones.
E é aí que começa a história de Condorcanqui.
Os motivos da revolta e a luta de Condorcanqui.
Jose Gabriel Condorcanqui recebeu educação em Lima, na Universidade de São Marcos, e lá teve acesso aos ideais iluministas e liberais. Estudou também parte da História de seus antepassados, tendo contato com os feitos de Túpac Amaru.
Inspirado pela luta de Amaru, indignado com a cobrança sistemática da miita e tendo que conviver com os altos preços praticados pelos comerciantes criollos, Condorcanqui em 1777 solicita uma audiência com a administração do vice-reino em Lima para rever os valores da miita. Na ocasião, pede a suspensão dos pagamentos, ou pelo menos parte deles, pois os nativos de sua região estavam sofrendo com a fome. Trabalhavam muito, recebiam pouco, pagavam a miita e não tinham condições de comprar o que comer. Isso somado às terríveis condições de trabalho nas minas de Potosí, o trabalho dos nativos era algo bem terrível.
O visitador – responsável pela audiência – julgou as reclamações de Condorcanqui justas e reprimiu verbalmente os comerciantes que cobravam preços abusivos e os donos das minas e fazendas que pagavam salários miseráveis aos trabalhadores nativos. Mas considerou que a decisão final deveria passar por uma instância superior, isto é, pelo vice-rei.
Só que ao levar o caso à esfera superior, o visitador recebeu como resposta uma instrução para deixar tudo como estava e não aplicar nenhuma suspensão na cobrança da miita. Condorcanqui então, furioso com o descaso dos chapetones, começa a arrebanhar simpatizantes entre os ayllus e a estocar armas de fogo, que eram proibidas para os nativos. Após ouvir muitos curacas e perceber que a situação dos outros ayllus era igual ou pior que a de seu ayllu, Condorcanqui mudou seu nome para Tupac Amaru II e começou a liderar de forma aberta a insurreição nativa.
Vale sagrado do rio Urubamba, próximo de Cuzco e Macchu Pichu.
Inicialmente a maioria da elite criolla e muitos dos curacas apoiaram Amaru, e em pouco tempo milhares de nativos, escravos e criollos pobres estavam do lado da insurreição, recusando-se a trabalhar e pagar impostos enquanto a administração daquele vice-reinado continuasse no Peru. Eles esperavam apenas por um sinal.
E o estopim foi a excomunhão, pelo bispo criollo Moscoso, do chapetone Antonio de Arriaga, que controlava a região de Tinta, e era uma pessoa odiada pelos nativos. Aproveitando-se da excomunhão, Amaru manda prender Arriaga em 4 de novembro de 1780, e obriga o controlador a escrever uma carta ao vice-rei pedindo armas, munições e dinheiro para a causa dos nativos. Depois, no dia 10 de novembro, Arriaga é enforcado e Amaru manda mensagens a todos os curacas, pedindo que eles destituíssem os chapetones de suas províncias e confiscassem suas propriedades, em nome do rei. Controladores, assessores, magistrados, todos deveriam perder o posto para os curacas locais.
Reparem que não havia no movimento de Amaru a luta pela independência, pois o descontentamento era com os chapetones que cuidavam da administração. E também não havia raiva contra o trabalho da Igreja, de acordo com uma carta de Amaru para o bispo Moscoso:
“VS Ilma. no se incomode con esta novedad ni perturbe su cristiano fervor. Ni la paz de los monasterios, cuyas sagradas vírgenes e inmunidades no se profanarán de ningún modo, ni sus sacerdotes serán invadidos con la menor ofensa de los que me siguieren… ” [1]
Em 23 de dezembro de 1780, Amaru faz um apelo definitivo aos nativos e aos criollos simpatizantes do movimento, pedindo que todos os nativos naquele momento lutassem como irmãos reunidos contra os espanhóis.
Foi neste ponto que o movimento começou a atingir grande parte da população. Amaru durante o ano de 1781 vai conquistar apoio em várias cidades, como Chuquisaca, Oruro, Tupiza, Puno, La Paz e Jujuy, arrebanhando não só simpatizantes à causa mas também armas, soldados e cavaleiros. Chapetones eram escorraçados das cidades aos gritos de “Viva el rey y muera el mal gobierno!”
Mas em algumas cidades a população já exaltava Amaru como o novo rei inca, o que causou um desconforto entre as elites criollas, que passaram a ver Amaru como uma ameaça. Certamente pensaram: “Hoje lutam contra os chapetones e o vice-rei, amanhã pedem nossas cabeças e a independência.”
Sem uma maior força política – que era articulada e sustentada pela elite criolla – e maior apoio “humano” para a luta, Amaru sofreu uma dura derrota frente aos 17 mil homens fortemente armados e comandados pelos chapetones José Antonio de Areche e José del Valle entre os dias 5 e 6 de abril de 1781.
Amaru foi capturado, julgado e sentenciado à morte pelas autoridades responsáveis em Cuzco. Para servir de exemplo, teve sua língua cortada e seu corpo esquartejado. Mesmo com sua morte, nos meses posteriores diversos focos de resistência ainda tiveram que ser contidos pelo exército do vice-reinado, resultando na morte de cerca de 80 mil nativos.

Amaru é lembrado e respeitado até hoje pelos seus feitos, assim como Tiradentes é lembrado no Brasil.
A luta de Amaru II, assim como a luta do lendário inca que desafiou a dominação dos primeiros espanhóis não teve um final feliz, mas não foi em vão. Ela inspirou os nativos a apoiarem os movimentos de libertação que vieram nas décadas seguintes com Bolívar, San Martin e tantos outros que no futuro lutaram pela América livre de qualquer dominação.
Referências:
[1] Perfil de Don José Gabriel Condorcanqui (em espanhol)
- Página do Mundo Educação sobre a Rebelião Túpac Amaru escrita pelo professor Rainer Sousa, mestre em História.
Leia os outros textos da série:
- San Martin e a libertação de Argentina, Chile e Perú.
- Simon Bolívar e a luta pela libertação das regiões do Equador, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Perú.









