Depois do texto sobre Túpac Amaru II, que lutou contra as desigualdades no Peru, vamos falar de San Martin, general argentino que teve papel de destaque nas independências da Argentina, Chile e Peru.
José Francisco de San Martin y Matorras nasceu em 25 de fevereiro de 1778 na cidade de Yapeiú – hoje San Martin -, que fica na província de Corrientes. Seu pai era o coronel espanhol Juan de San Martin, que atuava no Vice-reino do Prata como governador da província.
Ainda garoto, San Martin foi para Espanha, e estudou no Seminário de Nobres de Madri até alistar-se como cadete no regimento de infantaria de Murcia em 1789 – sim, com apenas 11 anos de idade! -, e serviu ao exército espanhol por 22 anos. San Martin destacou-se em campanhas militares no norte da África e em Gibraltar, lutou contra as tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte nos Pireneus e depois da invasão napoleônica da Península Ibérica lutou em Sevilha, Cádiz e Albuera.
Após a batalha de Albuera, em 1811, San Martin é designado comandante do regimento de dragões de Sagunto, mas não assume o posto, renunciando à carreira militar na Espanha. Depois, viaja para a Inglaterra, onde tem contato com compatriotas argentinos e outros sulamericanos que tem em comum o sonho de ver a América livre da dominação espanhola.
A volta para a Argentina:
A América do Sul gritava por independência.
San Martin ficou sabendo nestas reuniões na Inglaterra que na Argentina e em toda a área do continente americano controlado pela Espanha existiam diversos movimentos de independência isolados e sem força para garantir a separação definitiva. Nesta época, inclusive, Simon Bolívar já estava lutando pela independência da Venezuela.
Os patriotas argentinos, que estavam organizados em torno de uma junta governativa precária, porém atuante a favor da independência, aproveitam a deposição em 1808, na Espanha, do rei Fernando VII pelas tropas napoleônicas e em 1810 abrem os portos de Buenos Aires aos ingleses. José Bonaparte, que ficou responsável por controlar a Espanha, extinguiu o cargo de vice-rei na região platina, no Chile, na Venezuela e em Nova Granada – atual Colômbia.
Em 1811 o Paraguai consolida sua independência, tornando-se uma república, liderado por Gaspar Francia. No Chile, a elite administrativa é expulsa também em 1811, mas os vários núcleos de resistência, contrários à independência chilena vão resistir até 1818. Aguardem que vamos falar do Chile com mais detalhes daqui a pouco. Já os uruguaios, liderados por José Artigas e auxiliados por forças argentinas, também conseguem sua independência, mas em 1821 o país é anexado pelos portugueses com o nome de Província Cisplatina. A independência definitiva do Uruguai nós trataremos em outro texto, já que ela também faz parte da História do Brasil Império.
Voltando à História de San Martin, em 1812 ele resolve voltar para a Buenos Aires e colocar-se à disposição dos patriotas. Sabendo de suas habilidades no comando de tropas, os líderes políticos da junta solicitam a San Martin que organize um regimento de granadeiros para auxiliar nos combates.
Nesta época existiam três correntes ideológicas distintas na Argentina, o que dificultava um pouco a independência:
1) Os acomodados, que não estavam muito interessados em revolucionar a política da região do Prata. Muitos até aceitavam a independência, mas não ajudavam na luta por ela;
2) Os submissos, que insistiam na manutenção da sujeição ao regime absolutista da metrópole e, lógico, eram completamente contrários à independência. O grupo era formado principalmente pela elite administrativa;
3) Os patriotas, que desejavam a imediata independência, acabando com qualquer laço com a Coroa espanhola ou com qualquer outro governo que viesse a comandar a Espanha.
Lembram no texto sobre Túpac Amaru, quando em um momento o bispo Moscoso excomungou um chapetone, e aquele ato foi o estopim para a luta de Amaru? Então… na região do Prata era diferente: a Igreja estava do lado dos espanhóis. Segundo as palavras do bispo de Lue – que depois da independência foi expulso de Buenos Aires,
“Enquanto existir, na Espanha, um pedaço de terra e um governo espanhol, este deverá mandar nas Américas, sem qualquer restrição à sua autoridade soberana! Enquanto houver um espanhol vivo à superfície da Terra, todos os americanos deverão obedece-lo, porque é a vontade de Deus!“
San Martin prova sua habilidade de comando ao vencer as tropas espanholas do general José Zavala na batalha de San Lorenzo de Paraná, em fevereiro de 1813. Como forma de reconhecimento, San Martin é designado General do Governo Revolucionário. Após diversas batalhas, desencontros políticos e auxílio dos ingleses, a independência da Argentina é proclamada em 9 de julho de 1816. Mas antes, em 1814, San Martin e os outros militares na luta pela independência receberam o reforço de Bernardo O’Higgins.

“Combate de San Lorenzo”, quadro de R. Teodor [fonte]
Libertando o continente rumo ao norte:
Bernardo O’Higgins era comandante das tropas chilenas e estava refugiado em Mendoza depois de ser derrotado pelos realistas na batalha de Rancágua, em 1814. O militar chileno também era favorável à independência total das regiões controladas pelos espanhóis, e ajudou San Martin.
Após a vitória e a libertação da Argentina, San Martin é designado pelo governo de Buenos Aires como General do Exército Andino, e parte rumo ao Chile para ajudar O’Higgins acompanhado de um pequeno exército. Cruzam a Cordilheira dos Andes pelo Aconcágua em 1817 e ao vencer os realistas na batalha de Chacabuco, abrem caminho até Santiago.
Chegando a Santiago, com a cidade tomada e o controle nas mãos dos patriotas chilenos, San Martin recebe o convite para ser presidente do Chile após a consolidação da independência, mas não aceita a indicação e pede que O’Higgins seja agraciado e aceite tal honraria. Em 1818 comanda e vence a batalha de Maipú, libertando completamente o Chile, e pede que seus comandados não abaixem completamente as armas e apenas descansem o necessário. Era preciso conquistar Lima e libertar os peruanos.
Na imagem acima, San Martin e O’Higgins na batalha de Maipú. [fonte]
Rumo ao Peru:
O objetivo de San Martin era libertar todo o sul do continente e a região peruana era de uma importância fundamental para a completa libertação da América. Com o apoio de tropas designadas por O’Higgins – agora presidente do Chile -, San Martin parte de barco para o Peru, evitando entrar em atrito com forças espanholas que estavam entre a fronteira chilena e Lima.
A frota, sob o comando do almirante Cochrane, partiu de Valparaíso em 20 de agosto de 1820 e desembarcou em Pisco, no sul do Peru, semanas depois. As tropas espanholas que estavam na cidade bateram em retirada para a cordilheira. Ao todo, o vice-rei tinha à disposição cerca de 26 mil homens espalhados por todo o território peruano, com uma maior concentração de tropas em Lima. San Martin manda mensageiros até o vice-rei para negociar uma rendição pacífica, mas suas exigências são negadas.
Só resta então marchar para a capital. As tropas partem em outubro de 1820 e após algumas batalhas e um cerco a Lima que durou alguns meses, San Martin recusa todas as negociações de manutenção do vice-reinado e proclama a independência peruana em 28 de julho de 1821, assumindo o governo como protetor peruano. Em uma varanda na plaza mayor, em Lima, segurando em uma das mãos a bandeira peruana, San Martin declarou, cercado por uma multidão de soldados, políticos e simpatizantes da independência:

“El Perú es desde este momento libre e independiente por la voluntad de los pueblos y de la justicia de su causa que Dios defiende.” [1]
Em 1822 San Martin encontra-se em uma reunião com Simon Bolívar em Guayaquil, e na volta ao Peru, sentindo-se doente, fraco e insatisfeito com a oposição ao seu governo, renuncia ao cargo e parte para a Europa, vivendo um tempo em Bruxelas, Paris e Boulogne-sur-Mer, onde morou até falecer, em 17 de agosto de 1850.
Referências:
[1] “San Martín y la independencia del Peru“, site em espanhol.
- Biografia de San Martin no Portal São Francisco.
- Livro “Historia Integral de la Argentina“, de Félix Luna. Editorial Planeta. 1994. Primeira edição.
Outros textos da série:
- Túpac Amaru tentou a independência do Perú, mas não foi bem sucedido.
- Simon Bolívar e a libertação das áreas da Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela e Peru.









