A MPB e a História do Brasil no século XX (III)

“Nas favelas, no Senado
Sujeira prá todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação…”
Que país é esse?“, Legião Urbana
 

Terceira parte:

Anos 80 e 90: “rebeldia classe-média” e apelo social.

Falar da música popular brasileira nas duas últimas décadas do século XX é relativamente fácil, pois eu vivi as duas décadas – e sim, confesso que os dois textos anteriores estão rasos, mas é impossível falar de MPB sem escrever um verdadeiro tratado para ser completo. E mesmo assim, você corre o risco de omitir alguma coisa!

Você pode ler a primeira e a segunda parte da série antes de continuar o texto.

A abertura política pós-ditadura:

Enquanto nas décadas anteriores os artistas nacionais lutavam contra a censura, a década de 1980 foi marcada pela reabertura política e, consequentemente, uma gradativa diminuição do papel dos censores na cultura. A população ia para as ruas pedir eleições diretas para presidente, mas a saída dos militares do poder aconteceu após a eleição de Tancredo Neves, que não foi eleito por voto direto da população, e sim pelo colégio eleitoral. O povo só iria votar novamente para presidente em 1989, elegendo Fernando Collor de Melo.

Na música, os artistas citados nos textos anteriores já estavam consagrados e com um vasto repertório. Havia sim um espaço na música brasileira, e ele foi preenchido por um novo “velho” ritmo: o rock. Ou, como alguns críticos musicais gostam de classificar, o rock-pop brasileiro.

Foi na década de 1980 que surgiram bandas que ficaram consagradas neste ritmo: Legião Urbana, Titãs, Engenheiros do Hawaii, Ira!, Nenhum de Nós, Capital Inicial, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Plebe Rude, entre outras. A princípio nenhuma destas bandas apresentava repertório crítico – até mesmo pela censura ainda vigorar até a metade da década – e algumas jamais fizeram músicas criticando algo. Mas nesta época foi lançado um disco que serve como exemplo do que a juventude dos anos 70 e 80 sentia, mas não podia trazer à tona por causa da censura: O “Que País É Este – 1978/1987″, da Legião Urbana.

Este foi o terceiro disco da que viria a ser considerada a maior banda de rock do Brasil, mas foi lançado com músicas compostas antes da Legião “estourar” no cenário musical brasileiro. O disco traz em seu encarte as seguintes linhas que explicam um pouco como as pessoas enxergavam essa abertura pós-ditadura:

“Não se falava abertamente como hoje de tantas coisas, coisas que toda criança sabe hoje em dia, nem pelos jornais. Drummond estava vivo, Sid Vicious também. Nosso país iria crescer e mudar para melhor e todos acreditaram. (…) A temática continua atual, às vezes até demais. ‘Nas favelas, no Senado, sujeira prá todo lado’ é de certa forma adolescente e ingênuo mas, depois de uma letra como ‘Índios’, que trata do mesmo assunto, poderia até ser a mesma música, para onde ir? Há uma diferença de sete anos entre as duas e o que mudou?” [1]

N.E.: a música “Índios” foi composta sete anos após “Que país é este?”, mas lançada ANTES, no disco “Dois”.

Parece que, com o fim da Ditadura, muitos artistas perderam a pegada crítica, principalmente aqueles que sofreram diretamente nas décadas de 60 e 70. Mas nesta época de reabertura muitos dos que tiveram suas músicas proibidas pela censura puderam, enfim, gravar e levar para seus shows composições antigas. Muitas foram gravadas ou regravadas, enquanto outras ficaram engavetadas. O certo é que todas servirão para sempre como registro histórico da época.

Como já foi citado, os novos artistas e bandas, nascidos na década de 80, quase não lançavam músicas críticas. Era tempo de poemas cantados no lugar dos protestos inteligentes. Tempo de cantar a rebeldia adolescente, as festas. A doce depressão típica de jovens classe-média, despreocupados com a política, ou críticos sem muitos fundamentos, já que muitos artistas da época não viviam a realidade social do país.

Cazuza, Léo Jaime, Renato Russo, Arnaldo Antunes, Leoni, Herbert Vianna, Frejat, Paula Toller, Humberto Gessinger, Nasi, Thedy Corrêa. A criação artística destes citados é indiscutível, mas a maioria das músicas refletia apenas o que se passava com uma parte da população. Claro que trejeitos, estilos e modos eram copiados pelos fãs, mas é fato que a música dos anos 80 não pode ser exemplo de “espelho” da sociedade brasileira.

Será por isso que muitos consideram a década de 1980 como “perdida”? A verdade é que as músicas com forte apelo social voltarão a fazer sucesso somente na década de 1990.

“Hoje eu tô feliz / Matei o Presidente!” [2]

Fernando Collor de Melo foi eleito em 1989 após uma disputada eleição com Luis Inácio Lula da Silva, decidida, para muitos, após a edição – favorável ao Collor – de um debate levado ao ar pela maior emissora de TV do país nas vésperas do pleito. O resultado, pouco mais de um ano e meio depois?

A mesma emissora teria “forçado” milhares de brasileiros, a maioria jovens, para ir às ruas pedir o impeachment de Collor, após diversas denúncias de irregularidades durante a campanha política e após a posse do presidente. O processo todo eu prometo falar em outro texto, mas eu queria usar o “gancho” para dizer que, na década de 1990 ainda existia censura no país. O exemplo? A frase que serve de sub-título. Ela é de uma música de autoria do rapper Gabriel, O Pensador, e foi censurada por conter frases ofensivas ao então presidente do país.

Não havia liberdade de expressão no Brasil? Havia, e ainda há. E concordo que o rapper exagerou, mas ele não teria esse direito, desde que não transformasse seus versos em atos? É um caso a se pensar.

Além das músicas do rapper, normalmente críticas, outros artistas e bandas apareceram nesta época apresentando um repertório com apelo social. O Rappa, Chico Science, Cidade Negra, Racionais MC’s. Muitos vieram de condições econômicas desfavoráveis, por isso na época – e até hoje – você encontra diversos “projetos sociais” capitaneados por artistas e/ou bandas. O Olodum (Salvador) e a Nação Zumbi (Recife) são dois exemplos de bandas que estão diretamente ligadas com projetos sociais nas cidades que nasceram.

No Rio de Janeiro o funk, derivado do som nascido nos E.U.A. como mais uma expressão do soul e da black music na década de 60, trazido para o Brasil na década de 70 e adotado pelo povo da periferia, começa a fazer sucesso entre os jovens quando as letras passam a exprimir a dificuldade do dia-a-dia da população que vivia nas favelas do Rio. E muitos daqueles artistas citados anteriormente, nascidos na década de 80 vão agregar ao repertório músicas críticas, seguindo a tendência geral.

É desta época, por exemplo, a música “Luis Inácio (300 picaretas)“, dos Paralamas, que usava uma frase proferida pelo Lula, quando comentou certa vez sobre o Congresso Nacional, onde poucos políticos eleitos realmente se preocupavam com a população: “São uns 300 picaretas com anel de doutor.” A música refletia bem o momento pelo qual passava o Congresso, e também foi censurada! Antes de uma apresentação em Brasília, os integrantes do grupo foram notificados de que a execução da música não seria permitida por uma medida judicial.

Livre ou censurada, a música brasileira ajudou a construir parte da identidade cultural do brasileiro. Abriu mentes, uniu grupos por vezes distintos, apontou problemas, cobrou soluções ou apenas divertiu. Sofreu influências exteriores mas nunca deixou de ter sua própria personalidade, por isso é única.

E é isso. Espero não ter sido tão vago em um tema tão extenso. Poderia ficar dias escrevendo e ainda assim deixar de lado ritmos, influências – citei pouquíssimas – e movimentos musicais. Mas eu gostei de escrever estes três textos e espero que vocês gostem do conteúdo.

Observações:

- Não podemos deixar de lado outros ritmos musicais como, por exemplo, o samba ou o forró. Estes ritmos sempre tiveram mais apelo social com letras que muitas vezes refletiam a realidade do meio em que viviam os artistas. Como esquecer “Asa Branca“, imortalizada pelo genial Luiz Gonzaga, entre outras? Mas eu preferi falar daquelas músicas que chegavam à maior parte da população e que eram tocadas mais vezes em rádios e mais tarde, nos programas da TV.

- O Olodum foi fundado em 1979, e a Nação Zumbi em 1991.

Referências:

[1] parte do texto que está no encarte do CD “Que País É Este – 1978/1987“, da Legião Urbana.

[2] música “Tô Feliz (matei o presidente)” de Gabriel, O Pensador.

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2 comentários sobre “A MPB e a História do Brasil no século XX (III)”

  1. Alessandro Soledade disse:

    Ótima série de textos, adorei!
    Graças a eles estou adquirindo de forma resumida e bem explicada aquilo que não pude presenciar com meus próprios olhos.
    Parabéns!

  2. História Zine disse:

    Valeu, Alessandro!

    Ainda bem que você percebeu que os textos estão BEM resumidos… mas é como eu disse, não tem como falar de MPB de forma completa sem escrever um verdadeiro "tratado" e que seria bem extenso…

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