Dilma e a "mentira" na Ditadura Militar

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Não, este não é um texto eleitoreiro, muito menos difamador. Longe disso. O título pode enganá-los, ou faze-los pensar que eu estou usando o espaço do site para fazer alguma campanha política. Não é o caso, já que eu tenho um blog pessoal e lá eu colocarei minhas opiniões sobre os candidatos à presidência do Brasil em 2010.

Mas como professor eu não posso deixar passar um depoimento como este, ainda mais registrado em vídeo. Independente da pessoa hoje ser candidata a algum cargo ou não, o que ela diz neste vídeo deve ser visto – e ouvido – por todos.

Então vamos às explicações:

No dia 7 de maio de 2008 a então Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, compareceu a uma convocação feita pelo Senado Federal para dar explicações acerca de um suposto “Dossiê FHC”, que colocava o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso envolvido em falcatruas na época em que foi presidente.

Então, talvez em uma tentativa de desequilibrar a ministra durante a sabatina no Senado, o senador Agripino Maia (DEM-RN) lembra de uma entrevista anterior dada pela ministra a um jornal em que ela afirmava “ter mentido muito” durante a Ditadura Militar. O senador continuava a pergunta questionando se naquele momento estávamos novamente em um regime de excessão e se ela, ministra, mentiria novamente”, já que as informações sobre a existência ou não do dossiê e do conteúdo do mesmo estavam desencontradas, e se o dossiê serviria como instrumento de um Estado “policialesco”, nos moldes da Ditadura.

A resposta está logo abaixo:


[link do vídeo]

Transcrevo abaixo a resposta, caso o leitor tenha preguiça em esperar o vídeo carregar, ou não consiga abri-lo em casa, ou no trabalho:

“Tem uma consideração apenas, que eu vou responder antes porque eu acho que ela é importante para a democracia no Brasil:

O processo de ditadura militar no país que começa em 64, se aprofunda em 68 e atinge o seu auge em 70, quando se tortura e se mata indiscriminadamente no Brasil, ele é completamente diferente do processo de transição democrática. Esse momento, que vai se dar nos 80 é diferente do que aconteceu ao longo dos anos 70.

O que acontece ao longo dos anos 70 não é uma ditadura policialesca simplesmente. É a impossibilidade de se dizer a verdade em qualquer circunstância. Por que? Porque o direito à livre expressão estava enterrado. Não se dialoga, não é possível supor que se dialogue com o pau-de-arara, o choque elétrico e a morte. Não há este diálogo!

E isso não é só aqui no Brasil que não houve. Não houve em nenhum país do mundo. Não houve na Argentina, diante da ditadura militar argentina, não houve na Argélia, na guerra da Argélia. Não há a possibilidade de um diálogo civilizado.

E é isso que é importante hoje na democracia brasileira. Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira. Eu tinha 19 anos, eu fiquei 3 anos na cadeia e eu fui barbaramente torturada, senador! E qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogadores compromete a vida de seus iguais. Entrega pessoas para serem mortas.

Eu me orgulho muito de ter mentido, senador! Porque mentir na tortura não é fácil. Agora, na democracia, se fala a verdade. Diante da tortura quem tem coragem e dignidade fala mentira.

E isso, senador, faz parte e integra a minha biografia, que eu tenho imenso orgulho. E eu não estou falando de heróis. Feliz do povo que não tem heróis deste tipo, senador. Porque aguentar tortura é algo dificílimo. Porque todos nós somos muito frágeis, todos nós. Nós somos humanos, nós temos dor. E a sedução, a tentação de falar o que ocorreu e dizer a verdade é muito grande, senador. A dor é insuportável! O senhor não imagina quanto é insuportável!

Então eu me orgulho de ter mentido! Eu me orgulho imensamente de ter mentido! Porque eu salvei companheiros da mesma tortura e da morte. Não tenho nenhum compromisso com a ditadura em termo de dizer a verdade. Eu estava num campo, eles estavam no outro. O que estava em questão era a minha vida e a de meus companheiros.

E este país, que transitou por tudo isso que transitou, e construiu a democracia que permite que hoje eu esteja aqui, que permite que eu fale com os senhores, não tem a menor similaridade. Este diálogo aqui é o diálogo democrático. A oposição pode me fazer perguntas, eu vou poder responder. Nós estamos em igualdade de condições humanas, materiais, nós não estamos em um diálogo entre o meu pescoço e a forca, senador. Eu estou aqui em um diálogo democrático, civilizado, e por isso eu acredito e respeito esse momento.

Por isso, todas as vezes… eu já vim aqui nessa comissão antes… então eu começo a minha fala dizendo isso. Porque isso é algo que é o resgate neste processo que ocorreu no Brasil. Vou repetir mais uma vez: Não há verdade, não há espaço para a verdade… é isso que mata na ditadura, é que não há espaço para a verdade, não há espaço para a vida, senador.

Porque algumas verdades, até as mais banais podem conduzir à morte. É só errarem a mão no seu interrogatório. E eu acredito, senador, que nós estávamos em momentos diversos da nossa vida em 70. Eu asseguro isso. Eu tinha entre 19 e 21 anos e de fato eu combati a ditadura militar… e disso eu tenho imenso orgulho!”

Na verdade, o que seria uma sabatina com a ministra acabou se transformando em uma aula sobre o que passaram algumas das pessoas que resolveram lutar contra o regime militar imposto à população a partir de 1964.

Igual à (hoje) ex-ministra, outros políticos que figuram no cenário brasileiro também tiveram problemas com a Ditadura, ou por lutar contra a mesma – na época a grande maioria era jovem e fazia parte dos movimentos de esquerda -, ou por apenas terem idéias consideradas subversivas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, teve que fugir para o Chile. O atual candidato à presidência pelo PSBD, José Serra, idem! Leonel Brizola, seguramente o maior nome da esquerda na época do Golpe, teve que fugir para o Uruguai o mais rápido possível, pois corria risco de morte!

Isso sem contar os artistas, professores, pensadores de esquerda, padres que não concordavam com o apoio da Igreja Católica à Ditadura… enfim, muita gente.

Como eu disse no início do texto, este não é eleitoreiro, por citar a candidata à presidência da República pelo PT. Eu queria apenas passar aos leitores o depoimento de uma pessoa que sofreu com a Ditadura no Brasil. E como eu também disse, um depoimento como este não pode ficar esquecido, concordam?

Ps.: ou o senador Agripino Maia não conhecia a biografia da ex-ministra, ou então perdeu uma bela oportunidade de ficar calado…

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16 comentários para “Dilma e a "mentira" na Ditadura Militar

  1. O que eu acredito é que lutar por ideais não justifica uso de armar,assaltos e outros crimes praticados pelos que chamam de heróis… violência sempre gerou violência e já vimos em documentários e ouvimos em alguns depoimentos que eles também não tinham compaixão de quem atravessasse na frente,do mesmo modo que tinham "monstros" entre os militares,existiam "monstros"entre os "mocinhos"…o que ela era???

  2. Em uma guerra a lógica é a seguinte: Um soldado inimigo que mata nossos soldados é um bandido. Um soldado nosso que mata soldados inimigos é um herói.

    Não cabe a minha pessoa julgar neste espaço se a Dilma agiu de forma certa ao lutar contra a Ditadura (eu tenho minha opinião quanto a isto, mas não vou colocá-la aqui neste comentário). O texto está aí como um exemplo do que acontecia naquela época com os "subversivos", somente porque tinham idéias e desejos diferentes dos "milicos".

    A Dilma fez parte de um movimento de luta contra o Regime. Foi presa e torturada por isso. Mas teve gente que foi presa, torturada e sequer pegou em armas ou fez parte "intelectual" (foi o caso da Dilma) de movimentos contrários à Ditadura. Recomendo ler o texto sobre o passado da "Dilma Guerrilheira" no site da Revista Piauí. A reportagem ficou grande, mas vale a leitura.

  3. Já li e cada lado tem sua verdade.
    os familiares das vitimas dos"mocinhos" tem a verdade deles que se vc ouvir a historia deles verá que não so a da Dilma guerrilheira tem valor,porque não posso acreditar que todos os "milicos"como maldosamente vc colocou eram maus.
    Não defendo nem um nem outro só não posso aceitar que coloquem como heroi quem também tirou vidas de pessoas sem se importar que tinham mães,pais,filhos e sem se importar que muitos acreditavam também em seus ideais que eram diferente do deles.

  4. Bom… em primeiro lugar sim, cada lado tem a sua verdade. Bush (só prá ficar em um exemplo) atacou o Iraque. Acabou com a soberania de um país. Mas o Saddan esmagava minorias. No fim, quem estava certo?

    Segundo: em nenhum momento eu coloquei os milicos como maldosos (procura no texto, eu fiquei bem em cima do muro), mesmo que minha inclinação humanista e minha indignação com todo o processo que culminou com o golpe em 64 me faça ter repulsa a qualquer ato de tortura (e, é claro, eu nunca ouvi falar de subversivo que torturava milico, mas eles teriam tratamento semelhante por minha pessoa na hora de comentar o que aconteceu nesta época).

    Como eu disse: na guerra existem os dois lados. Os dois tem suas "verdades" e suas "mentiras" (as aspas estão aí de propósito). Cabe ao historiador (e esta é a minha função aqui, afinal este é um site sobre História) expor os fatos da forma mais imparcial possível, como eu acredito ter feito.

    Agora… é ÓBVIO que todo familiar que teve um parente milico morto por subversivos não pode achar que a luta armada contra a Ditadura era algo bom (e aí eu não quero entrar no mérito das mortes, justificando-as ou não. É uma morte e ponto final). Isto é um fato que até o subversivo mais subversivo tem que dar o braço a torcer, não tem jeito!

  5. quantas mentiras foram e são contadas sobre a ditadura no brasil e os que mais falam as mentiras são exatamente, os que sentam hoje nos tronos do poder,os brasileiros honestos e trabalhadores não sofreram com o militares no poder.existe fgts,planos habitacionais,hidreletricas,ferrovias que hoje estão sucateadas pelos governos cívis etc etc construidos pelos militares,enfim:contar mentiras é muito facil para quem não conhece as verdades.

  6. É só liberar o anonimato que começa a falácia…

    Comentários "anônimos" proibidos novamente por tempo indeterminado… é o jeito…

  7. Este depoimento da Dilma eu acompanhei ao vivo pela TV SENADO, realmente o Agripino foi infeliz na pergunta. Eu gosto de acompanhar a política, e pra mim a partir desse depoimento nasceu a candidatura da Dilma para presidente por tudo que já havia acontecido.
    É impressionante como a mídia em geral DESINFORMA as pessoas, as escolas em que estudei (Públicas de baixa qualidade) pouco ensinavam sobre os fatos da ditadura e da história brasileira, pois a grade de ensino é ocupada pela história e cultura estrangeira (Por quê será?). Enfim recomendo a todos que acompanhem seus candidatos na TV SENADO e TV CAMARA, que por ser ao vivo não há EDIÇÃO, e com certeza é o melhor meio de formar uma opinião sobre a política e políticos.

    Professor estou procurando um documentário sobre a ditadura, que também passou na TV SENADO, em que registra uma conversa por telefone entre uma pessoa do alto escalão americano e por integrante do governo ditatorial brasileiro. Gostaria de rever mas não encontro este documentário, que é muito revelador sobre as relações americanas com a ditadura na América do Sul. Se souber algum link ou site, por favor poste em seu site ou me encaminhe.

  8. Tenho muitas dúvidas sobre a ditadura e estou tentando aprender, seu site tem ajudado muito! Obrigado!
    Agora uma das dúvidas é a seguinte: Essas pessoas, denominadas comunistas, lutavam contra a ditadura, para restaurar o que havia antes da mesma, ou para instaurar a ditadura do povo, o comunismo, ou seja lá qual for o termo correto? Abraços e parabéns pelo trabalho!

    1. Fábio, inicialmente os comunistas e simpatizantes é que lutavam, até mesmo porque algumas lideranças passaram até a serem perseguidas (depois do AI-5 então todo mundo teve que se esconder ou lutar definitivamente, porque a partir deste Ato Institucional a censura a qualquer manifestação contrária ao governo militar passou a ser LEI). Com o tempo, algumas pessoas também passaram a lutar pela volta da situação ANTES do Golpe. E aí podemos colocar na mesma situação artistas, profissionais liberais, estudantes diversos… enfim, qualquer pessoa perseguida ou que era contrária ao regime independente da orientação político-ideológica.

      Os militares, os MILICOS, é que colocavam todo mundo no mesmo saco, chamando-os de SUBVERSIVOS. Bastava emitir opinião contrária ao governo que já era taxado como subversivo.

      A sua primeira pergunta (feita no texto sobre o Golpe de 64) é muito boa, vou transformá-la em um texto. Só não te garanto QUANDO será publicado (provavelmente daqui uns 5, 6 dias), mas já estou pensando no texto, ok?

    2. hoje eles dizem que queriam democracia porem queriam comunismo no brasil e alem do mais se pegar os editoriais da epoca do golpe militar verá que o povo apoiava os militares , em 66 com a bomba no aeroporto de guararapes é que se deflagrou a repressão mais dura , ou seja começaram uma guerra , então agora não podem reclamar de mortes, mesmo porque os movimentos armados assaltavam bancos sequestravam e matavam tambem indiscriminadamente como no caso do tenente alemão morto por guerrilheiros , que declararam ter sido por engano, resumindo presdia ser contado os dois lados e alem do mais a ditadura no brasil foi branda se comparada a outros paises , no brasil perto de 400 mortos e desaparecidos, na argentina 30.000 mortos e em cuba na revolução do fidel quantos morreram?

    1. Manoel, acho que não existe UMA pessoa que possa ser apontada como “apoiadora” da ditadura… havia sim um série de pessoas, segmentos da sociedade que apoiavam, como a maioria da “classe média”, o pessoal da igreja católica (mas só no início… quando os padres começaram a denunciar a tortura e as violações aos Direitos Humanos o pau cantou e só mesmo os “cabeças” da igreja ficaram do lado dos generais)…

      É difícil apontar UMA pessoa.

  9. Tenho muitas dúvidas sobre a ditadura e estou tentando aprender, seu site tem ajudado muito!
    muito obrigado!
    e eu adimiru muito a Dilma por ele ter fito isso!
    mais aina tenho varis duvidas!!

  10. KKKKKKKKK……boa…….vamos ser lógicos, no mínimo ter um pouquinho de bom senso, devemos nos lembrar que hoje, com a “democracia” conquistada pelos “nossos políticos atuais” (sim ,foram eles os principais rivais da ditadura), com a fabulosamente comédia das “diretas já” que pude acompanhar ao vivo e nossa carta magna, a bendita”constituição de 88″ (que dizem eles ser o modelo das constituições, mas nenhum país é irresponsável o bastante de adotar algo parecido), que com isso eles roubam descaradamente sem pelo menos termos a chance de vermos a punição dos bandidos da política, que deram chance para a criminalidade se organizar como nunca existiu no país….ou seja, que conseguiram com que pais de família,decentes,trabalhadores, desarmados, sem defesa, sendo torturados e mortos pela bandidagem em número alarmantemente muito maior do que na época da ditadura.
    Parabéns a nossa magnífica “democracía”……

    1. O mais engraçado de tudo é que quem deveria cuidar dos “homens de bem”, da “família brasileira” e acabar com a bandidagem é justamente a POLÍCIA MILITAR, criada pela própria DITADURA, mas isso ninguém lembra, pois a culpa é da Constituição (que aliás, lá vai o mea-culpa, tá defasada em um mundo em frenética mudança).

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