Queda do muro de Berlim, 20 anos (II)

Leia também a primeira parte.

Segunda parte
A queda do muro e de todo o regime socialista:

Falar do muro enquanto uma cerca que separava Berlim ocidental do restante do bloco comunista e, porque não, também do bloco capitalista, deixando a cidade dependente da ponte aérea feita inicialmente na marra por pilotos estadunidenses e alemães ocidentais e depois permitida em um acordo costurado para evitar atritos desnecessários é fácil: é um muro, e só!

Mas o muro era um símbolo, não só da Guerra Fria e da bipolaridade do planeta. Era também o símbolo da pior característica do comunismo stalinizado, o comunismo temido, que proíbe a livre expressão e, no caso do muro, o livre ir-e-vir de seu próprio povo.

Na Guerra Fria não havia apenas a corrida espacial, armamentista e econômica. Existia também uma queda de braço para ver quem desistiria de seu regime econômico primeiro. É fácil dar os louros da vitória aos americanos, como fez em um discurso recente a chanceler alemã, Angela Merkel, mas o que muitos não sabem é que o muro ruiu de dentro para fora.

Mikhail Gorbachev e o fim da Doutrina Brejnev:

Nem só de glasnost [transparência] e perestroika [reestruturação] viveu o governo de Gorbachev. As duas medidas políticas adotadas pelo homem forte da URSS desde 1985, quando chegou ao poder diziam respeito mais à política interna da URSS do que ao bloco comunista.

Além do Pacto de Varsóvia, havia ainda a Doutrina Brejnev, que regulava o bloco. Em 1988, ao anunciar que a URSS abandonava esta doutrina, Gorbachev dava sinal verde para que o Partido Comunista de cada país controlasse a política de forma independente, sem qualquer intromissão do Partido Comunista soviético.

Gorbachev já conseguia visualizar o colapso do regime comunista, o descontentamento de alguns (poucos) líderes políticos e de uma grande parte da população. Por seu discurso libertador – mesmo que essa palavra soe forte demais – era aclamado pelo povo, que sabia que os regimes comunistas eram sustentados pela força do Estado policial.

Ele vai acalmar o ânimo dos governantes capitalistas e não interferir nas mudanças propostas por líderes do bloco, como os líderes húngaros Karoly Grosz e Miklos Nemeth, que abrem a primeira brecha no “muro” – este, a “cortina de ferro” do bloco socialista, não o muro de Berlim – em 19 de agosto de 1989, organizando um piquenique às bordas da fronteira. Sim, você não está lendo errado, foi um piquenique, que reuniu húngaros, alemães orientais, ocidentais e austríacos, e que contou com a fuga de cerca de 600 alemães orientais para o “outro lado”.

A verdade é que a maioria do povo do bloco comunista não aguentava mais viver sob o regime, e o que Gorbachev fez foi dar apenas um empurrãozinho.

A fuga em massa e o desejo popular pela queda:

A fuga continuou nos meses seguintes, e milhares de alemães orientais passavam pela fronteira húngara sem sequer serem importunados pelos soldados. Oficiais da Alemanha Ocidental ajudavam na obtenção de registro e guiavam as famílias, arrumavam emprego, comida e moradia.

A coisa estava tão descarada que a Alemanha Oriental ficou às moscas. O êxodo de trabalhadores deixou o país sem muitos padeiros, pedreiros, médicos, pintores, enfermeiros, funcionários da administração pública, professores, camponeses. Pessoas saíam do trabalho para casa e não apareciam no outro dia para trabalhar. Os recursos já eram escassos, agora os comunistas perdiam a mão-de-obra que movia o país.

Havia uma tensão crescente não só na Alemanha Oriental, mas também em outros países, e de diversas formas. Na Polônia o Partido Solidariedade, que surgiu na década de 1980 como oposição aos comunistas, e caçado pela Lei Marcial era chamado para sentar na mesma mesa que os comunistas para tratar do futuro da política do país. Na eleição democrática proposta pelo Partido Comunista, o Solidariedade venceria com sobras. Nenhum comunista teria direito a fortes cargos no governo eleito pelo povo.

Na Tchecoslováquia o ator e escritor Václav Havel liderava a Revolução de Veludo, uma linda manifestação pública que durou dias e que fez os comunistas tchecos praticamente desistirem de manter o regime de partido único e convocar eleições diretas.

Já na Romenia, Nicolae Ceausescu, após a queda do muro de Berlim, teve que ser deposto. Ele e sua esposa foram capturados e julgados em um tribunal clandestino e a pena foi o fuzilamento.

Na Alemanha Oriental, em 9 de novembro de 1989, Günter Schabowski, em sua habitual entrevista coletiva, quando costumava passavar aos jornalistas as últimas medidas tomadas pelo Partido Comunista da RDA, informou uma decisão do conselho de ministros em abolir as restrições de viagens para o oeste e autorizava os alemães orientais a ter novamente um passaporte válido. As reações foram imediatas. Parte dos repórteres correram para fora da sala, e nas ruas, no fim de tarde, a população já rumava para os postos de controle. À noite, milhares de pessoas aguardavam a abertura dos portões.


Portão de Brandenburgo, na noite da queda do muro. Segundo Gorbachev, a URSS não poderia fazer nada para impedir a queda do muro, sob pena de provocar a Terceira Guerra Mundial.

“Logo ficou tarde demais. Do lado ocidental do posto de controle Charlie, dezenas de milhares de berlinenses reuniram-se: ‘Venham! Venham’, gritavam. ‘Estamos tentando’, gritavam de volta os berlinenses do leste que se acotovelavam a poucos metros dos guardas (…).

O comandante do posto de controle observou cuidadosamente a cena (…) talvez soubesse que o posto de controle maior de Bornholmerstrasse, ao norte, já havia aberto as barreiras, assediado por cerca de 20 mil pessoas (…). O fato é que exatamente às 23h17, deu de ombros (…).

‘Alles auf!’, ordenou, e os portões foram abertos. Ouviu-se um grande bramido, e a multidão avançou em tropel. Entre os primeiros a atravessar para o ocidente (…), estava uma mulher com rolos no cabelo, um sobretudo jogado apressadamente sobre o roupão de banho azul-bebê (…). Como uma enchente que irrompe subitamente, uma onda de gente se levantou e a levou consigo. No meio da multidão, ela virou a cabeça e gritou para um amigo que estava ao lado do fluxo: ‘Vou voltar em dez minutos! Só quero saber se é de verdade!’ [1]

Os postos de controle foram abertos aos poucos, pedaços do muro foram arrancados aos poucos, mas para aqueles que acreditavam na queda lenta, que duraria décadas, os eventos aconteceram rápido demais. Os estadunidenses não acreditavam no que suas emissoras de TV baseadas na parte ocidental de Berlim mostravam. O mundo não acreditava no que via.

A reunificação alemã vai acontecer em 1990, e a URSS sofre seu colapso em 1991, ocasionando o fim do comunismo na Europa. O resto é história. A reabertura política, a independência de várias ex-províncias soviéticas, formando novos países. A construção do bloco europeu de comércio, a Comunidade Européia. O Euro.

Mas a queda do muro também vai acarretar, por exemplo, a ascensão de Slobodan Milosevic na Iugoslávia, a guerra do Kosovo, a mudança do alvo inimigo para os EUA. Antes eram os comunistas, agora são os extremistas islâmicos.

As implicações da queda do muro ecoam até hoje. O ato é carregado de simbolismo, e não é em vão, pois mudou o mundo.

Para entender um pouco mais, leiam este estudo sobre a importância da queda do muro.

[1] 1989, o ano que mudou o mundo, págs 172 e 173.

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