O leitor Fernando (mais uma vez) fez uma pergunta para o site:
Vinicius…
Eu e meu irmão estavamos discutindo sobre a real História de um dos maiores expoentes de nossa terra (Mato Grosso) Marechal Cândido Rondon, “um desbravador de terras, pacificador e amigos dos indios”. Pois bem, na discussão ele diz que Marechal Rondon seria um “santo”, e eu digo que ele não estava mais para o “lado negro da força”, conheci alguns velhos cuiabanos que diziam que ele era uma pessoa bastante truculenta e violenta… gostaria de saber se você possiu alguma informação sobre ele?
Sem mais. Obrigado….
Fernando, como eu te disse no email que te mandei assim que li sua dúvida, é complicado fazer um julgamento definitivo da personalidade do Marechal Rondon, pois o que fica para a História são seus feitos, contados por historiadores que, ou viveram na mesma época que o Marechal, ou então pesquisaram em fontes da época para tentar desenhar a personalidade do homem.
E no caso do Marechal, como explicarei a seguir, os feitos são positivos.
Candido Mariano da Silva Rondon nasceu em Mimoso, distrito de Santo Antonio do Leverger, em 5 de maio de 1865, e faleceu no Rio de Janeiro em 19 de janeiro de 1958. De início podemos afirmar que Rondon viveu duas realidades distintas do cenário político brasileiro: a Monarquia e a República. E serviu ao exército em ambos os regimes.
Rondon estudou na Escola Militar, e alistou-se em 1881, estudando na Escola Superior de Guerra (ESG). Teve participação, quando ainda era estudante, nos movimentos abolicionista e republicano. Sua formação na ESG permitiu que fosse nomeado, no início da República, chefe do distrito telegráfico de Mato Grosso. E é a partir desta nomeação que Rondon passa a ganhar destaque enquanto militar e cidadão empenhado em expandir e facilitar a comunicação no Brasil, abrindo caminhos por onde passaram os cabos telegráficos, não só ligando Mato Grosso a outros estados brasileiros, mas também uma grande parte do norte e centro-oeste ao resto do país.
O sertanista Rondon:
A tarefa de ligar cidades e estados com as linhas telegráficas no início do século XX não era tarefa fácil, pelo menos no Brasil, e de forma mais específica, no norte e centro-oeste. As regiões eram cobertas por mata nativa – maioria selva amazônica – e ainda apinhada de nativos que nós, infelizmente, acostumamos em sala de aula a chamar de índios.
O trabalho era grande: abrir caminhos, mapear os terrenos, implantar as linhas telegráficas e estabelecer relações cordiais com os nativos, coisa que, dependendo da tribo, nunca tinha acontecido. Quando muito, a lembrança comum em algumas tribos da proximidade com o homem branco vinha dos bandeirantes. E muitas vezes estas lembranças não eram boas.
Rondon e sua equipe trabalharam de 1892 a a 1906 traçando os caminhos telegráficos que ligaram Cuiabá, Corumbá, Araguaia e o Goiás. Em 1907 ficou responsável pela construção da linha telegráfica ligando Cuiabá a Santo Antônio da Madeira, sendo a primeira linha a alcançar a região amazônica, em Rondônia – na época conhecido como Território Federal do Guaporé. O território chamaria Rondônia apenas em 1956 -, juntamente com a ferrovia Madeira-Mamoré. Essa equipe que ele liderou ficou conhecida como Comissão Rondon.
Esta Comissão foi além da expansão telegráfica. Rondon comandaria expedições na região amazônica, e em 1910 organiza e passa a dirigir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), embrião da FUNAI, criada em 1967. Conta a História que Rondon, em 1913, teria sido atingido por uma flecha envenenada lançada pelos índios nhambiquaras, mas a bandoleira de sua espingarda teria minimizado a penetração da flecha. Rondon teria então ordenado que seus comandados batessem em retirada, mantendo o princípio de somente penetrar na selva em paz.
Em 1914 foi inaugurada a linha até Santo Antônio da Madeira, totalizando mais de 300Km de linhas e mais 5 estações telegráficas. Entre 1919 e 1924, Rondon foi diretor da Engenharia do Exército, e apesar de sua prisão após a Revolução de 1930, apoiou o governo Getúlio Vargas.
Entre outros feitos de Rondon, em 1938 ajudou a promover a paz entre Colômbia e Perú, que disputavam o território de Letícia, voltou a assumir o SPI em 1939, em 1946 participou da pacificação dos xavantes, em 1952 apresentou a proposta de criação do Parque Indígena do Xingú. Em 1955 o Congresso promove Rondon a marechal do exército, e em 1957 foi indicado ao prêmio Nobel da Paz.
Considerações finais:
Como eu disse no início do texto, é difícil fazer o julgamento de Rondon. Como o Fernando disse, ele conheceu pessoas que diziam que Rondon era uma pessoa “tuculenta e violenta”. Bom, o homem era um militar, treinado desde cedo para servir ao país, se necessário, com o uso da força.
É bem provável que o militar Rondon tenha sido um homem rude, e não era de se esperar algo diferente, ainda mais na época que ele viveu. Desbravar terrenos desconhecidos, liderar equipes de trabalhadores civis e militares e estabelecer contato com populações nativas que muitas vezes não eram pacíficas não é trabalho para qualquer um, é preciso ter pulso firme para manter a ordem. Mesmo assim, temos o exemplo de 1913, onde mesmo atingido por uma flecha, Rondon não autorizou o uso de força bruta contra os nativos.
Agora, Fernando, se você ouviu realmente da boca destas pessoas que era um homem rude, faça seu próprio julgamento. A História não deve ser vista apenas como ela está escrita nos livros, o interessante é ter acesso ao maior número possível de fontes e a partir daí elaborar uma síntese dos fatos e dos personagens.
E isto deve ficar a cargo de cada um.
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