E se Getúlio não tivesse cometido o suicídio?

Getúlio Vargas

O título do texto foi uma pergunta feita pela leitora (e amiga) Maria Cecília. Na verdade, a pergunta literal feita por ela foi a seguinte:

E se Getúlio Vargas não tivesse se matado, ainda mais deixando aquela carta?

Primeiro nós precisamos entender qual era a real situação política de Getúlio Vargas naquele momento, pois assim como foi sua saída após o seu primeiro governo – que durou de 1930 a 1945 – as circunstâncias em 1954 não estavam favoráveis à sua permanência. Longe de mim tentar explicar aqui, em poucas linhas, tudo que aconteceu durante o segundo governo Vargas e fazer uma análise do meu ponto de vista sem errar. Não dá! Mas eu posso utilizar o espaço da coluna “E se…” para fazer um exercício de imaginação. Afinal de contas, esta é a proposta da coluna, nada mais que um exercício de imaginação a partir dos fatos históricos.

O “Pai dos pobres”… e a “Mãe dos ricos”:

Getúlio Vargas

Assim Getúlio era e ainda é chamado por alguns. É certo que a alcunha de “Pai dos pobres” era a mais utilizada, mas muitos chamavam o gaúcho de São Borja de “Mãe dos ricos” – pelas costas, claro.

É fato que Getúlio construiu sua carreira política em cima de atitudes paternalistas para com a população. Foi durante seu governo que foram instituídas a maioria das leis trabalhistas que vigoram até hoje. Mas apesar da ajuda aos menos favorecidos, alguns setores da sociedade reclamavam também da falta de atitude de Getúlio em realmente querer mudar o Brasil. Estas críticas, inclusive, são feitas hoje por setores políticos e parte da sociedade ao presidente Lula.

Mesmo assim, após ser deposto em 1945, Getúlio volta “nos braços do povo” em 1951, após ser eleito para a presidência de forma democrática. E ele não descansou enquanto esteve no poder: criou a Eletrobrás, a Petrobrás e bateu de frente com diversas empresas estrangeiras que remetiam seus lucros para o exterior. Em 1952 um decreto instituiu o limite de 10% para estas remessas saírem do país. Em 1953 Getúlio nomeia João Goulart – ele mesmo, que seria eleito presidente mais à frente – como ministro do Trabalho, com o objetivo de melhorar a política trabalhista e aproximar ainda mais os trabalhadores do governo. Goulart então propõe ao governo o aumento de 100% do salário mínimo!

Claro que esta proposta desagradou aos empresários e alguns políticos que faziam forte oposição ao presidente. Nesta época Carlos Lacerda, líder da UDN e principal crítico de Vargas, atacava diretamente o governo, acusando Vargas de estar metido em um “mar de lama”, pois ele acumulava privilégios para aliados políticos e parentes – qualquer semelhança com algo que acontece HOJE com alguns políticos brasileiros NÃO É mera coincidência, a prática é antiga -, além de acusar Vargas de tentar instituir no Brasil uma República Operária, dando brecha para a futura entrada do comunismo no Brasil.

Havia também o descontentamento das Forças Armadas, por causa da permanência de João Goulart no posto de ministro – Jango era persona non grata, pois sempre foi considerado pelos seus pares um político de forte orientação comunista. E o fato que desencadiou todo o processo que culminou com o suicídio de Vargas foi o atentado sofrido por Carlos Lacerda, em 5 de agosto de 1954, na rua Toneleiros, no Rio de Janeiro. No episódio o major Rubens Florentino Vaz morreu defendendo Lacerda, e nas investigações do crime ficou provada a participação de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio.

A situação de Vargas ficou insustentável. Lacerda aumentou a carga às críticas, parte do Congresso e os militares pediam sua renúncia. E na noite do dia 24 de agosto de 1954, Vargas comete o suicídio, dando um tiro no peito, próximo ao coração.

Com a notícia de sua morte e a publicação de sua carta-testamento nos vários jornais da época, muitas manifestações populares tiveram início, e a sede da UDN, jornais anti-getulistas e a embaixada dos EUA foram invadidos pelos manifestantes simpatizantes de Getúlio.

Mas a pergunta é: e se ele não tivesse se matado? Como eu disse no início do texto, é complicado tentar desvendar o que aconteceria. Na verdade, existem algumas hipóteses que eu considero neste caso. São elas:

Alguém mataria Getúlio e divulgaria uma carta com as mesmas palavras, ou com a mesma essência:

Os chamados “teóricos da Conspiração” acreditam, inclusive, que esta é a verdade! Getúlio não teria cometido o suicídio, mas uma segunda pessoa dentro do quarto teria tirado a vida do presidente. O fato da carta ser divulgada com a mesma essência vem de encontro com a manutenção da figura do estadista para com o povo, justamente para tentar esfriar os ânimos dos mais exaltados. Se a oposição fosse responsável pela morte de Getúlio o ambiente poderia ficar incontrolável em todo o país. E para quem quiser ler a carta, pode clicar neste link.

Getúlio renunciaria e nunca mais voltaria ao cenário político nacional:

É bom lembrar que Getúlio voltou para São Borja exilado em 1945, após o golpe que acabou com seu governo, mas voltou em 1951 eleito de forma democrática. Só que desta vez eu acho que ele não voltaria – ou melhor, não deixariam ele voltar – ao cenário político nacional. Apesar de ser o maior expoente do PTB até hoje, Getúlio talvez figurasse apenas no governo gaúcho após a renúncia. Se bem que João Goulart, mesmo preterido pelos militares, foi eleito vice-presidente do governo JK, e chegou à presidência mais tarde. A população clamava por um líder populista – JK foi eleito nestes moldes -, e caso Getúlio ainda estivesse vivo, ele seria o primeiro nome lembrado.

Getúlio dá um novo golpe de Estado e mantém-se no poder:

Esta hipótese é complicada, mas pode ser considerada. Apesar da insatisfação de grande parte das Forças Armadas, Getúlio poderia ter dado um novo golpe, como fez em 1937 e implantou o Estado Novo. Mas teria que retirar da equipe de governo uma grande parte dos colaboradores, e fazer o jogo dos empresários e poderosos do Brasil. Acho esta a opção mais improvável de todas, pois Getúlio teria que implantar uma ditadura mais pesada que a de 1937, devido à quantidade de opositores na época.

E com relação à carta-testamento, eu acho que ela só foi divulgada por causa da morte de Getúlio. Se ele continuasse vivo esta carta talvez nunca viesse a público. Um discurso de renúncia com o mesmo tom da carta talvez tivesse o mesmo efeito do caso do suicídio ter sido na verdade um assassinato, ou seja: iria exaltar o ânimo da massa. E esta massa pressionando o governo provavelmente aceleraria o golpe militar que só ocorreu em 1964.

Mas aí eu já estou querendo reescrever a História do Brasil, não é?

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Senhorita Maria Cecília, minha amiga dotôra, eu espero ter respondido à sua pergunta de forma satisfatória. E se você, leitor, quiser mandar também uma pergunta para o site, pode usar nosso formulário de contato, ok? Responderemos o mais rápido possível.

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Um comentário para “E se Getúlio não tivesse cometido o suicídio?

  1. Hey Vinícius!

    Obrigada por responder minha pergunta/ aceitar minha sugestão. Ficou bem legal. Ainda acho essa carta uma coisa fantástica. Fico pensando se ela tivesse acabado em outras palavras se o impacto seria tão grande. GV teve a manha de escolher as palavras.

    Beijo grande =)

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