Islâmicos e cristãos

De um lado, um povo plenamente convicto de que tinha sido escolhido para receber a mais completa revelação de Deus. De outro, um povo que tinha vencido vários obstáculos até a total conversão de seus líderes.

No meio da história, dois messias que foram responsáveis por divulgar A Palavra, cada um de seu jeito.

Muçulmanos e cristãos nunca tiveram uma convivência totalmente pacífica, e as diferenças religiosas e ideológicas sempre marcaram os intensos debates desde o início da convivência.

Os cristãos se multiplicaram, e no séc. IV o catolicismo já era a maior religião na Europa, pois era a religião oficial de Roma. Enquantos os cristãos garantiam o monopólio religioso na Europa nos séculos seguintes e ditavam até mesmo o modo como deveriam viver o clero, os senhores e os servos, na Península Árabe um profeta unia, sob a religião islâmica, as diversas famílias que viviam na região.

Os Árabes e o comércio, uma estreita relação:

Responsáveis talvez pela retração dos povos europeus, os árabes iniciam sua expansão territorial já no séc VII, seguindo o litoral mediterrâneo do continente africano até o Estreito de Gibraltar, atravessando-o e ocupando a Península Ibérica, e fechando as rotas comerciais por terra para o Oriente. Como os europeus não poderiam ficar muito tempo sem fazer comércio – mesmo que na Idade Média européia o comércio foi aumentar consideravelmente só após os sécs. X e XI -, a convivência entre as duas religiões foi inevitável.

Para os muçulmanos o comércio e a vida, como um todo, sempre estiveram ligados à religião. Os árabes sempre foram exímios comerciantes, desde a época das tribos nômades que ocupavam a região da Península Árabe, e Maomé vai unificar a religião e a política sob as palavras de Alah. O Corão, além de ser um livro voltado para o crescimento espiritual do indivíduo, também trazia regras para o dia-a-dia, em vários aspectos, assim como a Bíblia ou a Torah.

Assim, onde ia o islã, ia também um intenso comércio e uma cultura exuberante! Enquanto os europeus viviam à sombra dos dogmas católicos, os árabes expandiam sua cultura, ao debater com cristãos orientais, politeístas asiáticos e africanos e, porque não, também com os cristãos ocidentais.

O verdadeiro significado da palavra jihad:

Erroneamente traduzido como “guerra santa”, o termo jihad em nada significa uma guerra, pelo menos no sentido bélico da palavra. Na verdade a jihad é uma luta, uma busca para uma fé plena do indivíduo, e deve ser lutada pelo próprio indivíduo. Segundo Maomé, existem dois tipos de jihad: a jihad maior, que é justamente esta luta do indivíduo para alcançar a fé plena, e a jihad menor, que é o esforço dos muçulmanos para levar o islã para os povos que não tiveram contato com as palavras de Alah.

Hoje o termo recebeu uma interpretação e um significado errados, e certamente isto acontece por culpa dos atentados terroristas executados por grupos islâmicos ultra-radicais que em algum momento tiveram uma percepção equivocada do termo “jihad”, e usam as palavras de Maomé com motivações políticas. Estão errados, assim como os que consideram os muçulmanos terroristas.

Existiram em alguns momentos da expansão árabe as guerras de conquista? Claro que sim, e seria de se estranhar que os povos que sofreram a ocupação aceitassem os árabes de forma passiva. Mesmo assim, os árabes toleravam o culto particular dos povos submissos, mediante o pagamento de tributos. Sendo assim, não podemos imaginar a jihad como uma luta pela imposição da fé islâmica, mesmo reduzindo todas as relações árabes ao simples comércio.

Em contrapartida, os católicos também moveram exércitos contra os árabes, nas Guerras de Reconquista da Península Ibérica e nas Cruzadas ao Oriente, sob motivação religiosa. A desculpa era a de libertar alguns lugares considerados sagrados, mas na verdade tanto a expansão árabe quanto as cruzadas tiveram motivações explícitamente comerciais.

A cultura islâmica:

Como os árabes sempre estavam em contato com outros povos, outras culturas completamente diferentes, vários aspectos e costumes de outros povos acabaram assimilados e/ou adaptados aos seus interesses. Na Espanha, por exemplo, ainda podemos encontrar de pé muitas das construções da época da ocupação islâmica, como a mesquita de Córdoba (foto abaixo).

Na arquitetura, os árabes sofreram influência bizantina e persa, e utilizavam em suas construções arcos ogivais, cúpulas e minaretes.

Os árabes também aperfeiçoaram a geometria, a álgebra e a matemática, e como principal legado na área, deixaram o atual sistema numérico (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9).

Avicena foi o principal filósofo do islamismo, e contribuiu com suas traduções de escritos gregos sobre medicina, geometria, gramática, astronomia e física. Estudou profundamente Platão e Aristóteles, conciliando as duas linhas de pensamento com o objetivo de provar a existência de Deus. O Cânone (Al-Qanun) foi o livro de medicina mais importante de sua época. Pensadores ocidentais posteriores, como Tomás de Aquino e Alberto Magno, nutriam grande admiração pela obra de Avicena.

Mais sobre a cultura islâmica você pode ler aqui, no site do Centro de Estudos e Divulgação do Islã.

Conclusão:

O texto inicialmente deveria citar as motivações históricas dos conflitos entre islâmicos e cristãos, mas o assunto é deveras longo. Confesso que dá para escrever pelo menos uns três textos sobre o assunto sem ser repetitivo, e eu acabei explicando mais sobre a cultura islâmica do que propriamente os conflitos entre os dois grupos religiosos. Futuramente o site voltará a tratar do assunto de forma mais específica, já que os conflitos existiram, não somente na Idade Média, mas também nos séculos seguintes – e acontecem até os dias de hoje, infelizmente.

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